Ban busca melhorar sua imagem

Secretário-geral da ONU tenta superar a falta de carisma e se mostrar mais ativo nas principais crises do planeta

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2009 | 00h00

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, revelou há poucos dias ao Estado como se sente diante das críticas que vem recebendo. "Estou arrasado", disse Ban, que está há dois anos e meio à frente da ONU. Há um mês, a revista americana Foreign Policy classificou Ban como o "coreano mais perigoso do mundo". "Nunca, na minha vida, pensei que seria chamado de o homem mais perigoso do mundo", lamentou. No entanto, a crítica da revista ao secretário-geral da ONU é apenas a ponta de um iceberg de avaliações negativas contra um diplomata considerado ausente, pouco carismático, com sérias dificuldades para se expressar em francês e inglês e recalcitrante em participar de algumas das piores crises do planeta. "O secretário-geral é tão forte quanto queiram os membros da ONU", defendeu-se Ban. "É simplesmente impossível fazer mais sem apoio político. Preciso de mais apoio e recursos", disse o sul-coreano em uma conferência de imprensa há duas semanas.Segundo essa lógica, a fraqueza não é do atual secretário-geral, mas da própria organização, incapaz de encarar todas as crises com um orçamento congelado há três anos e obrigada a manter mais de 100 mil capacetes azuis em operações de paz pelo mundo. Para completar, a crise econômica está reduzindo as doações voluntárias. Apesar da chuva de críticas, Ban foi apontado como a segunda personalidade mundial que mais inspira confiança, de acordo com uma pesquisa de opinião feita há um mês pela empresa World Public Opinion. Entre 35% e 40% dos 20 mil entrevistados confiam em Ban. Contudo, 57% dos americanos, não. No Egito, a rejeição chega a 70%. Já na Coreia do Sul, seu país natal, a aprovação alcança 90%. Desde o início do ano, a ONU começou a montar uma estratégia para reverter a imagem de um líder ausente que tem o sul-coreano - mesmo que ele insista em dizer que seu objetivo não é ser um "queridinho da mídia". Entrevistas foram agendadas com jornais e panfletos foram publicados e distribuídos com fotos e mensagens do secretário-geral. A forma de atuar de Ban contrasta com a de seu antecessor, Kofi Annan, que chegou a ser chamado de "Papa Secular". Isso antes do escândalo envolvendo a corrupção de funcionários da ONU no comércio com o Iraque.Ban insiste que ele não é um homem de retórica e não gosta de se autopromover junto à mídia. Ele garante, porém, que fala grosso quando está a sós com os líderes de todo o mundo. "Falo as coisas diretamente", disse.Tradicionalmente, secretários-gerais da ONU são reeleitos para um segundo mandato. Entretanto, o sul-coreano prefere ainda não falar sobre isso. Vozes de dentro e de fora da organização dizem que a reeleição de Ban pode não vir. Ele mesmo já admitiu, em entrevistas recentes, que percebe as muitas avaliações negativas a seu respeito."Quando chegar o momento, espero que os membros da ONU julguem o que eu consegui", afirmou. "Trabalho como a voz daqueles que não tem voz e defendo aqueles sem defesa."No entanto, o futuro de Ban dependerá especialmente de um entre os 192 membros da ONU: os EUA. Ainda não foi possível perceber uma sintonia entre Ban e o presidente americano, Barack Obama. Afinal, o sul-coreano é um secretário-geral que foi escolhido graças, em parte, ao amplo apoio do governo do ex-presidente George W. Bush.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.