Bagdá passa a administrar última prisão sob controle americano

Transferência é mais um passo no cronograma de retirada das forças dos EUA do Iraque, que será concluída em 2011

Gustavo Chacra, correspondente em Nova York, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2010 | 00h00

Os Estados Unidos devem transferir hoje para o Iraque o controle da última prisão ainda nas mãos dos americanos, conhecida como "Camp Cropper". A entrega é considerada um marco do fim da ocupação do território iraquiano, iniciada há mais de sete anos com a derrubada de Saddam Hussein pelo governo George W. Bush.

A partir de hoje, praticamente todos os presos no Iraque estarão sob a responsabilidade das autoridades iraquianas. Os americanos devem manter a guarda de 200 prisioneiros supostamente ligados à Al-Qaeda, além de alguns integrantes do regime de Saddam. Estima-se que a prisão de Camp Cropper possua cerca de 1.700 detentos.

A transferência de autoridade faz parte do processo de redução da presença americana no Iraque. Desde sua posse, em 2009, o presidente Barack Obama deixou claro que sua prioridade é o Afeganistão, e não o país árabe.

O objetivo dos americanos é chegar ao número de apenas 50 mil militares no território iraquiano. No auge, os EUA chegaram a ter 165 mil homens no Iraque, durante a adoção da estratégia de escalada (surge), em meados de 2007. O general que adotou a escalada do número de soldados foi David Petraeus, o mesmo que, há duas semanas, passou a comandar as tropas aliadas no Afeganistão.

"Abu Ghraib foi uma lição para mostrar que não estávamos preparados para lidar com grandes massas de detentos quando começamos essa operação, em 2003", disse o general Ray Odierno, comandante das forças americanas no Iraque. Ele se referia à prisão onde militares americanos abusaram de presos iraquianos, provocando condenações ao redor do mundo.

O general acrescentou que os americanos imaginavam que a ofensiva seria parecida com a Guerra do Golfo, em 1991, quando os EUA detiveram prisioneiros por um curto período. De acordo com Odierno, os americanos não imaginavam que ficariam tanto tempo com os militares - e militantes - em suas mãos. O comandante acrescentou ainda que os EUA estão treinando os iraquianos para administrar a prisão.

Incertezas. A transferência do controle das prisões e a redução na presença americana faz parte de um processo para encerrar a Guerra do Iraque, segundo promessa de campanha de Obama.

Mas analistas dizem que a situação iraquiana ainda é delicada. Não há previsão para a formação de um novo governo depois das eleições parlamentares em março. O opositor Iyad Alawi, que liderava uma coalizão de xiitas e sunitas, obteve duas cadeiras a mais que o partido do premiê Nuri al-Maliki, majoritariamente xiita. O problema é que Alawi não obteve a maioria no Parlamento e as principais coalizões iraquianas ainda não chegaram a um acordo para a formação de um novo governo. Após quase cinco meses das eleições, ainda não está claro quem governará o Iraque.

Nos últimos meses, com a redução nas forças americanas nas ruas iraquianas, também voltou a crescer o número de ataques cometidos pela Al-Qaeda e insurgentes iraquianos. Bagdá também culpa ex-partidários de Saddam Hussein pela violência.

De acordo com o cronograma oficial, as tropas americanas deixarão completamente o Iraque em dezembro de 2011.

Para lembrar

PARA LEMBRAR

Acordo é marco da retirada

O plano para retirar as forças americanas do Iraque, conhecido como Acordo sobre o Status das Forças (Sofa, na sigla em inglês), foi firmado ainda no governo George W. Bush, em novembro de 2008. Com base nele, os EUA se retiraram das cidades iraquianas há um ano e delegaram os poderes de polícia aos iraquianos. A etapa final será a saída de todas as tropas americanas do país, marcada para 2011.

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