Baixarias tomam conta da campanha eleitoral americana

Ninguém esperava que a briga pelo controle do Congresso americano fosse um duelo de cavalheiros. Mas à medida que a corrida eleitoral chega ao fim, mesmo especialistas estão surpresos com a agressividade de algumas campanhas. Uma propaganda específica, no Estado do Tennessee, estabeleceu "uma nova definição de baixo nível na política americana" segundo John Geer, que estuda campanhas negativas.A propaganda é um ataque em forma de sátira a Harold Ford Jr., candidato democrata ao Senado, e foi acusada de enganosa "do ponto de vista racial" pelo principal grupo de direitos civis dos EUA, o NAACP, entre outros.A peça publicitária mostra uma série de pessoas oferecendo motivos para votar em Harold Ford Jr. Entre elas, um caçador afirmando: "Ford está certo. Eu realmente tenho muitas armas". Há também um tipo espalhafatoso perguntando: "Ele ganhou dinheiro de produtores pornôs. Mas quem não fez o mesmo?" Festa da Playboy Mas a principal polêmica da propaganda é quando uma mulher loira - sem roupas aparentes - diz: "Eu conheci Harold na festa da Playboy". Ao final do anúncio, ela pisca e diz: "Harold - me liga!"."É aí que essa propaganda estabelece um novo marco. Infelizmente, negativo", diz Geer, professor de Ciência Política na Universidade de Vanderbilt, no Tennessee, e autor do livro "Em Defesa da Negatividade". Veiculado no Estado onde a Ku Klux Klan (grupo que prega a supremacia racial branca) foi fundada após a Guerra Civil, o comercial pretende atiçar "velhos temores sobre a igualdade racial", diz Geer.A personagem da Playboy é provavelmente uma referência ao fato de Harold Ford ter comparecido a uma festa do Super Bowl (a final do campeonato de futebol americano) promovida pela revista no ano passado.Harold Ford não se desculpou por ter ido à festa, dizendo: "Eu gosto de futebol e gosto de garotas". O comercial criou uma onda de protestos tão grande que foi retirado do ar antes do previsto pelo Comitê Nacional Republicano. O comitê pagou pela peça publicitária, mas afirmou que, conforme as leis americanas de financiamento de campanha, não tinha qualquer responsabilidade pelo seu conteúdo. Papel na democracia O dirigente do partido, Ken Mehlman, negou que a propaganda seja racista. "Como alguém extremamente sensível a isso, não acredito que seja (racista). Ao mesmo tempo, há boas pessoas de ambos os lados que pensam diferente."Entre eles, está Geer. Ele diz ter ficado surpreso que os republicanos tenham veiculado um comercial como esse quando seu candidato tem uma pequena vantagem nas pesquisas."Eu me pergunto se os republicanos têm outros dados sugerindo que eles estejam com problemas. Eu sempre pensei que eles usariam a questão racial somente se estivessem atrás", afirma Geer.Sua análise reflete a tese central de seu livro: campanhas negativas funcionam. Ele argumenta que propagandas negativas - criticando o oponente em vez de ressaltar os próprios méritos - têm um importante papel na democracia."Qualquer um pode dizer: ´Eu defendo a liberdade e a torta de maçã´. Mas quando você ataca, tem de ser mais específico", diz."Os anúncios negativos têm muito mais documentação que os positivos. A democracia realmente precisa dessa negatividade se você quiser manter alguém responsável por seus atos.""Não se pode fazer esse tipo de anúncio sem uma parcela de verdade", afirma. Campanha negativa É exatamente isso que Brooks Jackson, diretor do FactCheck.org, um projeto apartidário do Centro de Políticas Públicas Annenberg da Universidade da Pensilvânia, teme que esteja ocorrendo.Campanhas de todo o país passaram por Jackson e sua equipe de pesquisadores. "Em minha experiência considerável na cobertura de campanhas nos Estados Unidos, não consigo pensar em uma mais negativa. De ambos os lados", afirma.Ele cita um comercial republicano acusando um democrata de votar para "estudar a vida sexual das prostitutas vietnamitas em São Francisco" em vez de patrocinar pesquisas científicas. E também um comercial democrata acusando um republicano de lucrar com as mudanças no sistema de saúde americano.Jackson ficou particularmente irritado com um comercial criado pela VoteVets.org e veiculado contra diversos senadores republicanos. A peça publicitária mostra um soldado atirando contra dois bonecos, um vestindo um colete da época da Guerra do Vietnã, e outro vestindo uma armadura moderna. As balas penetram no colete antigo, mas não no novo. O soldado, então, acusa o senador George Allen, da Virgínia, de votar contra o pedido do Exército de novas roupas. O problema, segundo Jackson, é que "nunca houve votação sobre esse assunto". A VoteVets defendeu a veracidade do comercial. Segundo Jackson, é comum encontrar ataques baseados em algum fato, mas que levam a conclusões incorretas. Ele acredita que os ataques vão continuar. "Consultores políticos acreditam que esse tipo de coisa funciona. E há evidências de que, em certas circunstâncias, funciona mesmo", diz Jackson.

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