Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

'Baixo carbono é a melhor oportunidade do Brasil para se tornar competitivo'; leia entrevista

Economista e ambientalista acredita que Brasil tem posição privilegiada na mudança global anunciada na cúpula do clima, mas vê despreparo de autoridades para aproveitá-las

Entrevista com

Sérgio Besserman, ambientalista, economista e ex-presidente do IBGE

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2021 | 05h00

As promessas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro frente aos líderes mundiais sobre a redução de carbono no Brasil são factíveis, mas inócuas. É o que afirma o economista e ambientalista, Sérgio Besserman. Em entrevista ao Estadão, o ex-presidente o IBGE classificou o esforço mundial para alcançar o carbono neutro como um “atalho” para o desenvolvimento e afirmou que caso o Brasil insista em manter um modelo de produção com base em carbono, no sentido oposto ao restante do mundo, será penalizado.

“Há uma defasagem de décadas da compreensão do que está acontecendo na economia mundial, como se a gente pudesse escolher ter um desenvolvimento do tipo antigo e passar para o zero carbono fosse um custo que estivesse sendo imposto ao Brasil, quando na verdade é nossa melhor oportunidade”, disse Besserman.

Crítico da atitude que o Brasil vem adotando em relação à cobrança por recursos pela conservação ambiental - o que o economista diz deixar o Brasil na posição de “pedinte” no cenário internacional -, ele definiu a atuação diplomática na cúpula como “ingênua” e “tosca”, e afirmou que nenhum país do mundo compensará economicamente o País sem comprovação de resultados.

“O Brasil está com a credibilidade zero, especialmente na área ambiental. Isso (forma de pagamento do mercado de carbono) já é um padrão internacional, mas mesmo que não fosse, no nosso caso não tem como vender fiado. Até o dono do botequim sabe disso.”  

Como avaliou o discurso de Bolsonaro na cúpula do clima? Houve alguma mudança em relação às declarações anteriores?

Há duas observações. Uma delas diz respeito aos métodos diplomáticos. É excessivamente ingênua esta posição que se assemelha a uma espécie de chantagem: ‘só vou fazer se receber o dinheiro’. Essa é uma posição diplomática infantil que gera custo. Diplomacia não é um jogo. Pode-se usar luvas de pelica, mas por trás do pano está cheio de bazuca. Se aparecer com uma posição desse tipo, gera prejuízo ao Brasil. 

O segundo ponto demonstra uma visão que me deixa muito mais preocupante. Uma visão completamente distorcida das chances de desenvolvimento do Brasil. A transição para o baixo carbono, claro que implica em custos iniciais de investimento, mas se para alguns países esses custos são elevados, realmente problemáticos, o Brasil é o único país do mundo que, numa economia de baixo carbono, torna-se mais competitivo. Uma forma de inserção competitiva na economia global.

Que fatores nos colocam em posição de vantagem?

Partimos de um ponto em que nossa estrutura é muito improdutiva, derrubando a nossa competitividade - o custo Brasil. Temos que renová-la de qualquer maneira, não importa se por concessões, privatização ou mais investimento estatal... Digamos que, por milagre, nós conseguíssemos modernizar toda a infraestrutura da economia brasileira, se não for feita a baixo carbono, em menos de dez anos ela será custo Brasil na veia, igualzinho a hoje. Porque o carbono será precificado e ela será completamente improdutiva. Nós temos essa oportunidade de reestruturar nossa infraestrutura já a baixo carbono.

O segundo ponto é a questão da geração de energia. O Brasil foi abençoado por Deus, com um enorme potencial hidroelétrico, mas, mesmo com essa bênção divina, nós estamos ficando para trás. Portugal já tem uma matriz energética mais renovável do que a nossa. Nós poderíamos ter uma matriz energética totalmente renovável, ao mais baixo custo. Se as metas do Brasil fossem equivalentes às de Biden para 2030 no plano da energia, o trabalho seria muito mais barato do que para eles.

Alguns especialistas apontam que o governo está confundindo a ordem dos compromissos na remuneração pela preservação. Que primeiro é necessário apresentar dados que confirmem a diminuição do desmatamento para depois receber recursos.

Com toda certeza. Não há a menor dúvida sobre isso, e não há qualquer pessoa de bom senso que não saiba disso. E o Brasil está com a credibilidade zero, especialmente na área ambiental. Isso (forma de pagamento do mercado de carbono) já é um padrão internacional, mas mesmo que não fosse, no nosso caso não tem como vender fiado. Até o dono do botequim sabe disso. 

Pleitear recursos é correto, não tem problema nisso, mas você não faz isso dessa forma tosca como foi feita pela diplomacia brasileira agora, você faz de forma sofisticada, nas entrelinhas, como era feito pela diplomacia brasileira no passado, nas negociações diplomáticas.

Parece que o governo atual é o primeiro a pleitear recurso na recepção climática, mas nós já pleiteávamos recursos antes. Ele (Bolsonaro) fez um discursozinho que não levará nada. Primeiro, tem que entregar a mercadoria, depois você recebe o pagamento. 

Joe Biden destacou o aspecto econômico do enfrentamento às mudanças climáticas. Qual impacto econômico pode ser gerado neste esforço global? As nações em desenvolvimento também se beneficiam?

