Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

Avô resgata 7 netos em campo de refugiados na Síria

Chileno de 50 anos levou para a Suécia, onde mora, as crianças com idades entre 1 e 8 anos que estavam abrigadas no nordeste da Síria; os pais dos menores, que se uniram ao grupo jihadista em 2014, teriam morrido em combate neste ano

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2019 | 11h02

COPENHAGUE - Patricio Galvéz, um músico chileno residente na Suécia, chegou nesta quarta-feira, 15, a Gotemburgo com os sete netos, órfãos de jihadistas, um mês depois de viajar para a Síria para resgatá-los do campo de refugiados de Al-Hol.

As crianças, com idades entre 1 e 8 anos, foram levadas ao campo de Al-Hol após a queda, no final de março, de Al Baguz, o último reduto do califado criado no norte da Síria e do Iraque pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI), ao qual seus pais tinham se unido depois de deixar a Suécia

As autoridades curdas que controlam a região autorizaram na semana passada, após uma negociação com a Suécia, a transferência das crianças ao Iraque para se reunir com o avô, submetê-las a exames médicos e realizar os últimos trâmites burocráticos.

"A viagem foi boa, estiveram tranquilas. Agora a polícia virá nos buscar e nos levarão aos escritórios dos serviços sociais", declarou Galvéz à televisão pública sueca "SVT" no aeroporto de Gotemburgo.

Galvéz revelou que os netos estavam "muito felizes" e gritaram ao voltar a Gotemburgo, onde residiam seus pais  – sua filha era Amanda González, uma sueca de origem chilena, e seu genro era Michael Skramo, um jihadista norueguês conhecido pelos vídeos nos quais convidava compatriotas a se unir ao EI e cometer atentados na Suécia.

A história de Galvéz provocou um intenso debate político sobre a necessidade de resgatar as crianças de origem sueca órfãs de jihadistas que estão em acampamentos sírios, algo que foi feito por outros países com seus cidadãos.

O governo sueco mostrou-se inicialmente reticente em atuar, mas acabou modificando sua posição, embora tenha ressaltado que cada caso deva ser tratado de forma individual. “São covardes que não respeitam a convenção internacional dos direitos das crianças. Hoje, não se trata de passaportes nem de documentos consulares. Trata-se de uma ação humanitária”, declarou Galvéz, no mês passado, diante das reservas iniciais de Estocolmo.

Skramo e Amanda, ambos convertidos ao Islã, viajaram de férias em 2014 à Turquia com seus quatro filhos – tiveram mais três depois. De lá, se deslocaram para a Síria. Amanda só contou ao pai que ela e o marido eram do EI depois que chegaram em território sírio. Galvéz tentou convencê-la a voltar para a Suécia, mas ela disse que estava determinada a lutar com os jihadistas.

A filha morreu no dia 3 de janeiro, em combate, e o genro dois meses depois, deixando as sete crianças órfãs.

Pelo Facebook, Galvéz agradeceu a cada um que tornou o resgate de seus netos possível e assegurou que vai trabalhar para repatriar todas as outras crianças suecas que estiverem na Síria.

“Há pelo menos 80 órfãos suecos em Baghuz. Outros moram com as mães, mas também precisariam ser retirados, pois muitos estão doentes. Todas aquelas pessoas que vieram de Baghuz estão com infecções do trato urinário, infecções pulmonares, fome e diarreia. Eles vieram para um acampamento onde não podem ser ajudados. Organizações como a Cruz Vermelha não têm uma ação contínua no campo. Precisam de permissão para entrar. E esse processo dura dias ou semanas”, contou.

Pelo menos 40 mil combatentes de 80 países e suas famílias se juntaram ao EI desde que os jihadistas anunciaram a criação do califado, em 2014. Muitos estrangeiros morreram ou foram enviados a campos ou prisões na Síria, Iraque ou Líbia. 

Milhares de filhos desses combatentes estão sozinhos em acampamentos e orfanatos e muitos governos estrangeiros não sabem o que fazer com eles. Após anos de doutrinação do EI, muitos países ainda temem repatriar futuros jihadistas. / EFE e REUTERS

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