Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

Bagdá corta as conexões aéreas do Curdistão iraquiano com o exterior

Suspensão não afeta voos humanitários, militares e diplomáticos, mas terá impacto negativo no comércio internacional e acirra a tensão na região

O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2017 | 16h29

IRBIL - O tráfego aéreo partindo ou chegando ao Curdistão Iraquiano foi encerrado nesta sexta-feira, 29, por ordem de Bagdá em resposta ao referendo de independência realizado na região

Na parte da manhã, os estrangeiros correram para os aeroportos de Irbil e de Suleimaniyeh, poucas horas antes da interrupção dos voos internacionais, que começou às 18h00 (12h00 de Brasília).

Uma aeronave da Turkish Airlines foi a última a decolar de Irbil, com destino a Istambul, e um avião da Iraqi Airways partiu de Suleimaniyeh em direção a Dubai.

A suspensão do tráfego internacional não vai afetar os voos humanitários, militares e diplomáticos, segundo afirmou a diretora do aeroporto internacional de Irbil, Talar Faiq Saleh.

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O ministro dos Transportes da região autônoma, Mawloud Bawa Murad, indicou que a medida "terá um impacto negativo nos negócios internacionais e para os civis de todas as nações". "Faremos o máximo possível para encontrar uma alternativa viável ou para restabelecer os voos internacionais", acrescentou.

Por sua vez, o ministério iraquiano dos Transportes anunciou em um comunicado que "a Aviação Civil suspendeu os voos internacionais para impor a autoridade federal nesses aeroportos".

Para tentar evitar o bloqueio contra esta região separatista, o ministério dos Transportes do Curdistão havia pedido, em uma carta ao governo central de Bagdá, "a abertura de negociações sobre sua decisão a respeito dos voos", que não obteve resposta.

O tom não é o de conciliação após a realização do referendo que viu a enorme vitória do sim. Apesar de as autoridades curdas tentarem acalmar o jogo garantindo que não proclamariam sistematicamente a independência, as autoridades de Bagdá optaram por adotar medidas de retaliação e excluíram qualquer diálogo.

"Não há negociação oficial ou secreta com as autoridades curdas, e não haverá negociações até que declarem inválidos os resultados do referendo e entreguem às autoridades de Bagdá os postos de fronteira, aeroportos e áreas em disputa", garantiu um funcionário iraquiano.

Guichês lotados. Em Suleimaniyeh, "há dois dias que multidões se acumulam. Aqueles que partem são estrangeiros, árabes e curdos com outra nacionalidade", disse Dana Mohammad Said, porta-voz do aeroporto.

"Aqueles que chegam são curdos que estavam no exterior para negócios ou turismo. Estão voltando às pressas para não ficaram bloqueados no exterior", disse, indicando que após às 18h00 só haverá voos internos.

A decisão de suspender os voos internacionais por um período indefinido fez com que muitos estrangeiros se apressassem. Os estrangeiros entram no Curdistão com um visto emitido pelas autoridades curdas, que não é reconhecido por Bagdá e, portanto, não podem viajar para outras partes do Iraque. 

Um prolongado encerramento do tráfego aéreo também teria consequências potencialmente dramáticas para as organizações humanitárias. "Um grande número de refugiados utiliza o aeroporto e nós somos uma ponte entre a Síria e a ONU por enviar ajuda humanitária", explica a diretora do aeroporto de Irbil, Talar Faiq Saleh. Ela acrescentou que o local é frequentado por membros das forças internacionais da coalizão anti-jihadista.

Pedidos de calma. O Curdistão não demonstra vontade de ceder, mas pede diálogo. Ele rejeitou as decisões tomadas por Bagdá, denunciando uma "punição coletiva". Os Estados Unidos, que têm boas relações com ambos os lados, pediram "diálogo" depois de ter solicitado aos curdos que renunciassem ao referendo. 

O referendo sobre a independência do Curdistão também foi rejeitado pelos países vizinhos com minorias curdas - Irã, Turquia e Síria. O porta-voz da coalizão internacional anti-jihadista, o coronel Ryan Dillon, enfatizou o impacto do referendo sobre a ofensiva contra o grupo Estado Islâmico (EI) no Iraque. "O objetivo, que era como um raio laser dirigido contra o EI, já não é 100%", lamentou.

Na sexta, as forças iraquianas lançaram um assalto para quebrar as defesas do EI ​​em Hawija, a última fortaleza do grupo no norte do Iraque. Hawija está localizada na província de Kirkuk, na fronteira com o Curdistão.

Na quinta-feira, o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, pediu uma cúpula Ancara-Teerã-Bagdá para coordenar as medidas a serem tomadas. A Turquia é a única porta que permite a Irbil exportar seu petróleo através de um oleoduto que leva ao porto turco de Ceyhan e fechar seus portões poderia sufocar o Curdistão. / AFP

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