Para os países emergentes, em geral, é mais sobre não ficar excluído nesse processo. E quem ficar será penalizado, possivelmente, no comércio exterior. Para o Brasil é diferente. A posição do Brasil não é igual à dos outros países em geral. Para o Brasil é um atalho, talvez o único, para evitar a armadilha da renda média.  Nós já somos um país na armadilha da renda média. O País não é rico, não conseguiu ficar rico, mas também não é mais pobre. Nós somos extremamente endividados e atolados. Para o Brasil, isso é uma oportunidade para um ciclo de investimentos e financiamentos que vão dar retorno do futuro.

Podemos dizer então que essa janela é uma oportunidade única para o Brasil atingir um patamar de desenvolvimento ou não é para tanto?

É para tanto. Para que a gente chegue a ser um país desenvolvido, todos concordamos que o ponto central é conhecimento, educação, ciência e instituições fortes. Isso é o que nos levará a ser um país desenvolvido. Mas esse é um processo lento. Todos os aspectos dele. A educação tem os seus efeitos em uma geração. Constituir instituições fortes, você vê que 32 anos depois da Constituição de 88, a gente ainda está às moscas com deliberações a respeito. É um processo que demora um tempo, e esse tempo pode ser fatal para nós.

O destino nos deu um atalho, e esse atalho é a transição para o baixo carbono. No período em que a gente constrói as bases para um país desenvolvido, que não existem hoje. Se o Brasil for vanguarda nesse processo, vai se tornar crescentemente competitivo na economia global, pois podemos oferecer alimentos a baixo carbono, biocombustíveis... 

Mas é exatamente o oposto da posição do governo que coloca como se o desenvolvimento do Brasil e de qualquer país do mundo pudesse se dar nos mesmos termos de antigamente. Há uma defasagem de décadas da compreensão do que está acontecendo na economia mundial. Como se a gente pudesse escolher ter um desenvolvimento do tipo antigo e passar para o zero carbono fosse um custo que estivesse sendo imposto ao Brasil, quando na verdade é nossa melhor oportunidade. 

O que me incomoda é que a expressão ‘baixo carbono’ jamais tenha aparecido na boca do ministro Tarcísio (de Freitas, da Infraestrutura), do ministro Bento (Albuquerque, de Minas e Energia), e nem do ministro Guedes (Paulo, da Economia) no noticiário.  É como se eles não entendessem a realidade que qualquer CEO de grande empresa, qualquer chefe de Estado enfrenta. Como se fosse uma questão apenas de meio ambiente.

Mas houve uma mudança de posição do governo neste discurso, em comparação ao discurso anterior?

A mudança de posição é por estarmos absolutamente na defensiva, desmoralizados na área ambiental, e pela pressão por baixo carbono não ser mais um assunto ambiental, mas um grande assunto da economia global. Essa posição foi uma tentativa de manter a cabeça ligeiramente inclinada, mas não muito para baixo, porque fazer o contrário significaria ser penalizado economicamente de uma forma brutal e imediata. Não havia possibilidade de não ter feito esse teatro.

Então não existe mais o aparente paradoxo que sempre é apontado entre desenvolvimento econômico e combate às emissões?

Muito pelo contrário. Não só do ponto de vista das oportunidades de investimento, energia solar, mas também porque o carbono será precificado na estrutura geral de preços relativos. A economia de mercado global, de um jeito ou de outro, vai cobrar. Isso significa que quem não pegar esse barco morre afogado. Não tem nada de paradoxo, é uma condicionante.

São factíveis as promessas do Brasil, no caso de antecipar a neutralidade de carbono para 2050, como meta?

Factíveis, mas inócuas por enquanto. Nos Estados Unidos e em outros países, quando se assume um compromisso como esses, imediatamente ele vira lei. São distribuídas cotas para as empresas e etc. No Brasil não é dessa forma. Uma promessa lá para 2050, sem o comprovante de quais serão as políticas, como elas serão implementadas, qual o custo para quem se colocar contra, a promessa não tem valor nenhum.

Qual é a mensagem passada pela cúpula do clima e o que ela antecipa sobre a COP 26?

A cúpula passa uma mensagem altamente positiva de que finalmente há uma compreensão de que a civilização, a humanidade, está muito atrasada no combate às mudanças climáticas. Quando a rodada de Doha fracassa, tudo bem, a gente não resolve questões de comércio exterior e daqui a 20 anos a gente senta e faz isso. Com o clima, nós estamos 30 anos atrasado, no mínimo, mas a agenda está fora do nosso controle, isso significa que nós já estamos em ponto crítico.

A meta de 2ºC do Acordo de Paris é o limite do perigo. É como fazer uma curva a cem quilômetros por hora. Tem risco de cair na ribanceira. Se aumentarmos 3ºC, no que se projetava com as metas voluntárias, já é 50% acima. Então, nós vamos fazer a curva a 150 km/h. Vão ter mortes, vão ter feridos. Os impactos são gravíssimos.

Isso ficou claro para o mercado financeiro desde meados de 2019. O risco climático, no ponto de vista das finanças, atua no que hoje é evidente na transição para o baixo carbono. Por ser uma inevitabilidade, quanto mais você atrasa ela, mais acelerada ela terá de ser, e o mercado precifica por antecipação. 

Se ele percebe uma empresa que não tem muitas chances ou não está se preparando para um mundo de baixo carbono, o investidor, principalmente o de longo prazo, tira todo o dinheiro limpo. Isso também se aplica a um país. Quem ficar para trás nessa história, vai perder não o bonde da história, vai perder a internet da história. 

 

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