Ban Ki-moon tenta mudar a ONU

Com apoio dos EUA, secretário-geral despolitiza Nações Unidas e agrada a ricos e pobres ao dar prioridade ao desenvolvimento

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

26 de abril de 2008 | 00h00

Em público, discreto e até tímido. Nos bastidores, hábil negociador e incansável. O secretário-geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon, acaba de completar um ano no cargo de chefe da diplomacia das Nações Unidas e continua desconhecido em boa parte do mundo. Mas, sem alarde, prepara uma pequena revolução na ONU: a de usar seu mandato como líder da organização para, de certa forma, despolitizar o órgão e colocar como prioridade o desenvolvimento e a redução da pobreza. O Estado passou uma semana acompanhando o sul-coreano em um tour por países africanos no avião privado, mas sem nenhum luxo, da ONU. Ban, de 63 anos, chegou à liderança da ONU com forte apoio dos EUA e em meio a duas crises: as críticas do ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan à guerra no Iraque, que não foram bem aceitas pela Casa Branca, e os casos escabrosos de corrupção na organização.A ONU desgastou-se e foi marginalizada no conflito no Iraque cinco anos atrás, quando os EUA invadiram Bagdá sem a autorização do Conselho de Segurança. De certa forma, ao dar prioridade ao desenvolvimento, Ban diminuiu o perfil da ONU como polícia mundial, o que convém aos interesses dos americanos, que não querem o organismo dando palpites sobre Iraque; aos russos, que rejeitam queixas sobre sua atuação na Chechênia; ou aos chineses, que não querem intromissão em sua política no Tibete. Por isso, seu projeto de concentrar esforços no crescimento econômico e redução da miséria agrada às grandes potências e também aos países pobres. Em sua agenda, o foco não deve ser o uso da força, mas evitar conflitos por meio de desenvolvimento e reconstruir nações atingidas por guerras, como a Libéria.Ex-chanceler do governo de Seul, Ban fez parte do esforço sul-coreano de transformar uma economia que havia 40 anos era baseada na agricultura em uma das mais avançadas do mundo em termos tecnológicos. "Lembro-me de quando eu era criança e não tínhamos escola, já que o país acabava de sair da guerra. Tínhamos de estudar no chão e sob as árvores", disse Ban a um grupo de crianças em Ouagadougou, na Costa do Marfim, na quarta-feira. "Mas vejam que, mesmo assim, uma dessas crianças conseguiu ser secretário-geral da ONU."ROTINAO secretário-geral da ONU acorda todos os dias às 5 horas ("durmo pouco", admite). Durante a viagem, impaciente para trabalhar, reclama das esperas. O ritmo frenético é contrabalanceado pelo bom humor, concentração e até alguns momentos de karaokê, hobby de todos os coreanos. Chega a ter dez compromissos em menos de 20 horas de visita a um país. Em um ano, Ban Ki-moon já visitou 40 nações e percorreu 210 mil quilômetros. Não pratica esporte e diz que apenas anda, dentro de seu escritório. "Viajar com ele é assim: esgotante", resumiu ao Estado um assessor. Para tratar de assuntos como envio de tropas de paz, mudanças climáticas, educação, saúde, comércio e pobreza, Ban viaja com um assistente para cada área. Eles elaboram até recomendações para sua esposa, Ban Sun-taek, sobre como ela deve falar ou agir no trato com primeiras-damas. A cúpula da ONU é o espelho da própria diversidade da organização. Ban é acompanhado por assessores como um ex-guerrilheiro etíope que ninguém se atreve a perguntar se já foi responsável por mortes, um técnico de informática peruano, seguranças americanos, dois intérpretes permanentes e uma infinidade de auxiliares coreanos. O diretor de comunicação e responsável por todo o conteúdo de seus discursos é, não por acaso, um americano. Ban, porém, ofende-se quando é visto como um "homem dos EUA". Uma montagem o aborreceu nas últimas semanas. O partido xiita Hezbollah espalhou cartazes no sul do Líbano com fotos de Ban em que ele aparece com uma lente de seus óculos pintada com a bandeira dos EUA e a outra, com a de Israel. Embaixo, a frase: "Como Ban Ki-moon vê o mundo." Sentindo-se insultado, Ban confessou a seus assessores que gostaria de "colocar mais uísque nos discursos aguados" que faz sobre os problemas mundiais. Foi aconselhado a não ir além de seu mandato para sua própria proteção física e política.Em suas viagens, Ban vive cercado de seguranças. Na Libéria, onde mais de 200 mil pessoas morreram nos últimos 13 anos de guerra civil, o tráfego em toda a capital, Monróvia, foi interrompido na terça-feira passada por uma hora para que seu comboio fosse do aeroporto até o quartel-general da ONU.Visado, Ban também foi obrigado a pôr a família em segundo plano para poder cumprir seu mandato. Sua filha, que trabalhava na Unicef - órgão da ONU dedicado à infância - antes de Ban ser escolhido para a secretaria-geral, pediu afastamento temporário para evitar desconfianças de favoritismo. Mesmo assim, ela liga quase todos os dias para o pai, muitas vezes para criticá-lo.

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