Sergei Grits/AP
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Azerbaijão retoma controle de 1° território cedido por armênios em Nagorno-Karabakh

Assinado em 9 de novembro e negociado pelo presidente russo, Vladimir Putin, o acordo de trégua confirma a derrota armênia, mas permite a sobrevivência da autoproclamada república de Nagorno-Karabakh

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 16h03

BAKU - O Exército do Azerbaijão retomou, nesta sexta-feira, 20, o controle do Distrito de Aghdam, cedido pelos separatistas armênios de Nagorno-Karabakh, como prevê o acordo de cessar-fogo que pôs fim a seis semanas de guerra.

Trata-se da primeira das três devoluções ao Azerbaijão de territórios que as forças armênias controlaram por quase 30 anos, após uma primeira guerra que, à época, deixou 30 mil mortos e centenas de milhares de deslocados, incluindo a população azerbaijana de Aghdam.

"Parabéns a todos os cidadãos de Aghdam. Eles não são mais refugiados, eles retornarão para suas terras ancestrais", disse o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, em declarações transmitidas pela televisão depois que o Exército entrou no distrito. "Libertamos a região do fascismo armênio", proclamou, retomando a retórica incendiária que costuma usar.

Em Baku, a retrocessão foi recebida com cenas de alegria, e muitos moradores agitaram a bandeira do Azerbaijão nas ruas.

Assinado em 9 de novembro e negociado pelo presidente russo, Vladimir Putin, o acordo de trégua confirma a derrota armênia após seis semanas de combates que provavelmente deixaram milhares de mortos, mas permite a sobrevivência da autoproclamada república de Nagorno-Karabakh, mesmo que perca muitos territórios.

Além dos territórios conquistados dentro da própria região de Nagorno-Karabakh, como Shusha (segunda cidade da província), o Azerbaijão recupera os sete distritos azerbaijanos que eram uma espécie de barreira de segurança para os separatistas.

Depois de Aghdam, será a vez de Kalbakhar, em 25 de novembro, e de Lachin, em 1º de dezembro. 

Casas incendiadas

Em Aghdam, os armênios locais não esperaram a chegada das forças de Baku para deixar o local. Muitos preferiram atear fogo em suas casas antes de irem embora, para que nenhum azerbaijano pudesse morar nelas. 

Enquanto colocavam seus pertences em seus veículos, os últimos habitantes partiram menos de uma hora antes da chegada do Exército azerbaijano.

Um controle de estrada armênio e um posto de controle do Exército russo também foram estabelecidos na estrada, agora deserta, entre Nagorno-Karabakh e Aghdam.

Na quinta-feira, soldados armênios já haviam destruído seu quartel-general em Aghdam, uma cidade fantasma em ruínas por quase 30 anos, onde os separatistas tinham uma base de retaguarda. 

Na aldeia de Nor Maragha, dentro desse distrito, os habitantes abatiam rebanhos, recolhiam vegetais e frutas e colocavam todos os seus pertences em seus veículos e reboques com a amarga sensação de deixar suas fazendas e pomares para o odiado inimigo.

O acordo que encerrou os combates é uma derrota humilhante para a Armênia. A oposição acusa o primeiro-ministro Nikol Pashinyan de ser um "traidor" e pede em vão sua renúncia.

Embora tenha descartado a renúncia, substituiu dois ministros de seu gabinete nesta sexta-feira, incluindo o da Defesa, poucos dias após a demissão do chefe da diplomacia.

Hoje, dezenas de manifestantes bloquearam as ruas do centro de Erevan e de Gyumri, aos gritos de "Nikol, vá embora!". O grupo foi dispersado pela polícia, que disse ter detido 25 pessoas. 

Rússia manda reforços 

A Rússia enviou tropas para reforçar seus guardas de fronteira na Armênia e garantir que o acordo de paz seja cumprido, disse o chefe do Serviço de Segurança Federal, Alexander Bortnikov, nesta sexta-feira. O envio foi feito a pedido da Armênia ao presidente russo para manter a paz em Nagorno-Karabakh, segundo Bortnikov.

A missão envolve 188 militares e equipamentos militares. Os guardas de fronteira russos permaneceram na Armênia após o colapso da União Soviética sob os termos de um tratado de 1992 entre os dois países. A Rússia enviou cerca de 2 mil soldados para a manutenção da paz em Nagorno-Karabakh nas últimas duas semanas./AFP e Reuters 

 

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