Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Banda russa anti-Putin Pussy Riot faz show em Brasília paralelo ao encontro do Brics

Em entrevista ao 'Estado', vocalista Nadya Tolokonnikova mostra preocupação com ascensão da direita no mundo: 'espero que não impeça as mulheres de cada vez mais participarem da política'

Entrevista com

Nadya Tolokonnikova, vocalista do Pussy Riot

Camila Turtelli e Gabriela Biló, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2019 | 19h46

BRASÍLIA - Um dos rostos mais conhecidos do Pussy Riot, banda da Rússia célebre por ações que mesclam performance artística, punk rock e feminismo, Nadya Tolokonnikova diz ao Estado que está preocupada com o crescimento dos movimentos de direita no mundo. “Espero que todo esse movimento de direita, que está acontecendo no mundo, não impeça as mulheres de cada vez mais participarem da política”.

Paralelamente ao encontro dos Brics (formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que acontece em Brasília, a ativista faz sua primeira apresentação na capital federal no Festival Bravas, junto com as outras duas integrantes da banda, que foram presas e cumpriram dois anos de pena após um protesto em uma catedral, em Moscou. 

Os alvos mais frequentes das manifestações do grupo são o presidente russo, Vladimir Putin, e líderes conservadores, como Donald Trump. Nadya diz não se sentir confortável para falar sobre política brasileira, mas afirma que algumas frases do presidente Jair Bolsonaro sobre mulheres a fazem lembrar de Putin.

Confira os principais trechos:

No Brasil, as mulheres representam apenas 15% do Congresso brasileiro. Até o ano passado, esse número era ainda menor, com 10%. Na opinião de vocês, qual é o principal entrave para a participação da mulher na política hoje em dia?

O peso da expectativa de gênero é de onde eu comecei meu caminho como uma feminista. Eu tinha oito anos quando percebi que era uma. Era forçada a fazer certas coisas só por ser mulher. Lembro que minha professora na época disse para toda sala: ‘Nadya é uma ótima aluna, vai ser a esposa do presidente’. Eu não era forte o bastante para confrontá-la em público e dizer ‘eu adoraria ser a presidente’. Foi a partir desse ponto que passei a me interessar pelo movimento feminista. Crescemos não acreditando em nós mesmas, não tendo convicção de que podemos de fato ser presidentes e fazer parte do processo político. Está melhorando nos últimos dez anos. Então, eu espero que todo esse movimento de direita que está acontecendo no mundo, não impeça as mulheres de cada vez mais participarem da política.

Há uma onda crescente da extrema direita em diversas regiões do mundo. Acreditam que possa haver, com isso, um retrocesso mais significativo para as mulheres? Por que?

Certamente é pior para as mulheres e para todos os grupos vulneráveis. Como o presidente Donald Trump, nos Estados Unidos. Ele é pior para todas as pessoas vulneráveis, como pobres, negros, pessoas de diferentes religiões, como mulçumanos, e mulheres. Todos esses políticos conservadores que na maioria dos casos, são homens, brancos, heterossexuais, que apenas querem proteger suas posições. Para mim, um dos pontos mais importantes é sobre direitos reprodutivos e, nesse país que é chamado de “terra dos livres”, o aborto foi proibido, mesmo em casos de estupro, como no Alabama. Inclusive fizemos uma música sobre isso que devemos lançar em breve, no começo de dezembro. Ou seja, sim, nós mulheres estamos mais vulneráveis.

O que você sabe sobre o presidente do Brasil Jair Bolsonaro e quais paralelos é possível traçar entre ele o Vladimir Putin, na Rússia?

Não me sinto muito confortável para falar sobre isso porque não vivo aqui. Tenho amigos brasileiros que ficaram tristes com as eleições. Mas não sei, talvez eu não saiba de tudo. Mas sei que ele é um desses que não se importa com as mudanças climáticas. Vamos viajar para a Amazônia, para conversar com as comunidades indígenas, e até onde eu sei Bolsonaro não pensa na floresta. Para ele o desenvolvimento é mais importante do que as mudanças climáticas. Sei também da posição dele sobre as mulheres, ele disse que a mulher tem de ter salário menor do que os homens.

O presidente Bolsonaro disse uma vez sobre os filhos dele que “foram quatro (filhos) homens, a quinta eu dei uma fraquejada, veio uma mulher, ela tem seis anos de idade e foi feita sem aditivos, acredite se quiser”.

