'Babá' de opositor perde o emprego

Assessora de Pinto ia quase diariamente visitá-lo

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial / LA PAZ, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2013 | 02h18

A fuga do senador Roger Pinto para o Brasil causará a demissão de Margoth Saucedo, 54 anos. Mas ela está feliz. Funcionária do Senado, ela era não só uma dos cinco pessoas autorizadas a visitá-lo no prédio da Embaixada do Brasil em La Paz. Ela era a que mais o fazia.

"Quando ele viajou, não sabia se chorava de alegria ou tristeza. Dos 455 dias em que ele ficou confinado, em pelo menos uns 400 eu apareci."

Registrada como "prima", Margoth diz que, no fim, já não apresentava identificação para entrar no prédio e recebia elogios dos fuzileiros que fazem a segurança. "Lá vêm a faxineira, me diziam com alívio."

Formalmente, diante do Senado, Margoth estava em atividades externas, levando e trazendo documentos. Na prática, varria o quarto improvisado para o senador em um escritório, lavava louça e se encarregava de levar comida. "As preferidas eram pamonha à noite e empanadas saltenhas de manhã." Ambos tinham acesso à cozinha dos funcionários, onde há um forno de micro-ondas, mas o senador só costumava sair do quarto quando o expediente havia acabado. Ele tomava banho às 7 horas, antes que os funcionários chegassem.

Ontem, Margoth estava em Cobija, capital de Pando, terra do senador, na fronteira com o Acre. Resolvia "problemas legais" - o senador tem 14 processos contra si e foi condenado a 1 ano de prisão em primeira instância em um deles. A Justiça concluiu preliminarmente que ele havia desviado o equivalente a R$ 3,7 milhões. "Ele é inocente, tenho certeza. Sem ele, Pando não teria universidade", defende Margoth.

Pinto estava autorizado a receber, além de Margoth, uma das três filhas, um advogado, um motorista (também funcionário) e a mulher, que aparecia raramente. Para passar o tempo, usava o iPad, lia muito a Bíblia - ele é evangélico - e ouvia música. "Ele não gosta de TV, nunca o vi ligar", diz Margoth. No quarto improvisado, Pinto tinha ainda uma bicicleta ergométrica, presente do embaixador Marcel Biato, que lhe concedeu asilo - e, por isso, caiu em desgraça com o governo boliviano.

"Nunca o vi mal-arrumado, usando tênis", diz Margoth, que só notou diferença no comportamento do opositor nos últimos dois meses. "Ele estava desanimado. Apareceram umas manchas vermelhas e o colesterol subiu", afirma - Pinto chegou a receber um dentista e ter amostras de sangue colhidas para exame, na embaixada.

Depois de fugir, o senador deve ser cassado em breve. "A suplente dele dava umas indiretas, dizendo que eu trabalhava na embaixada. É natural que me mande embora, mas me importa só a lealdade."

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