EFE/Natalia Kidd
EFE/Natalia Kidd

Avós da Praça de Maio apresentam 120º neto recuperado na Argentina

José Luis Maulín Pratto havia sido roubado assim que nasceu em 1977, em meio a ditadura argentina. Embora tenha uma relação estreita com seus pais biológicos, ele não consegue substituir seu sobrenome falso pelo verdadeiro

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2016 | 10h02

BUENOS AIRES - A líder da organização Avós da Praça de Maio, grupo que se dedica a buscar filhos de desaparecidos durante a ditadura argentina (1976-1983), Estela de Carlotto, classificou como "única" a última das 120 histórias de netos que já descobriram sua real identidade.

José Luis Maulín Pratto foi sequestrado assim que nasceu, em 1977, e entregue a um casal de civis ligado à Força Aérea. Em 2009, foi encontrado por sua irmã biológica e se aproximou dos pais de sangue, que escaparam da repressão em 1982, algo já incomum na lista da organização.

O que torna o caso de José Luis "estranho", na definição de Estela, é que, embora ele tenha passado a ter uma relação estreita com a família e a pedir a condenação da mulher que o criou, não consegue se livrar do sobrenome dos apropriadores, e não pode tirá-lo de seus filhos de 12 e 16 anos. A causa está há pelo menos cinco anos na Justiça da Província de Santa Fé, no nordeste do país. 

"Sou José Luis Maulín, mas estou ainda obrigado a chamar-me José Luis Segretín”, escreveu no mês passado à Justiça em uma carta na qual destaca "a vergonha e azar de ter uma identidade que não é a sua e ser vítima de um delito cometido há 38 anos e repetido a cada dia".

O militante de esquerda Rubén Maulin, pai de José Luis, foi sequestrado em sua casa, em 1976, durante uma operação militar na cidade de Reconquista, em Santa Fé, diante de sua mulher, Luisa Pratto,­ que estava grávida, ­e de seus dois filhos. Segundo as Avós, "os repressores torturaram Luisa em casa, diante dos filhos, e a violentaram". 

Na semana passada, foram denunciadas a mulher que criou José Luis, Cecilia Góngora, e a médica que fez o parto e firmou a ata de nascimento. O homem que o criou, José Sagretín, morreu. A acusação é de crime premeditado.

Quando deu à luz em um hospital local, no dia 26 de março de 1977, Luisa foi registrada na instituição com o nome Cecilia Góngora de Segretín. A tática é um sinal da sensação de impunidade que os sequestradores julgavam ter por sua proximidade dos militares, pois a troca do nome da mãe dava uma pista clara de como chegar a José Luis em uma cidade como Reconquista, de 105 mil habitantes.

"Não há explicação para que, havendo provas do Banco Nacional de Dados Genéticos, o próprio Estado negue ao rapaz recuperar o que já sabe", afirmou Estela. Consultada pelo Estado, a instituição disse que a demora incomum se deve aos trâmites adotados na Justiça, que não seguiram o precedimento usual dos casos registrados pela associação.

O sequestro de José Luis não estava nos registros das Avós, aos quais só foi adicionado agora. Por isso, José Luis terá de esperar uma sentença para passar de fato a se chamar Maulín Pratto e abandonar o sobrenome Segretín.

Veja abaixo: Avós da Praça de Maio encontram 118º neto

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