Interessante, estou sem palavras. Definitivamente isso traz memórias das palavras do Putin. Quando ele foi entrevistado pelo cineasta Oliver Stone, ele disse: ‘Eu não sou como uma mulher. Não tenho dias ruins, por isso que sou mais forte”. As mulheres são definidas como sexo mais frágil, por isso o 8 de março se tornou uma data sobre empoderamento.

É importante para as Pussy Riot estar em Brasília ao mesmo tempo em que a cidade sedia o encontro dos Brics?

Eu não sou apegada ao Brics. Meu movimento está tentando construir um mundo alternativo do que o Brics representa. Eu não vou juntar a minha política com a deles, nosso trabalho é criar redes de pessoas para defender nossos direitos e ter nossas conquistas.

Você se sente mais livre para fazer uma apresentação no Brasil do que na Rússia?

Não vejo a diferença. Em algum momento eu vou cruzar a fronteira. Toda vez que eu cruzo, eles vão checar minha ficha e esse é um dos momentos em que eles podem te prender. Quando eu estava presa, não tinha nada a perder. É um desses momentos em que você se sente livre. Porque o que mais você pode perder estando ali? Você não tem nada, além das correntes. Foi um momento em que eu não poderia ser mais honesta. Essa é a linguagem que pessoas no poder entendem. Você não pode demonstrar fraqueza para eles.

Em 2017, Putin sancionou uma lei que considera que não é crime agressões contra mulheres que deixam apenas marcas superficiais. Há outras leis que estão em discussão que podem marcar um retrocesso nos direitos das mulheres?

Foi um movimento ridículo. Desde que eu me lembro como uma ativista tentamos colocar leis que protegem as mulheres. Hoje as mulheres não podem perder mais direitos, porque nesse momento elas não têm mais nenhum.

Em 2012, ano da prisão de vocês, houve no Brasil uma ativista chamada Sara Winter, que ganhou fama ao protestar pelas Pussy Riot. Atualmente, Sara é Coordenadora Nacional de Políticas à Maternidade no ministério e é também uma ativista contra o aborto e faz críticas ferrenhas contra feministas em suas redes sociais.  Ao que vocês acreditam que uma mudança de postura como essa possa ser atribuída?

Não tenho ideia do que pode ter acontecido, não a conheço. Mas me parece uma mudança muito dramática para mim. Mas eu defendo que as pessoas expressem suas ideias, mesmo com as mudanças de opiniões. As pessoas têm o direito de mudar.

Como você vê as mudanças na Rússia nos últimos anos?

De pouco em pouco, as pessoas na Rússia, perderam seus direitos e liberdade de expressão. A opressão cresceu. Mas isso não foi algo que aconteceu do dia para noite. Quando Putin foi eleito, eu tinha 10 anos, então não lembro como as coisas mudaram desde então. Mas olhando em perspectiva o que aconteceu lá, primeiramente, foi um ataque à mídia independente. Depois, ele colocou na prisão todos que queria. Houve um ataque ao Parlamento. Neste momento, o nosso Parlamento é nada. O nosso problema, na época, era que as pessoas ainda estavam tentando sobreviver. As pessoas não estavam interessadas em ter liberdade. Existiam grupos de ativistas fazendo trabalho, mas eles não tinham apoio popular. As pessoas estavam felizes, com todo o gás e petróleo borbulhando.

De que forma o presidente acumulou tanto poder?

Foi um punhado de eventos que fez com que ele acumulasse este poder. As pessoas só queriam um apartamento e um emprego. Isso resultou em reformas dramáticas nos anos 1990. O que aconteceu foi um choque na economia. E todos os Chicago Boys que seguiam Milton Friedman, e todos os outros do tipo no passado, foram para a Rússia e empobreceram as pessoas. Eles pegaram todo o dinheiro. As pessoas, como minha mãe, tinham que vender doce na rua para nos alimentar. Depois de todos esses choques, Putin chegou como promessa de estabilidade. Ele não se importa com liberdade, mas estabilidade. Ele é um militar, veio da FSB (sucessora da agência de informação KGB). Isso poderia servir de apelo para as pessoas, mas ele não se preocupa com liberdade. E, de fato, nós não temos estabilidade. Neste momento, o país e as pessoas estão ficando mais e mais pobres. 

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