Lourival Sant'anna/AE
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''Bandeira branca era armadilha'', diz rebelde

Ferido, combatente fala de emboscadas dos soldados de Kadafi e do uso de mercenários

Lourival Sant'anna, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2011 | 00h00

O engenheiro eletrônico Khalifa Youssef comandava 50 homens quando o grupo chegou, na tarde de ontem, ao portão verde, a entrada principal do complexo de Bab al-Azizia.

Armados com fuzis, eles traziam uma bandeira branca - não para se render. "Pretendíamos que eles se rendessem", explicou Youssef ontem à noite ao Estado, no hospital de Jadu, para onde foi levado depois de ser ferido no rosto por estilhaços. Dois de seus homens morreram ao seu lado.

Do outro lado do portão e da muralha, uma bandeira branca também foi erguida. Era uma armadilha, conta Youssef, de 27 anos. Quando seu grupo se aproximou, soldados de Kadafi abriram fogo.

Youssef disse que viu, entre os inimigos, mercenários africanos, que ele identificou como sendo do Níger, Chade e Gana. Isso foi por volta de 17 horas. Nas horas que se seguiram, os rebeldes romperam a resistência das forças leais ao regime e invadiram o complexo.

"Bab al-Azizia é o símbolo máximo de Kadafi, contra o qual lutamos durante 42 anos", disse Youssef, sentado numa cadeira, com agulhas de soro intravenoso ainda espetadas nas mãos. "Sentimos a vitória alcançada, a liberdade." Youssef acredita, entretanto, que o ditador continue na Líbia.

Controle. O Estado cruzou ontem os 200 quilômetros que separam Dhibat, na fronteira com a Tunísia, e Jadu, situada a 170 quilômetros de Trípoli. A região é dominada pelas Montanhas de Nafusa, que estão sob controle dos rebeldes.

Mais ao norte, a área costeira a oeste de Trípoli é disputada entre os rebeldes e as forças leais a Kadafi. Em Jadu está o hospital geral mais próximo de Trípoli que atende os rebeldes.

O Hospital Universitário de Zawiya, a 120 quilômetros de Jadu, havia sido transformado em quartel-general das forças de Kadafi, que destruíram seu centro cirúrgico antes de partirem, no fim da semana.

O Centro Médico de Trípoli (CMT) e o Centro de Traumatologia de Abu Salim, os dois principais hospitais da capital líbia, só recebiam feridos que apoiam as forças do ditador.

Feridos suspeitos de serem combatentes eram mortos ou presos, contou o clínico-geral Essam al-Hares, que trabalha no CMT e deixou Trípoli em fevereiro, quando começou o levante. "Eu apoiei a revolução e passei a ser procurado pelo regime", disse o médico.

Hares foi trabalhar em Jadu, sua cidade natal, que caiu nas mãos dos rebeldes logo no início do levante, há seis meses. Reduto da etnia berbere maziq, Jadu sempre foi opositora e reprimida por Kadafi.

De acordo com Hares, cerca de 70 feridos foram levados para o hospital de Jadu desde o domingo, além de seis mortos que eram da cidade. Muitas vítimas ainda estão largadas nas ruas de Trípoli ou foram levadas por familiares para suas cidades de origem.

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