Virginie Nguyen/The New York Times
Virginie Nguyen/The New York Times

Bairro de Bruxelas se transforma na tentativa de deixar para trás estigma do terrorismo

Molenbeek foi onde uma célula terrorista planejou ataques que deixaram 162 mortos em Paris e Bruxelas. Seis anos mais tarde, os moradores tentam reinventar a área enquanto um julgamento volta a chamar atenção para essa infeliz associação

Elian Peltier, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2022 | 20h00

BRUXELAS — Com desenhos de crianças e cartazes coloridos decorando as paredes e janelas, foi fácil esquecer o notório passado do edifício de tijolos vermelhos cuja história ainda assombra um bairro de classe trabalhadora em Bruxelas.

Em uma manhã recente, em um antigo bar convertido em centro comunitário, Assetou Elabo preparava mesas para estudantes que logo se juntariam a ela para receber orientação com as tarefas de casa.

Alguns anos antes, o dono do bar tinha permitido que o tráfico de drogas prosperasse ali. Com os frequentadores, ele assistia vídeos do Estado Islâmico. E, no porão do bar, Les Béguines, ele conversava online com um amigo que tinha entrado para um grupo terrorista na Síria.

Então, em novembro de 2015, ele detonou seu colete de explosivos como parte de uma série de ataques em Paris e nos arredores.

Para muitos, o bar simbolizava tudo que tinha dado errado em Molenbeek, um bairro de quase 100 mil moradores que era lar de 7 dos 20 terroristas que mataram 130 pessoas na França naquele mês de novembro e outras 32 em Bruxelas quatro meses mais tarde.

Mas se o bar representava aquilo que Molenbeek tinha sido, o centro comunitário mostra aquilo que o bairro busca se tornar.

Desde a sua abertura graças aos moradores locais em 2018, o centro se dedica a ajudar crianças, estudantes em busca de emprego e pessoas com deficiência. Ainda que o bairro continue apresentando uma maioria muçulmana, sua diversidade real vai além do que costuma ser retratado, com recém-chegados alterando essa composição nos anos mais recentes.

“O que fazemos aqui é o oposto do que faziam os irmãos Abdeslam brothers did", disse a assistente social Elabo a respeito do dono do bar, Brahim, e seu irmão, Salah, que ajudava a administrá-lo.

Depois dos ataques de Paris, Molenbeek foi alvo de intenso interesse internacional. Equipes de emissoras de TV de todo o mundo transmitiram durante dias a partir da praça central do bairro ou perto do bar, fazendo com que os muitos moradores se sentissem em um set de filmagem.

Alguns jornalistas paravam os transeuntes e pediam para ser apresentados a um jihadista. Os formadores de opinião e responsáveis pelas políticas públicas pediam aos muçulmanos moderados que fizessem mais para combater o extremismo.

Seis anos mais tarde, muitos em Molenbeek aceitaram o desafio. E, longe da atenção do público, eles tentaram reconstruir sua comunidade, que ainda enfrenta os mesmos problemas endêmicos (pobreza, desemprego, criminalidade) que contribuíram para a radicalização de alguns moradores.

“Sentimos vergonha depois dos ataques, mas agora digo orgulhosamente que sou de Molenbeek", disse a Dra. Sara Debulpaep, 47 anos, pediatra que mora ali há quase três décadas.

Mas por mais que alguns moradores queiram deixar para trás o estigma dos ataques, os terroristas de Molenbeek estão novamente nos noticiários.

Nos meses mais recentes em Paris, um julgamento dos atentados de 2015 examinou o que deu errado em Molenbeek, apresentando fatores que teriam motivado os agressores e como o plano deles funcionaria terrivelmente bem.

No tribunal, acadêmicos, advogados e autoridades debateram por dias a criação dos agressores e aqueles acusados de serem seus cúmplices. As razões que levaram ao fracasso da polícia de Bruxelas em monitorá-los e detê-los foi investigado ainda mais de perto.

Vários dos réus julgados em Paris também serão levados a um tribunal de Bruxelas em setembro para serem julgados pelos ataques na cidade em 2016.

Dezenas de moradores de Molenbeek, em sua maioria jovens, viajaram até a Síria e o Iraque para combater ao lado de grupos como a Frente Nusra e o Estado Islâmico no início da década de 2010. No julgamento em andamento em Paris, um réu disse que, ao ser libertado da prisão em 2014, o bairro parecia vazio: todos os seus amigos tinham ido para a Síria ou para o Iraque.

Dos 20 acusados pelos ataques em Paris, sete cresceram em Molenbeek. O mesmo vale para um dos maiores recrutadores do EI na Europa.

