‘Azarões’ viram favoritos na prévia do Partido Republicano em Iowa

Donald Trump lidera as intenções de voto, seguido por Ted Cruz, ambos rejeitados pelos líderes tradicionais da legenda

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2016 | 02h00

Em sua mais surpreendente disputa interna em décadas, o Partido Republicano chega ao início das prévias eleitorais americanas na segunda-feira com um par de insurgentes nos dois primeiros lugares das pesquisas de opinião: Donald Trump e Ted Cruz. Se vencer a disputa em Iowa, o bilionário reforçará sua liderança e a possibilidade de conquistar a candidatura, apesar da resistência dos caciques da legenda.

A rebelião que levou Trump ao topo da preferência dos eleitores republicanos era impensável em junho, quando o empresário que flertou com democratas no passado anunciou sua intenção de disputar a nomeação. Sete meses mais tarde, ele é o favorito nos primeiros Estados que realizarão prévias – Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul. Se abocanhar os três, muitos analistas acreditam que será difícil interromper sua caminhada rumo à candidatura.

Os demais aspirantes à nomeação republicana engalfinham-se para apresentar-se como uma alternativa viável ao outsider que nunca ocupou um cargo eletivo. Para sorte de Trump, o nome que subiu ao segundo lugar nas pesquisas é o do senador texano Ted Cruz, ainda mais desprezado do que ele pelos líderes tradicionais da legenda. “Se a escolha for entre Trump e Cruz, não há dúvida de que votarei em Trump”, disse ao Washington Post o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani.

O próprio senador reconhece que será difícil impedir a nomeação do bilionário se ele sair vitorioso nos primeiro Estados a realizar prévias. “Se Donald vencer Iowa, ele agora tem uma vantagem substancial em New Hampshire, e se ele também vencer New Hampshire, há uma chance de ele ser imbatível e se tornar nosso próximo nomeado”, declarou Cruz em uma reunião com líderes religiosos de Iowa, na qual tentava se apresentar como o único conservador capaz de se opor a Trump.

As prévias de Iowa costumam ser um indicador ruim de quem vencerá a disputa final republicana. O escolhido no Estado só ganhou a nomeação da legenda em 2 das 6 vezes em que houve disputa desde 1980. Apenas George W. Bush acabou vencendo a eleição presidencial, em 2000.

Mas o resultado de Iowa desempenha a função de aplainar o terreno e revelar os nomes com chances reais de se manter na disputa. “Se um candidato não termina entre os três primeiros colocados, a tendência é que as doações de campanha sequem”, disse David Yepsen, diretor do Instituto de Políticas Públicas da Universidade Sulista de Illinois, que durante três décadas e meia cobriu a política de Iowa para o jornal Des Moines Register, o mais importante do Estado.

Desde os anos 80, só um pré-candidato republicano obteve a nomeação do partido depois de terminar abaixo do terceiro lugar em Iowa: John McCain, que perdeu a eleição geral para Barack Obama em 2008. Terceiro colocado nas pesquisas entre os eleitores republicanos no Estado divulgadas até sexta-feira, o senador da Flórida Marco Rubio se esforça para superar Cruz e se firmar como uma alternativa viável a Trump aos olhos da ala tradicional do partido.

O candidato que ocupava essa posição no início da disputa, em junho, era o ex-governador Jeb Bush, filho e irmão dos ex-presidentes George H. Bush e George W. Bush. Mas ele chega ao início da temporada de prévias em um humilhante quinto lugar nas pesquisas nacionais.

Sem chances de obter uma boa posição em Iowa, ele centra sua artilharia em New Hampshire, o próximo local a definir candidatos. Bush obtém 10% das intenções de voto no Estado e está próximo do segundo e do terceiro colocados – o governador de Ohio, John Kasich, e Cruz.

“Não creio que ele terá um bom desempenho em Iowa. É mais importante para Jeb Bush ter um bom resultado em New Hampshire. Se for muito mal em Iowa e New Hampshire, pode ser o fim para ele”, observou Simon Conway, um dos mais populares apresentadores de rádio de Iowa, identificado com o Tea Party, a ala mais conservadora do Partido Republicano.

Com apenas 3 milhões de habitantes, o primeiro Estado americano a realizar prévias exige uma campanha corpo a corpo, que muitas vezes favorece candidatos desprovidos de forte apoio financeiro. Em 2008, Hillary Clinton era considerada a favorita na disputa pela nomeação do Partido Democrata, mas saiu de Iowa em terceiro lugar. O vencedor foi o então pouco conhecido senador Barack Obama, que ganhou impulso com o resultado para conquistar a indicação da legenda e se tornar o primeiro presidente negro da história dos EUA.

O fantasma da derrota em Iowa volta a assombrar Hillary em 2016. Segundo a média das últimas pesquisas calculada pelo site RealClearPolitics, a ex-secretária de Estado tem uma vantagem de apenas 2,5 pontos porcentuais em Iowa sobre seu mais próximo adversário, o senador Bernie Sanders. Um ex-socialista que está à esquerda de Hillary no Partido Democrata, Sanders lidera com folga em New Hampshire.

A tendência é que Hillary recupere a vantagem quando a disputa se mover para a Carolina do Sul, no dia 27, mas o início da temporada de prévias promete ser turbulento para ela. Na sexta-feira, o governo confirmou que mensagens consideradas secretos foram acessadas por Hillary em seu e-mail particular quando era secretária de Estado de Obama.

A emergência de Trump e Cruz preocupa a liderança tradicional do Partido Republicano, pois ambos são considerados excessivamente radicais para conquistar os eleitores independentes em uma eventual disputa com Hillary. Mas ela terá contra si a histórica dificuldade de seu partido de conquistar a Casa Branca por três mandatos consecutivos, o que só ocorreu em duas ocasiões desde 1828.


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