Bandeira tricolor vira símbolo dos rebeldes

BENGHAZI

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2011 | 00h00

Foi na tarde de 18 de fevereiro que ela reapareceu. No momento em que as manifestações por reformas ganhavam a feição de levante armado, os benghazis precisavam de um símbolo. Foi isso que passou a representar a bandeira da independência de 1951, banida e substituída pela verde de Muamar Kadafi.

Ninguém sabe exatamente de quem foi a ideia, que instantaneamente se tornou de todos. Várias confecções e costureiros, assim como pessoas comuns, começaram a fazer as bandeiras, que se espalharam pelo país.

Hoje, ela está nos uniformes dos guardas mirins de trânsito, nas telas de celulares e de computadores, em broches, carros, casas e trincheiras do deserto. Até os milicianos dos Lejan Thowria, os comitês revolucionários leais a Kadafi, a adotaram, só que trocando a posição das faixas verde e preta, como código para se identificarem entre si, quando despertaram de suas células adormecidas, durante a invasão de Benghazi, dia 19.

Ao assumir o poder após o golpe militar que destronou o rei Idris Sanussi, em 1969, Kadafi eliminou os símbolos da monarquia. Destruiu o mausoléu do herói da independência, Omar al-Mokhtar, em Benghazi, exumou seu corpo e o transferiu para Soluk, onde ele foi enforcado pelos colonizadores italianos em 1931. Também mudou o calendário, renomeando os meses e passando a contar os anos a partir da morte de Maomé, e não mais da sua fuga de Meca para Medina, para diminuir a importância da Arábia Saudita, sua rival regional. E criou uma nova bandeira, totalmente verde.

A cor tornou-se uma obsessão - por lei, todas as portas de lojas da Líbia têm de ser verdes. A nova bandeira também virou objeto do ódio de opositores, que a usam para limpar solas de sapatos, cortam em tiras com facas e queimam, em atos de catarse.

As cores da velha bandeira simbolizam sentimentos da época da independência, plenamente aplicáveis a esta "revolução": o vermelho representa o sangue dos mártires; o preto, o luto pela sua morte; o verde, a esperança de dias melhores. O crescente, no centro, é o símbolo do Islã. "Não é a bandeira do rei Idris", diz Mustafa Gheriani, de 54 anos, porta-voz do Conselho Provisório Líbio. "É a bandeira da Líbia. Crescemos vendo-a como a nossa bandeira."

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