Bairro de Washington reflete discriminação racial

Em Anacostia, 92% dos moradores são negros e têm uma renda familiar um pouco superior à que define a linha de pobreza

Cláudia Trevisan, Correspondente - O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2013 | 02h05

WASHINGTON - Debra Staton era pouco mais que um bebê quando sua mãe a levou para ver o reverendo Martin Luther King falar sobre seu sonho de igualdade racial na Marcha sobre Washington, no dia 28 de agosto de 1963. Hoje, aos 51 anos, ela enumera as barreiras da segregação que foram derrubadas pelo movimento em defesa de direitos civis nos EUA.

"Nós podemos pegar ônibus ao lado dos brancos e sentar na frente, ir às mesmas escolas, tomar água no mesmo bebedouro e não temos mais de sentar no fundo dos restaurantes nem nos balcões dos cinemas", afirmou.

No entanto, sua realidade atual revela o abismo que ainda divide a sociedade americana. Debra vive em Anacostia, bairro onde 92% dos moradores são negros e a renda familiar média anual é de US$ 29,5 mil, não muito distante dos US$ 23 mil que definem a linha da pobreza nos EUA.

A apenas três quilômetros dali, nas imediações do Capitólio, o Congresso americano, a renda familiar média é de US$ 140 mil, em uma população na qual os brancos representam cerca de 80%.

Mãe de Heaven, uma menina de 8 anos, Debra prefere olhar para o avanço obtido nas últimas cinco décadas. "Hoje, minha filha pode entrar em uma biblioteca e pegar um livro. Antes, não podíamos, mesmo que soubéssemos ler."

IMPACTO

Debra está sendo alfabetizada só agora, em um programa para adultos. Não tem computador e nunca usou a internet. No entanto, ela aponta outra transformação. "Minha filha tem professores brancos; antes, os brancos não ensinavam crianças negras." Ela não se lembra, porém, de ter visto uma criança branca entre os estudantes negros que compõem a maioria dos estudantes da escola, localizada em Anacostia.

"Muita coisa mudou nos últimos 50 anos, mas ainda há muito preconceito contra os negros. Uma mulher branca e loira tem muito mais chances de ser bem sucedida profissionalmente do que uma negra", disse Karen Brayton, outra moradora de Anacostia.

A principal esquina do bairro é a intercessão entre a Avenida Martin Luther King Jr. e a Good Hope Road (Estrada da Boa Esperança). A região está longe de ser pobre para o padrões brasileiros. O bairro é formado por casas de um ou dois andares e edifícios baixos - não há nada comparável às favelas do Brasil. O tráfego de carros é intenso, embalados pelo hip hop, a trilha sonora predominante nos bairros pobres das grandes cidades americanas.

É evidente, porém, que Anacostia está muitos degraus abaixo na escala econômica do que os afluentes bairros brancos. Homens negros se reuniam ao longo da Avenida Martin Luther King na tarde de quarta-feira, um reflexo do alto índice de desemprego que atinge os negros.

É raro ver um branco nas ruas do bairro. Em um ônibus, a caminho do alto da colina de Anacostia, a repórter do Estado era a única branca entre 21 passageiros. A situação se repetiu na viagem de volta, em um grupo de 17 pessoas.

Debra disse que alguns brancos começam a se mudar para Anacostia. Apesar de ver com bons olhos a chegada dos novos vizinhos, ela teme o impacto que isso tenha no longo prazo. "Minha preocupação é que eles comprem os imóveis e nos expulsem daqui."

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