Baixar preço do arroz não basta, dizem haitianos

Quatro dias depois das medidasadotadas pelo governo para baratear arroz, motivo de violentosprotestos populares, os haitianos se queixam na quarta-feiraque o preço de outros produtos precisa cair também. Empresários que tiveram bens saqueados ou destruídosdurante os protestos disseram que vão processar o governo pornão ter sido capaz de protegê-los. Pelo menos seis pessoas morreram nas manifestaçõesiniciadas há duas semanas em Les Cayes (sul). Os distúrbioslevaram o Senado a destituir o primeiro-ministro JacquesEdouard Alexis, no sábado, sob a acusação de ter sido incapazde estimular a produção de alimentos. No mesmo dia, o presidente René Préval anunciou um acordocom importadores que permitirá uma redução de cerca de 15 porcento no preço do arroz. Mas esse acordo acabou provocando incidentes violentos nosúltimos dias nos mercados haitianos, já que pessoas famintasesperavam uma redução imediata nos preços, enquanto oscomerciantes alegavam que antes precisam se desfazer de seusestoques comprados ao preço antigo. "Reduzir o preço do arroz, mesmo que ligeiramente, é umacoisa boa, mas que tal os outros gêneros essenciais?", disseMelanie Previl, 33 anos, mãe de três filhos. "Não podemossimplesmente ferver o arroz e comê-lo." Estima-se que 80 por cento dos 9 milhões de haitianos vivamna miséria, sendo a maioria com menos de 2 dólares por dia.Agências humanitárias internacionais pediram o envioemergencial de mantimentos para ajudar o Haiti e outros paísespobres afetados pelos distúrbios. O preço elevado do petróleo, o aumento da demanda na Ásia,adversidades climáticas e o uso intensivo do milho para aprodução de etanol nos Estados Unidos são alguns dos fatoresque provocam a alta mundial no preço dos alimentos. "Os preços do óleo, do feijão, da farinha, do trigo e doaçúcar ainda estão muito altos e podem subir ainda mais",comentou Yvon Mauger, dono de uma livraria no centro de PortoPríncipe. O presidente da Câmara Haitiana do Comércio e da Indústria,Jean Robert Argant, disse que os empresários que tiveramprejuízos com os protestos devem pedir indenizações. "O governotem a responsabilidade de fornecer segurança e proteção paranossos investimentos, e não o fez," afirmou. Préval rejeita a idéia de indenizar os empresários, dizendoque seria difícil identificar as vítimas depois de umvandalismo tão generalizado. Entre as vítimas há não só grandes empresas, mas tambémcentenas ou milhares de vendedores ambulantes que perderam suasmercadorias. Só no bairro de Delmas, na capital, pelo menos cemestabelecimentos foram depredados ou saqueados, segundo oprefeito Wilson Jeudi. "Os prejuízos em termos de danos materiais somam milhões dedólares, mas os prejuízos em termos de oportunidades deinvestimentos são ainda maiores", disse Argant. O deputado Jean Limongy sugeriu que abatimentos fiscaispara compensar os prejuízos dos empresários. "O governo não necessariamente tem de lhes dar dinheiro.Acho que essas empresas deveriam ser autorizadas a operar sempagar impostos durante algum tempo, para que possam serecapitalizar um pouco." A polícia disse que um homem de 45 anos foi linchadodurante protestos em Jeremie (sul) nos últimos dias, elevando aseis o número de mortos nos distúrbios.

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