Avô-bomba resume drama argelino

Sem se encaixar no estereótipo de terrorista, suicida de 63 anos levanta questões sobre motivações dos rebeldes

Katrin Bennhold, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

Como terrorista suicida, ele foi bastante incomum. Mas a história de Rabah Bechla, de 63 anos, - um avô com sete netos que jogou um caminhão repleto de explosivos contra um escritório da ONU em Argel no dia 11, matando pelo menos 17 pessoas - é, de muitas maneiras, a história da própria Argélia.A idade de Bechla chocou uma nação acostumada ao terrorismo - mas a um terrorismo geralmente associado à impulsividade dos jovens. Se seu parceiro naquele dia, um ex-condenado de 30 anos que acionou a outra bomba, foi descrito como um caso típico de um jovem radical, Bechla representa uma ruptura com o estereótipo.Seu caso lança novas dúvidas sobre a eficácia de usar perfis padronizados para detectar radicais islâmicos. Como observou um jornal local: "Se um avô pode se explodir, qualquer um pode." A fome de explicação entre os argelinos tornou-se evidente numa série de revelações sobre a vida pessoal de Bechla na imprensa local, algumas verdadeiras - a de que ele estava doente -, outras aparentemente falsas. Por exemplo, dois de seus filhos não morreram pela causa jihadista; na verdade, estão vivos e deram longa entrevista negando qualquer participação no movimento islâmico.Os argelinos também estão intrigados com Bechla porque sua vida reunia os problemas que têm assombrado este país por seis décadas. A história da família nesses anos se estende ao avô de Bechla, que lutou pela França contra a Alemanha na 2ª Guerra Mundial; seu pai, que foi torturado e morto pelos franceses durante a Guerra de Independência; e sua própria decisão de votar pelos islâmicos na eleição presidencial de 1991.A trajetória continua até o presente. Um de seus filhos fez algo que muitos outros jovens argelinos tentaram: tomou a decisão desesperada de tentar entrar na Espanha como imigrante ilegal. "Muitos argelinos podem se identificar com essa história", disse Mouloud Hamrouche, um ex-premiê da mesma idade que Bechla que se opôs à decisão de anular a eleição de 1991, depois que ficou claro que os islâmicos a venceriam. "Ele é um exemplo do que aconteceu de errado ao longo dos anos."Na casa da família, os filhos de Bechla e sua mãe, Zohra, de 82 anos, ainda estavam em estado de choque. "Somos contra o terrorismo; somos contra esse ato", disse a filha mais velha, Hadra, de 33 anos. Atrás dela, uma foto de Bechla aos 40 anos: um homem de aparência séria com uma barba grisalha e olhos azuis penetrantes. "Tudo que pedimos é que as pessoas vejam também o outro lado", disse ela, olhando para a foto. "Meu pai também foi uma vítima."Segundo Hadra, Bechla começou como um defensor ferrenho da Frente de Libertação Nacional, o partido governante que nasceu da força armada que conquistou a independência em relação à França em 1962. Mas ele foi ficando cada vez mais decepcionado com um regime que não conseguia transferir as riquezas em energia do país às pessoas comuns.Em 1990, as autoridades negaram uma licença de taxista para Bechla, quando problemas reumáticos e renais o impediram de continuar trabalhando como vendedor. "Ele se sentiu traído, depois de seu pai ter morrido por seu país", disse outra filha, Assia, de 28 anos.A família disse que um ano depois, no que foi saudado como as primeiras eleições parlamentares livres da Argélia, Bechla esteve entre os milhões que votaram pela Frente Islâmica de Salvação (FIS), que prometeu generosos programas de bem-estar social e venceu o primeiro turno sem dificuldade antes de o Exército intervir.Em 1995, Bechla ficou sabendo da prisão e tortura de simpatizantes da FIS e decidiu esconder-se nas matas orientais, onde os militantes islâmicos atuavam. "Ele disse que não tinha forças para suportar a tortura." Bechla aparentemente acabou se ligando ao grupo agora conhecido como a Al-Qaeda no Magreb Islâmico. Depois de alguns anos sem contato, a família ficou sabendo de Bechla por amigos. Sua mulher, Aisha, que morreu tempos depois, insistiu com ele para que aceitasse a anistia oferecida pelo governo e retornasse para casa. A julgar pelo que diz a família, Bechla não estava à vontade com os militantes. "Ele queria voltar, mas estava apavorado: apavorado com o governo e apavorado com a Al-Qaeda", disse Assia. "Ele disse que a coisa estava fora de seu controle. Eles não o deixariam sair."Hadra desmentiu rumores de que a Al-Qaeda no Magreb Islâmico tenha pago à família uma compensação pelo atentado suicida do pai. "Não nos deram nada. Não temos nada a ver com eles." Um dos três filhos de Bechla, Younes, desmentiu que seus dois irmãos tivessem aderido à Al-Qaeda e morrido em choques com forças do governo. Athmane, o caçula, também estava na casa. À tarde, o terceiro filho, Mokhtar, ligou para a família e contou, para alegria geral, que havia conseguido entrar em Melilla, enclave espanhol na costa africana. "Alguns vão para as montanhas unir-se aos terroristas, e alguns tentam chegar à Europa", disse Hadra. "O país é rico, mas o povo é pobre."

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