O chefe de polícia local, Luc Ysebaert, disse que aproximadamente 50 pessoas continuam sendo monitoradas pelos serviços de inteligência na área.

Depois dos ataques, o governo aprovou uma série de recursos com o objetivo de melhorar a vida no bairro e expandir a oferta de oportunidades para os jovens locais.

Bachir Mrabet, que trabalha com jovens no Foyer, um dos principais centros comunitários de Molenbeek, disse que começou programas de interpretação do noticiário depois dos ataques, e também oficinas de teatro para aliviar a tensão. Ele também passou a organizar encontros de jovens duas vezes por semana (antes dos ataques, a frequência era bimestral). “Estamos muito mais vigilantes", disse ele.

Mas os recursos ainda são limitados, e os moradores ainda sentem o estigma, disse Ali El Abbouti, que também trabalha com jovens no Foyer e administra o próprio centro comunitário.

“Foi solicitado que façamos ainda mais, que solucionemos todos os problemas, mas com pouquíssimos recursos", disse El Abbouti. “E já fazíamos muita coisa.” Ele quer criar espaços onde os jovens sejam incentivados a se expressar; projetos recentes incluíram um podcast em árabe a respeito das origens das primeiras gerações de imigrantes marroquinos em Molenbeek.

Os voluntários dizem que os jovens precisam de mais exemplos de moradores locais mais velhos e bem-sucedidos para guiá-los. “Eles querem mentores e não encontram isso no seu entorno", disse Meryam Fellah, 27 anos, estudante de química que oferece mentoria no centro comunitário onde antes funcionava o bar.

As maiores mudanças em Molenbeek não estão partindo apenas dos moradores de longa data, mas também das mesmas forças externas que estão reformando boa parte de Bruxelas.

Ainda que os moradores de origem marroquina continuem sendo maioria em Molenbeek, nos anos mais recentes o bairro recebeu muitos europeus do leste, africanos da região subsaariana e ciganos.

Entre os vizinhos da Dra. Debulpaep, a pediatra, há albaneses, congoleses, guineanos, italianos, poloneses e palestinos. Para os moradores, a diversidade torna Molenbeek único.

Um exemplo disso é o time de futebol feminino de Molenbeek, que incluiu no ano passado jogadoras de oito nacionalidades diferentes e uma de suas equipes de 12 atletas, disse Imane El Rhifari, da comissão técnica.

Alguns moradores de Molenbeek se dizem agora irritados com a chegada de igrejas neopentecostais à região, como antes temiam algumas mesquitas que fomentavam o extremismo. Novos moradores mais ricos e de língua holandesa da região belga de Flandres ocuparam as habitações mais caras ao longo de uma área de lojas orgânicas e estúdios de artistas.

Em Molenbeek, pode-se agora visitar uma exposição a respeito dos cinemas adultos belgas em um dos museus mais badalados de Bruxelas. Projetos de arte, apresentações de música underground e cafés estão ganhando espaço.

Mas os moradores dizem que integrar esses fregueses e os clientes dos restaurantes que servem kebab e as tradicionais lojas de casamentos islâmicos da rua principal ainda é um desafio.

“Os públicos diferentes se misturam muito pouco", disse El Abbouti em uma tarde recente enquanto passava por um condomínio fechado.

E Molenbeek continua sendo uma das áreas mais pobres e populosas da Bélgica. O desemprego local de 21% corresponde a três vezes a média nacional.

Ainda que a ameaça terrorista tenha diminuído, o tráfico de maconha explodiu, e o mesmo vale para confrontos violentos entre gangues, de acordo com Ysebaert, o chefe de polícia local. “Nossos problemas são muito parecidos com os das maiores cidades europeias.”

Durante a pandemia, muitos jovens abandonaram a escola, a prática de esportes e as atividades nos centros comunitários, de acordo com os moradores e os funcionários desses centros.

“Depois que completam 16 anos, muitos desistem, e nós os perdemos", disse Touben Zouin, que orienta moradores de Molenbeek com idades entre 16 e 25 anos.

Há também algumas histórias de sucesso. Apenas meses depois dos ataques, o empreendedor local Ibrahim Ouassari abriu uma escola de tecnologia dedicada a jovens que abandonaram o ensino, na qual 30% dos 400 alunos treinados todos os anos vêm do bairro. A escola, Molengeek, veio a se tornar um dos maiores sucessos belgas na área da tecnologia, com filiais em outras cidades no país, na Itália e nos Países Baixos.

Mas Ouassari reconheceu que ainda existe uma “cultura de resignação” em Molenbeek que leva alguns jovens para o lado do crime e que já empurrou alguns deles para a radicalização. “Não drenamos completamente o solo fértil que cria pessoas desesperadas”, disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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