Bahrein expõe incoerência dos EUA

Posição tímida de Washington diante de violenta repressão no país do Golfo contrasta com tom duro contra países como Síria e Iêmen

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Os EUA apoiaram a intervenção contra Muamar Kadafi na Líbia, defenderam a queda de Hosni Mubarak no Egito e de Ben Ali na Tunísia, demandam a saída de Abdullah Saleh no Iêmen, impõem sanções a Bashar Assad na Síria. Mas Washington pede apenas "diálogo" diante da violenta repressão a dezenas de milhares de opositores que pedem mais liberdade no Bahrein.

A falta de uma atitude mais dura dos americanos contra a opressão da monarquia Al-Khalifa - que, com apoio saudita, tenta impor o silêncio no emirado - revoltou grupos de direitos humanos, como a Human Rights Watch, e líderes dos levantes árabes. Segundo eles, os EUA adotam dois pesos e duas medidas para os países da região, evitando críticas a aliados como Bahrein, Arábia Saudita e Jordânia.

Pelo menos 30 pessoas já foram mortas no Bahrein, menor nação árabe do mundo, desde o início dos levantes, em março. Centenas foram detidas e há dezenas de relatos de casos de tortura. Até mesmo pacientes em hospitais foram capturados pelas forças de segurança. Médicos e enfermeiras perderam suas licenças e pelo menos 47 deles serão julgados por ter tratado opositores feridos.

Estudantes que postaram comentários contra o regime Al-Khalifa em redes sociais foram expulsos da universidade. A repressão conta com a ajuda de cerca de 3 mil militares sauditas que intervieram para conter as manifestações contra a monarquia, no poder desde 1783, incluindo o período de cerca de 50 anos em que foi protetorado britânico, até o início da década de 70.

"O fato de a base da 5.ª Frota da Marinha dos EUA ter sua base no Bahrein e a dependência americana do petróleo saudita fazem a diferença" na relação de Washington com a monarquia Al-Khalifa, segundo Colin Covell, que era professor do centro de estudos americanos na Universidade do Bahrein até o início dos protestos contra o regime. Por causa de sua oposição à repressão, o especialista pediu demissão da cátedra e retornou aos EUA, de onde tem monitorado os acontecimentos no país.

Analistas acrescentam que nos levantes no Bahrein existe o componente sectário, que assusta os EUA. As manifestações têm sido dominadas pela maioria xiita, enquanto o poder está nas mãos da monarquia sunita, minoritária. Esses xiitas recebem apoio do Irã, que já se posicionou a favor dos manifestantes.

Contaminação. Para complicar, diz Ayhan Kamel, da consultoria política Eurasia, há o temor de o levante do Bahrein contaminar outras monarquias árabes. "O Conselho de Cooperação do Golfo destinou US$ 20 bilhões em ajuda financeira e de segurança ao Bahrein", afirmou. O número é dez vezes superior à ajuda prometida pelo presidente Barack Obama para o avanço da democracia e modernização da economia no Egito, que possui uma população cem vezes maior que o pequeno país do Golfo Pérsico, rico em gás e petróleo.

Alexandre Rangel, diretor executivo da Ernst & Young no Brasil, disse ao Estado que "a grande preocupação é que os protestos atinjam a Arábia Saudita", maior exportador de petróleo. A consultoria divulgues relatório na semana passada prevendo um novo choque de petróleo.

Covell, ex-professor da Universidade do Bahrein, afirma que, em meio aos protestos, o secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, visitou Manama, capital bareinita. Quatro dias depois, em março, enquanto Washington pressionava a Síria a levantar o estado de emergência, o rei Hamad bin al-Khalifa decretou "estado de segurança nacional", abrindo caminho para a intensificação da repressão. Na semana passada, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, convidou o príncipe herdeiro da coroa do Bahrein, Salman bin al-Khalifa, para uma visita privada em Londres, sendo fotografo em clima amistoso na saída.

O Departamento de Estado dos EUA publicou na semana passada um breve comentário sobre a visita do subsecretário James Steinberg à capital bareinita, Manama. Steinberg teria afirmado "o compromisso dos EUA com uma forte parceria tanto com o povo quanto com o governo do Bahrein" e expressou a importância dos direitos humanos universais. Pediu ainda aos dois lados "que busquem o diálogo".

Discurso. Apenas na quinta-feira, em meio a protestos de grupos de defesa dos direitos humanos, Obama decidiu incluir Bahrein em seu discurso ao mundo árabe. "Já insistimos pública e privadamente que as prisões em massa e o uso brutal da força vão contra os direitos universais dos cidadãos do Bahrein. Essas medidas não farão com que os pedidos legítimos para reforma desapareçam. A única saída é o governo e a oposição envolverem-se em um diálogo, mas não é possível haver um diálogo real enquanto pacifistas opositores estão na cadeia", disse Obama.

O problema, segundo os críticos, foi o presidente americano dizer no mesmo discurso que "Bahrein é um aliado antigo e nós estamos comprometidos com a sua segurança. Reconhecemos que o Irã tentou se aproveitar da instabilidade, mas o governo de Bahrein tem interesse no cumprimento das leis".

"O discurso de Obama alimentou as acusações de inconsistência de sua administração. A Arábia Saudita ficou ausente do texto. O vizinho Bahrein foi mencionado", disse Robert Danin, do Council on Foreign Relations.

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