Aviões russos sobrevoam Guam e põem americanos em alerta

Estabilização econômica faz Rússia retomar hábitos abandonados após o fim da Guerra Fria

Reuters e AP, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

Os americanos mal puderam acreditar quando, na quarta-feira, os radares de sua base militar em Guam, no Oceano Pacífico, detectaram a aproximação de dois bombardeiros russos TU-95. A presença de aviões russos na região era comum durante a Guerra Fria, mas depois da dissolução da União Soviética, em 1991, os russos nunca mais foram vistos.Caças americanos decolaram de um porta-aviões para interceptar os bombardeiros. As aeronaves se cruzaram no ar, os pilotos trocaram sorrisos e os russos voltaram para casa. A aventura foi parte de um exercício militar da Rússia divulgado ontem pelo major Pavel Androsov, da Força Aérea russa.O fato, contudo, mostra que a Rússia está revivendo hábitos da Guerra Fria em uma tentativa de mostrar ao mundo que o país voltou a ser um ator mundial. ''''Nós revivemos uma tradição de voar pelo Pacífico para encontrar porta-aviões americanos e acenar para seus pilotos'''', disse Androsov.Para o analista político Ivan Safranchuk, diretor do World Security Institute, centro de estudos de Washington, a Rússia interrompeu essa prática por causa da falta de dinheiro. ''''Agora que a economia russa se recuperou, o país voltou à ativa. Você pode queimar combustível sobrevoando seu próprio território ou voando para lugares como Guam, o que traz dividendos políticos maiores.''''Os russos consideram como marco dessa nova política o discurso do presidente Vladimir Putin durante a Conferência sobre Políticas de Segurança de Munique, em fevereiro. Na ocasião, Putin usou a mesma linguagem dura dos tempos da Guerra Fria para criticar a expansão da Otan e a política externa americana.Desde então, o Kremlin endureceu o jogo. Ameaçou se retirar do Tratado sobre Forças Nucleares Intermediárias, que proibiu mísseis nucleares de médio alcance, e suspendeu sua participação no Tratado sobre Forças Convencionais na Europa, que regulava o deslocamento de armas e equipamentos no continente. Além disso, Putin se nega a conceder independência ao Kosovo, como querem os EUA, reclama da insistência dos americanos em instalar um escudo antimíssil na Polônia e na República Checa e mantém uma política energética agressiva, que torna a Europa e as ex-repúblicas soviéticas cada vez mais dependentes de Moscou. Incidentes como o míssil disparado na Geórgia, na segunda-feira, são apenas novos exemplos da nova posição do Kremlin.Alexei Arbatov, diretor do Centro de Segurança Internacional da Academia de Ciências da Rússia, diz que a correlação de forças entre a Rússia e o Ocidente mudou com a estabilização econômica russa e o aumento do preço do petróleo e do gás. ''''Mas vivemos uma tensão diferente daquela da Guerra Fria. Hoje o mundo é multipolar e a Rússia quer seu lugar no jogo'''', disse Arbatov. ''''E uma das estratégias é impedir a expansão da Otan sobre as ex-repúblicas soviéticas.''''

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