Bahrein proíbe manifestações; polícia isola praça que sediou protestos

Praça na capital, Manama, foi evacuada à força em ação que deixou três mortos e mais de 300 feridos.

BBC Brasil, BBC

17 de fevereiro de 2011 | 12h24

As força de segurança em Bahrein usaram tanques, veículos de polícia e arame farpado para cercar e isolar a praça central em Manama, capital do país, que tem concentrado os recentes protestos contra o governo.

Milhares de manifestantes foram evacuados à força da praça durante a madrugada desta quinta-feira pela polícia, que usou bombas de gás lacrimogêneo e golpes de bastão.

O ministro do Interior, Rashed bin Abdullah al-Khalifa, fez um pronunciamento no canal de televisão estatal proibindo novos protestos e alertando que o Exército tomará todas as medidas necessárias para garantir a segurança.

Um correspondente da BBC Ian Pannell informou que pelo menos três pessoas morreram durante a operação da polícia na madrugada e mais de 300 pessoas ficaram feridas.

Segundo Pannell, há informações de que a polícia usou não apenas balas de borracha como também balas convencionais contra os manifestantes.

Horas depois de a polícia tomar a praça central de Manama, os militares anunciaram na televisão estatal do país

que assumiram o controle de "partes importantes" da cidade.

Acampamento

Um manifestante, identificado apenas como Mohamed, disse à BBC que a operação da polícia durante a noite na praça central de Manama foi "horrenda".

"Eles deveriam ter usado mangueiras de água ao invés de usar balas de borracha e outras armas proibidas. Havia mulheres e crianças que ficaram aterrorizadas pelo ataque."

Na manhã desta quinta-feira ocorreram choques com a polícia em frente ao hospital principal de Manama, o Salmaniya. Centenas de pessoas se juntaram em frente ao hospital, algumas respondendo aos pedidos de doações de sangue e outros destruindo fotos da família real do país.

Militares informaram que controlam 'partes importantes' da capital

Um morador, que se identificou apenas como Ali e foi doar sangue, falou com a BBC.

"Muitas pessoas estão nos portões do hospital. A polícia fechou a área então ninguém pode entrar ou sair - alguns tentaram sair e a polícia atirou contra eles. Há muitos tanques e helicópteros", afirmou.

Os manifestantes que pediam uma ampla reforma política no país vinham acampando na praça desde terça-feira.

Durante a semana, outras duas pessoas já haviam morrido e dezenas ficaram feridas em confrontos.

Ibrahim Sherif, do partido secular Waad, disse à BBC que a polícia agiu sem qualquer aviso por volta das 3h (22h de quarta-feira em Brasília).

"Ao longo de todo o dia havia boatos de que teríamos outras 24 horas, mas o ataque veio sem aviso", afirmou.

Sherif disse à BBC que os protestos vão continuar.

"Vamos continuar a fazer o que for necessário para transformar (este país) em um país democrático, mesmo se alguns de nós perder a vida", afirmou.

Preocupações

Antes da invasão policial à praça, os Estados Unidos tinham manifestado preocupações com a violência no país e pediram moderação e respeito aos "direitos universais de seus cidadãos" e a "seus direitos a protestar".

O Bahrein é um importante aliado americano no Oriente Médio e abriga uma base da Quinta Frota Naval dos Estados Unidos.

Na quarta-feira, o porta-voz da Casa Branca Jay Carney disse que os Estados Unidos estão "acompanhando de muito perto os eventos no Bahrein e em toda a região".

As autoridades do Bahrein disseram que não tiveram opções a não ser invadir a praça para dispersar os manifestantes.

"As forças de segurança esvaziaram a praça após terem esgotado todas as opções de diálogo", afirmou o porta-voz do Ministério do Interior, general Tarek al-Hassan, em um comunicado divulgado pela agência oficial BNA.

Ele afirmou que alguns manifestantes "se recusaram a se submeter à lei" e que por isso a polícia teve que intervir para dispersá-los.

Onda de protestos

Os protestos no Bahrein, onde a maioria muçulmana xiita vem sendo governada por uma família real da minoria sunita desde o século 18, são parte de uma onda de manifestações contra governos que vem tomando países muçulmanos no norte da África e no Oriente Médio.

Desde o início do ano, levantes populares já derrubaram os governos da Tunísia e do Egito.

Para Ian Pannell, a resposta brutal das autoridades aos protestos no Bahrein indica que a família real vê sua permanência no poder ameaçada pela onda de protestos na região.

Os manifestantes pediam a libertação dos prisioneiros políticos, a criação de empregos e a construção de casas populares, o estabelecimento de um Parlamento mais representativo, uma nova Constituição e um novo gabinete que não inclua o atual primeiro-ministro, xeque Khalifa bin Salman Al Khalifa, que está no cargo há 40 anos.

Em uma rara aparição na TV na terça-feira, o rei do Bahrein, xeque Hamad bin Isa Al Khalifa, lamentou as mortes de manifestantes e disse que continuaria com as reformas iniciadas em 2002, quando o emirado se transformou em uma monarquia constitucional.

Na quarta-feira, mais de mil pessoas compareceram ao funeral em Manama de um homem que havia sido morto na terça-feira durante confrontos com a polícia durante o funeral de outro manifestante.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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