Bachelet enfrenta crise após denúncias de corrupção

A presidente do Chile, Michelle Bachelet, enfrenta uma nova crise política em sua gestão que culminou, nesta terça-feira, com a criação de uma comissão parlamentar que investigará denúncias de corrupção contra políticos da sua base governista, a coalizão de centro-esquerda chamada de Concertación.Nove deputados de um dos partidos da Concertación foram acusados de envolvimento no escândalo conhecido como "ChileDeportes". Eles teriam recebido pagamentos ilegais do órgão do governo que cuida da administração dos esportes.A comissão parlamentar será presidida pela oposição, graças à abstenção, na votação que decidiu a presidência da comissão, de um dos partidos do próprio governo. Bachelet deverá anunciar nesta quarta-feira, como disse à emissora de televisão TV Chile, um pacote de medidas para combater a corrupção no país. Ao saber das denúncias contra aliados, ela afirmou: ?O Chile não é corrupto".?Vamos enfrentar estas denúncias com seriedade e sem pirotecnia?, disse ela.Ao vivo Como no Brasil, os depoimentos dos envolvidos serão mostrados ao vivo, segundo o jornal El Mercurio, pela TV Câmara, durante os 60 dias que durarem as investigações.As primeiras acusações surgiram há cerca de um mês, quando foi divulgado o desvio de recursos do órgão estatal ChileDeportes (ChileEsportes) para pelo menos nove deputados do PPD (Partido pela Democracia), além de militantes da legenda. O PPD integra a Concertación, que governa o país há 17 anos e, segundo analistas como Ascanio Cavallo, do jornal La Tercera, encara as mais fortes denúncias desde sua criação.Cada um dos nove parlamentares, além dos cabos eleitorais, teria recebido, como confessou o ex-chefe de gabinete do órgão, Andrés Farias, 1,5 milhão de pesos chilenos (aproximadamente R$ 6,1 mil). As denúncias incluem ainda rumores de envolvimento de mais políticos e a participação, de acordo com a imprensa chilena, de empresas fantasmas que teriam sido usadas na emissão de notas fiscais frias para parlamentares.PrisõesNa noite de terça-feira, a polícia anunciou a prisão de dois envolvidos no escândalo, batizado de ?caso ChileDeportes?. O chefe de um escritório do Serviço de Impostos, Luis Jofré, foi acusado de emitir faturas de empresas fantasmas. O presidente do clube Hueche, Mario Salazar, foi enquadrado pelos investigadores porque teria recebido quase nove milhões de pesos (cerca de R$ 36,6 mil) do ChileDeportes para financiar a empresa fantasma Publicam. Entre os acusados de ter usado e recebido notas fiscais de empresas fantasmas está a deputada Carolina Tohá, do PPD. Ela teria pago, segundo a TV Chile, cinco milhões de pesos (aproximadamente R$ 20,3 mil) a uma empresa fantasma. Tohá é ligada politicamente ao ex-presidente Ricardo Lagos e à atual presidente Michelle Bachelet. ?Se for necessário, renunciarei à vice-presidência do meu partido, mas garanto que não cometi irregularidades?, disse ela, numa entrevista coletiva, em Santiago.?Traição e deslealdade?Para preocupação dos governistas, a comissão parlamentar será presidida pela oposição e terá 60 dias para vasculhar acusações contra o órgão estatal ChileDeportes desde 1992 até agora. Durante esse período, o Chile foi governado por esta frente - Concertación - que reúne o Partido Socialista (PS, de Bachelet), a Democracia Cristã (DC), o Partido pela Democracia (PPD, o mais afetado pelas atuais acusações) e o Partido Radical Social Democrata (PR).A comissão será formada por 12 parlamentares e, devido à abstenção dos integrantes da DC, como informou a Rádio Cooperativa, será presidida pelo deputado Nicolás Monckeberg, da Renovação Nacional (RN), que integra a Alianza - frente de direita que une o RN e a União Democrática Independente (UDI). Na opinião dos deputados que apóiam o governo da presidente Bachelet, como Ivan Paredes e Fidel Espinoza, ambos do PS, a presidência da comissão só foi entregue à oposição pela ?ineficiência? da DC. ?E agora temos que suportar a Alianza falando em ética e transparência como se a história do país tivesse começado a ser escrita ontem?, ironizou Paredes, criticando a direita que governou o país antes da chegada da Concertación ao poder. ?A Democracia Cristã só repetiu sua trajetória e voltou a ser o camaleão de sempre?, disse Espinoza. Os dois, entre outros socialistas ligados também ao ex-presidente Salvador Allende, acusaram os democratas-cristãos de ?traição e deslealdade?.Essa disputa política e as denúncias no Chile, como afirmou a emissora chilena, podem estar só começando. Depois dos protestos dos estudantes secundários, que praticamente pararam diferentes pontos do país recentemente, esse é, segundo analistas, um novo desafio para Bachelet.

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