Stringer/Reuters
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Bandeira negra do Estado Islâmico é ‘usurpação’ de um dos símbolos do Islã

Ela teria aparecido pela primeira vez em janeiro de 2007 no Iraque, com o objetivo de ‘agrupar os fiéis’

O Estado de S.Paulo

19 Julho 2016 | 12h43

PARIS - Ela tem o impacto de um estandarte pirata: a bandeira negra do grupo Estado Islâmico (EI), marcada com o selo do profeta, se impôs como o símbolo da jihad mundial. Uma bandeira como esta, fabricada artesanalmente, foi encontrada entre os pertences do afegão de 17 anos que agrediu com um machado e uma faca os passageiros de um trem na Alemanha.

A chamada "bandeira da águia" é uma das marcas do EI e ajudou, enquanto símbolo, a suplantar a Al-Qaeda no imaginário extremista.

A bandeira, que desempenha um papel de primeiro plano na propaganda do grupo, teria aparecido em janeiro de 2007 no Iraque, com a difusão pela Al-Faj (órgão de propaganda da Al-Qaeda), em nome do "Estado Islâmico do Iraque". Segundo o comunicado da época, o objetivo era "agrupar os fiéis sob uma única bandeira para unificá-los".

Existem outras bandeiras islamitas, mas esta se expandiu em diferentes zonas onde os combatentes avançam, como Líbia, Somália, Iêmen e Síria.

Rebelião. Apenas os hadizes (Ditos do Profeta, que relatam palavras, fatos e gestos atribuídos a Maomé), e não o Alcorão, mencionam a bandeira do profeta, de cor branca, negra e amarela. A bandeira negra é citada por várias profecias que evocam o fim dos tempos e o retorno de Mahdi (enviado de Alá).

O hadiz mais frequentemente citado é: "Do Khorasan (Afeganistão) emergem as bandeiras negras que ninguém pode deter". Outros mencionam "o estandarte negro do profeta" e seu "pendão branco", explica um arqueólogo sírio refugiado na França.

Segundo os hadizes, Maomé combateu em diferentes momentos usando bandeiras negras ou brancas. Isso explica que os salafistas e jihadistas atuais usam as duas cores (os taleban afegãos têm uma bandeira branca).

"A bandeira negra era o estandarte do Profeta no campo de batalha e era exibida também por muitos de seus companheiros, entre eles seu sobrinho, Ali ibn Abu Talib", explica Asiem El Difraoui, autor do livro Al-Qaïda par l'image (Al-Qaeda através da imagem).

"Essa bandeira recuperou um papel proeminente durante o século VIII, quando foi usada pelo chefe da rebelião dos abássidas, Abu Muslim, contra o califado dos Omíadas", acrescenta Difraoui. "Desde essa época, a imagem da bandeira negra é usada como símbolo da revolta religiosa e do combate, ou seja, da jihad", indica.

"Esse estandarte negro é portador de uma dimensão quase mística, como sinal da guerra, o anúncio do fim dos tempos, do apocalipse, do combate final entre os fiéis e as forças do mal", segundo o especialista.

"A cor negra é evidentemente o emblema da revolta (...), o símbolo é bastante claro", concorda o especialista em Islã francês Constant Hames. "Há também uma referência aos primeiros tempos do Islã, época com a qual se identificam especialmente os jihadistas e os salafistas", afirma ainda.

Mensagem. O texto em branco sobre o fundo negro no alto da bandeira é o início da shahada ("Não há outro deus que Alá"), profissão de fé dos muçulmanos e primeiro pilar do Islã, recorda Hames.

No centro, o selo do profeta (ou o que pretende ser) em forma de círculo. Três palavras estão escritas com uma grafia rudimentar: Alá (Deus), Rasul (profeta) e Maomé, que devem ser lidas de baixo para cima.

O selo é o mesmo encontrado em cartas dirigidas "aos reis da Terra" e atribuídas a Maomé, mas cuja autenticidade é questionada. Elas se dirigem aos reis da Etiópia, Pérsia, Bizâncio e Egito para que abracem o Islã.

A "bandeira da águia" é alvo de debates sobre sua conformidade com os cânones islâmicos. Há quem denuncie uma justaposição pouco ortodoxa, que questionaria a unidade do divino. Os mais virulentos criticam uma bandeira "panfleto" exibida por "falsificadores" e "burros".

Mas, fora esse debate religioso, o que impacta hoje é a força dessa bandeira, verdadeiro sucesso de propaganda. "O Estado Islâmico conseguiu sequestrar e apropriar-se de um símbolo que pertence ao Islã em geral", constata Difraoui.

"É uma usurpação total. Isso é o mais grave. Criaram um logotipo de uma força imensa e o banalizaram completamente, em detrimento da imensa maioria dos muçulmanos do mundo", conclui. /AFP

Veja abaixo: Estado Islâmico reivindica ataque em Nice

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