Baixa participação e denúncias marcam eleições no Zimbábue

Durante todo o dia, militantes de Mugabe pediam que população votasse; presidente concorreu sozinho

Efe,

27 de junho de 2008 | 19h29

Uma baixa participação de eleitores e o assédio à população por parte de partidários do presidente Robert Mugabe marcaram o segundo turno das eleições presidenciais realizadas nesta sexta-feira, 27, no Zimbábue. Mugabe participou sozinho do pleito já que seu rival, o líder do opositor Movimento para Mudança Democrática (MDC), Morgan Tsvangirai, se retirou no domingo em conseqüência da campanha de intimidação contra seus partidários, que incluiu ataques e assassinatos pelos governistas.   Veja também: Amizade de Mugabe e Mbeki explica falta de ação sul-africana Tsvangirai: de líder sindical a inimigo do regime Mugabe, ditador do Zimbábue há quase 30 anos   No começo da manhã, apenas dez pessoas esperavam a abertura dos colégios eleitorais nos centros de Harare para votar, enquanto em outras localidades, apenas uma hora após sua abertura, às 7 horas no horário local (2 horas em Brasília), os eleitores começaram a ser recebidos.   O dia de hoje contrastou com o da realização do primeiro turno, em 29 de março, quando horas antes da abertura dos colégios centenas de pessoas esperavam pelo momento de votar.   O governo do Zimbábue tentou minimizar a pouca participação dos eleitores e informou através da rádio nacional sobre uma "resposta em massa" nas províncias de Mashonalandia e Manicalandia, redutos tradicionais da governamental União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica (Zanu-PF).   Durante o dia todo, grupos de militantes da Zanu-PF dirigidos por veteranos da guerra da independência do Zimbábue e outras unidades paramilitares leais ao governo percorreram as ruas de Harare convocando pessoas a votar.   No distrito trabalhador de Mbare, na capital, que tradicionalmente apóia Tsvangirai, o grupo "Chipangano" (Nosso acordo, em idioma shona), pertencente à ala juvenil da Zanu-PF, foi casa por casa pedindo que os moradores fossem às urnas.   Não foram divulgadas informações sobre agressões, mas alguns eleitores, que pediram anonimato, admitiram que a pressão era muito forte e tiveram que votar por Mugabe porque os funcionários da Zanu-PF nos colégios exigiam ver as cédulas antes que fossem introduzidas nas urnas.   Boicote   Pouco antes que os colégios eleitorais abrissem, Tsvangirai clamou pelo boicote das eleições, embora tenha especificado que o povo deveria votar casso sentissem que suas vidas corriam perigo.     "Se for possível, pedimos que não votem, mas caso se vejam obrigados a votar em Mugabe por suas vidas estarem em perigo, votem", disse Tsvangirai em carta que o MDC fez circular em Harare e outros centros urbanos do país. O líder opositor ressaltou no documento que a população não deve se preocupar com os resultados do segundo turno das presidenciais.   "Qualquer que seja o resultado, ele não será reconhecido pelo mundo. Não importa que sejam forçados a votar em Mugabe, nós sabemos o que têm no coração. Não arrisquem suas vidas. A vitória do povo poderá demorar, mas não será negada", dizia a carta de Tsvangirai.   Foto: Reuters À tarde, o líder opositor ofereceu uma coletiva de imprensa. Na ocaisão, chamou esta fase das eleições de "uma farsa" organizada por Mugabe para tentar legitimar seu governo.   "Isto é uma farsa organizada por uma ditadura que tenta desesperadamente se legitimar, mas posso assegurar que não há nada legítimo nestas eleições", disse Tsvangirai, que instou a comunidade internacional a rejeitar o resultado deste turno do pleito, afirmando que "nega a vontade do povo zimbabuano."   Tsvangirai foi o vencedor no primeiro turno das presidenciais, mas segundo a Comissão Eleitoral do Zimbábue (ZEC), organismo nomeado pelo governo de Mugabe, o opositor não obteve o número de votos necessários para evitar a realização de um segundo turno.   O dirigente da oposição manifestou, além disso, sua aprovação do reconhecimento pela União Africana (UA) e pela Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) de que o segundo turno das eleições não pode gerar um resultado justo.   Pressões   O Comitê de Segurança da SADC, presidido atualmente pela Tanzânia, também titular do mandato da União Africana (UA), pediu que a votação fosse adiada já que a reeleição de Mugabe não terá legitimidade devido à violência que impera no país.   Mugabe, que ocupa o poder ininterruptamente desde a independência do Zimbábue em 1980, rejeitou as críticas dizendo hoje através do diário governamental The Herald que "nenhum país do mundo pode ditar como o Zimbábue deve realizar suas eleições."   "Alguns países africanos fizeram coisas muito piores e eu gostaria de ver os líderes africanos, que hoje falam de mim, mostrar que suas mãos estão mais limpas que as minhas", acrescentou Mugabe.

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