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Bachelet avança em redutos socialistas para tentar vencer no primeiro turno

Promessa de campanha da ex-presidente, ampliar o sistema público de aposentadoria é um dos desafios

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial/ SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h11

Os votos de Cerro Navia, um dos bairros mais pobres da mais pobre região de Santiago, a zona oeste, são a síntese do terreno que a socialista Michelle Bachelet precisa recuperar para vencer hoje a eleição chilena no primeiro turno. Desde que ela deixou o poder, esse reduto histórico da esquerda pendeu para a direita. O apoio ao bloco socialista na região de 150 mil habitantes caiu de 62%, quando ela foi eleita, para 56% e 44% nas duas últimas votações.

Cerro Navia é uma amostra de que o "michellismo" é mais forte do que o esquerdismo no Chile, avaliam especialistas, e ilustra tanto o carisma de Bachelet quanto sua incapacidade de transferir votos.

A ex-presidente, que governou país entre 2006 e 2010 e terminou o mandato com 79% de aprovação, não conseguiu fazer o sucessor. Eduardo Frei foi derrotado, em 2009, pelo empresário Sebastián Piñera, que termina com 32% de popularidade. "A centro-esquerda vai recuperar boa parte de sua zona de influência. Primeiro, porque se trata de Bachelet e não de outro candidato da esquerda. Segundo, porque ela montou uma coalizão mais ampla, onde estão os comunistas (daí o nome Nova Maioria, em substituição à histórica Concertação)", afirma o doutor pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e analista político Eugenio Tironi. "A direita ajudou nesse processo, porque se fragmentou (Evelyn Matthei foi a quarta opção)."

A necessidade do segundo turno dependerá da participação, uma incógnita. É a primeira vez que uma eleição presidencial e parlamentar chilena terá voto opcional. Na única experiência, em 2012, em eleições municipais, o número de votantes caiu de 7 milhões para 5,5 milhões. A direita perdeu espaço então, mas não em Cerro Navia, que elegeu um conservador.

Moradores fiéis à esquerda estão seguros de que Bachelet recuperará terreno. "A campanha de Piñera distribuiu óculos, cestas de alimentos, todo mundo sabe. E, como Bachelet não estava, o pessoal acreditou nas promessas", afirmou Paula Troncoso, de 40 anos, vendedora de sorvetes caseiros que anda contente com o calor acima da média na capital - temperatura próxima dos 30° C até o anoitecer. Sua tia, Aída Alarcón, já não está tão certa do retorno dos socialistas. "Não sei se voltam", afirmou a mulher de 71 anos, que, questionada sobre sua profissão, disse ser uma "aposentada sem aposentadoria".

Reformar o sistema público de aposentadoria - praticamente todos os chilenos estão cobertos por planos privados que cresceram na ditadura de Augusto Pinochet e boa parte trabalha até morrer - é uma das promessas de Bachelet. Os três eixos de seu plano de governo são garantir ensino gratuito universal em 6 anos, uma reforma tributária para aumentar o PIB em 3 pontos porcentuais e uma nova Constituição, que permitiria a reeleição. O apoio no Parlamento definiria o ritmo de cumprimento do plano - mudar impostos seria o mais fácil e trocar a Constituição, o mais difícil.

Sua principal rival, a conservadora Evelyn Matthei, da Aliança Democrática Independente, ex-ministra de Piñera, considera as propostas inviáveis porque "afugentariam investidores estrangeiros".

Nos dois comitês de campanha, há leituras incomuns para torcer por um desfecho da eleição. Parte da direita crê ser melhor perder logo no primeiro turno - em um returno, a tendência é de um massacre de Bachelet, que teria 70% contra 30%, segundo pesquisas. E, entre militantes da ex-presidente, há quem prefira ganhar logo para não lidar com a expectativa criada por um êxito avassalador.

Cerro Navia, embora pobre para o padrão chileno, tem todas as ruas iluminadas e asfaltadas. Suas casas dão a impressão de estar um nível abaixo de seu entorno, com praças simples e bem cuidadas. Na maior delas, Francisco, de 87 anos, esperava a hora do culto na quinta-feira.

Evangélico "desde 1948", de terno marrom bem cortado e perfume, disse não gostar de política. "São todos ladrões." Mas, provocado sobre o histórico antagonismo ideológico no Chile, admitiu votar na direita por várias razões. A principal, "não suportar comunistas". "Eu não gostava de Pinochet. Mas todos que vieram antes e depois dele foram piores", disse o aposentado, que pediu para ter o sobrenome omitido.

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