''Baby boom'' não acalma vítimas de tremor chinês

Após um ano, pais que perderam filhos em escolas buscam justiça

Edward Wong, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

12 de maio de 2009 | 00h00

Ainda com apenas 45 dias de vida, enrolada num cobertor vermelho, Sang Ruifeng, já tem um objetivo na vida: levar à Justiça os responsáveis pela morte de seu irmão de 11 anos. Ela vai ter de conseguir, diz o seu pai, que o governo chinês explique realmente por que milhares de alunos morreram na escola que desmoronou durante o terremoto que devastou o sudoeste na China um ano atrás.O irmão que Ruifeng nunca conheceu estava entre os 126 alunos que morreram soterrados pelos escombros da Escola Primária nº 2 de Fuxin, nos arredores dessa cidade predominantemente agrícola . "Não estou nada feliz", disse San Jun, falando sobre o nascimento desse seu segundo filho, enquanto sua mulher brincava com a criança na casa de um vizinho. "Eu disse à minha mulher, se não conseguirmos justiça, nosso filho vai ter de sair em busca disso. Ele vai ser responsável por isso." Um ano depois que o terremoto que se abateu sobre a província de Sichuan matou 70 mil pessoas e deixou 18 mil desaparecidas, as mães nessa região estão grávidas ou dando à luz novamente, auxiliadas por equipes médicas do governo que lhes dão conselhos sobre fertilidade e reverte as esterilizações.Como a China estabeleceu uma política que limita um filho por família, os alunos que morreram, na maior parte, eram filhos únicos.As autoridades esperam que essa onda de nascimentos ajude a acalmar a ira de muitos pais ainda atormentados pelo fato de tantas escolas terem desmoronado em 12 de maio de 2008, enquanto prédios ao lado delas continuaram de pé. Mas as feridas seguem abertas, em parte porque o governo chinês, temendo que o regime autoritário fosse contestado, procurou abafar a cólera dos pais e acabar com a discussão pública sobre a má construção das escolas.Como, no aniversário de um ano do terremoto, a atenção se concentra novamente em Sichuan, o governo intensificou sua campanha para silenciar os pais das crianças mortas, recorrendo ao assédio policial e ameaças de prisão a moradores e jornalistas estrangeiros que tentam ouvir testemunhas e sobreviventes do tremor. QUEIXA REPRIMIDA"O governo diz, ?você tem um segundo filho, por que está questionando??", disse Sang, um trabalhador agrícola, detido pela polícia em janeiro quando tentou ir a Pequim para entrar com uma queixa formal."Nós dizemos ao governo : "É sua responsabilidade, o erro é de vocês. Então, por que não devemos questionar o que ocorreu?"O governo chinês recusou-se a divulgar o número de vítimas ou o nome dos alunos que morreram. Mas, segundo um relatório oficial liberado logo após o terremoto, 10 mil crianças morreram no colapso de pelo menos 7 mil salas de aula e dormitórios das escolas.REPORTAGENS PROIBIDAS No ano passado, autoridades do governo central anunciaram que o caso seria investigado, mas nenhuma informação foi dada depois.Em março, uma autoridade da Província de Sichuan disse a jornalistas em Pequim que foi a força do tremor, e não a má construção, que provocou o colapso das escolas. Em 4 de abril, dia em que os chineses lembram seus mortos, grupos de pais tentaram se reunir nos locais onde as escolas caíram para prantear seus filhos. Foram cercados por policiais à paisana. Recentemente, autoridades do departamento de propaganda do governo ordenaram às agências de notícias chineses para relatarem somente histórias relacionadas ao tremor que fossem positivas.E o governo local da Província de Sichuan foi particularmente rigoroso na proibição de que fossem feitas reportagens sobre os abortos que têm ocorrido com mulheres que estão morando em alojamentos temporários. Algumas sobreviventes do tremor dizem temer que esses abortos sejam provocados pelos altos níveis do formaldeído que exala das casas pré-fabricadas que substituíram as moradias danificadas pelo tremor.

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