Arte/estadão.com.br
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Bahrein é peça fundamental na geopolítica do Oriente Médio

MANAMA - O Bahrein, uma pequena nação composta por 33 ilhas no Golfo Pérsico, nunca desempenhou um papel proeminente nos assuntos regionais ou árabes. No entanto, as revoluções que tomaram o Oriente Médio e norte da África a partir do fim de 2010, apelidadas de Primavera Árabe, colocaram o pequeno país sob os holofotes internacionais por conta de um fator geopolítico crucial para o mundo árabe - as intenções do Irã de expandir sua influência sobre os países islâmicos e tornar-se uma potência regional.

Solly Boussidan, especial para o estadão.com.br,

09 de janeiro de 2012 | 18h26

 

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O Bahrein é a única nação árabe a possuir uma população majoritariamente xiita. No entanto, o país, que adota um regime monárquico autoritário, é governado principalmente por sunitas. Essa distinção - com exceção de algumas práticas religiosas islâmicas - é praticamente imperceptível no dia-a-dia da sociedade bareinita, mas gera uma revolta generalizada quando políticas públicas especificamente dão preferência aos sunitas.

 

A revolta popular na nação-ilha, ao contrário de muitas especulações feitas à época, não ocorreu, entretanto, por conta de tensões religiosas. "Não fomos às ruas porque somos xiitas e temos problemas com sunitas - isso foi um pretexto inventado pelo governo e pela mídia estatal e muito bem propagado na mídia internacional", contou um ativista local de 33 anos que trabalha no setor financeiro. Ele não revelou seu nome à reportagem do estadão.com.br porque, segundo ele, recebeu ameaças diretas do governo por telefone e através do Twitter.

 

Mídias e redes sociais

 

"Nos manifestamos porque queríamos mais liberdade e o direito de eleger o primeiro-ministro", explica o ativista. De acordo com ele, os protestos eram, no início, "algo pacífico, um diálogo, um pedido". Nesta fase, como relata, havia famílias e crianças protestando. "O governo decidiu não escutar as pessoas e lançar uma guerra generalizada, matando manifestantes. O único modo de divulgarmos para o mundo o que ocorria aqui foi utilizando mídias e redes sociais, como Twitter, Facebook e blogs. Era também um jeito de refutar as mentiras do governo", contou.

 

"Parei de escrever. Há um momento em que o jogo se torna muito perigoso", disse, ao comentar as ameaças. Ao longo da cobertura dos protestos no país, a opinião quase unânime era a de que o principal problema local era a permanência do linha-dura Khalifa ibn Salman al-Khalifa, tio do atual rei do Bahrein, como primeiro-ministro. Al-Khalifa, que não foi eleito, está há 40 anos no poder.

 

"Pensar em modificar o sistema monárquico ou pedir a saída do rei era um completo tabu. Só se começou a falar nessa possibilidade com o aumento da violência e, mesmo assim, de forma muito superficial", explica o ativista. As manifestações e confrontos ocorreram principalmente na praça da Pérola - até então um símbolo da capital, Manama.

 

Poucos dias depois de os manifestantes serem dispersados do local, a praça foi tomada por militares e completamente demolida e fechada. Além das revoltas pela morte de ativistas e centenas de denúncias de prisões políticas e tortura, outro fator que enraiveceu os cidadãos do país foi a perseguição institucional contra os xiitas, que, segundo sindicatos locais, passaram a ser demitidos sem qualquer justificativa de postos públicos e de empresas privadas, foram pressionadas pelo governo.

 

Revoltas na rede

 

As manifestações em Bahrein só chamaram mesmo a atenção mundial depois que um número crescente de fotos e vídeos passou a aparecer na internet. Com medo de que a revolta saísse de controle, os governos da Arábia Saudita e do Bahrein costuraram um acordo para que a Guarda Nacional Saudita, sob a suposta égide do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), entrasse e policiasse o Bahrein.

 

Com o grande contingente militar e intimidação de ativistas pela internet, o governo conseguiu aplacar as manifestações sem ceder ao apelo popular - exatamente o que os sauditas esperavam conseguir. As revoluções pró-democracia nos países árabes em geral e no Bahrein em específico são um fator de extrema preocupação para a Arábia Saudita, um dos países mais autoritários e repressivos do planeta, majoritariamente sunita e governado com punho de ferro por uma monarquia ditatorial que se utiliza de leis teocráticas ortodoxas para se perpetuar no poder.

 

As manifestações no Bahrein, além de incitarem um movimento similar em território saudita, têm o potencial de colocar a maioria xiita da ilha no poder e, como consequência, estender a influência iraniana, país persa governado por uma teocracia xiita a poucas centenas de quilômetros do Bahrein, até a fronteira saudita - ambas situações intoleráveis para o governo da Arábia Saudita, que oprime mais de 27 milhões de pessoas e disputa com o Irã o papel de potência regional, impulsionada por ser o maior país árabe enriquecido por petro-dólares e de sua identidade sunita compartilhada com a maioria dos demais países da região.

 

Por ora, a situação no Bahrein é de aparente calma - os distúrbios são localizados principalmente nos bairros xiitas e as manifestações se resumem a pixações, bandeiras e buzinaços. Segundo o brasileiro Luis Phillippe Teixeira, que trabalha para uma multinacional em Manama, durante o feriado xiita de Ashura "a polícia se retirou para não piorar a situação e tudo tem seguido de forma normal na ilha".

 

Apesar disso, a tensão entre o governo, escorado por mercenários vindos principalmente do Paquistão, e a sociedade do Bahrein é algo palpável - qualquer deslize de uma das partes tem o potencial de gerar novos protestos e muita violência.

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