Bangladesh ainda espera punição para traidores

Manifestações na Praça Shahbagh têm o espírito de 1971

É PROFESSOR, ATIVISTA, EX-PRISIONEIRO POLÍTICO, SHAHIDUL, ALAM, LOS ANGELES TIMES, É PROFESSOR, ATIVISTA, EX-PRISIONEIRO POLÍTICO, SHAHIDUL, ALAM, LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2013 | 02h08

No mês passado, dezenas de milhares de cidadãos de Bangladesh lotaram a Praça Shahbagh para exigir justiça diante dos crimes cometidos em 1971 quando o país se tornou independente do Paquistão.

Pessoas comuns formaram uma multidão, manifestando sua ira, mas também alegria. Crianças usavam suas roupas favoritas, sentadas nos ombros dos pais que gritavam slogans que elas não compreendiam. As mulheres puderam participar da manifestação de modo seguro, sem o assédio que muitas vezes ocorre quando há uma grande aglomeração de homens enfurecidos.

O ano de 1971 foi transcendental para Bangladesh. Quando o subcontinente indiano foi dividido em 1947, nos foi negado o direito de autogoverno. Em março de 1971 o Exército paquistanês, apoiado pela China e pelos Estados Unidos, iniciou uma repressão sangrenta de 75 milhões de bengalis. Milhões de pessoas se refugiaram na Índia.

Milícias afiliadas do partido islâmico Jammat-e-Islami colaboraram com o Exército paquistanês. Atuavam como informantes, saíam à caça das pessoas e participaram de estupros, assassinatos e tortura de cidadãos. E mataram centenas de intelectuais a sangue frio.

Quando Bangladesh conseguiu sua independência, com ajuda da Índia, o novo governo prometeu punir os "razakars", ou colaboradores.

Todos nós sabíamos quem eram. Mas a realpolitik numa jovem nação cercada por vizinhos poderosos inevitavelmente leva a compromissos. O líder fundador de Bangladesh, xeque Mujibur Rahman, criou tribunais especiais para julgar os colaboradores. Milhares de ações foram impetradas, mas a cruzada pela justiça foi arruinada no final 1973, quando o xeque declarou uma anistia geral para aqueles colaboradores cujo julgamento ainda não havia sido iniciado. Dois anos depois, ele foi assassinado e começou uma série de golpes militares.

A Constituição original de Bangladesh tinha quatro princípios básicos: nacionalismo, democracia, socialismo e secularismo. Os ditadores militares substituíram esses princípios pela "fé absoluta no Todo Poderoso Alá como base de todas as ações", em 1977, e outra mudança foi feita em 1988, o que levou uma nação antes secular a ser redefinida como islâmica. Lei marcial, anistia e acordos políticos permitiram àqueles colaboradores ficarem livres e o Jamaat-e-Islami aos poucos se integrou na política do país.

Somente em 2010 um tribunal decidiu enfim investigar os crimes de guerra de 1971. E o seu primeiro veredito foi proferido no mês passado, condenando um ex-membro do Jamaat, Abdul Kalam Azad, à morte. Numa segunda decisão, em cinco de fevereiro, condenou o atual líder do Jamaat, Abdul Quader Mollah à prisão perpétua - sentença que os manifestantes consideram muito indulgente. Eles suspeitam que sentença de perpétua seja parte de um acordo secreto que a atual primeira ministra, xeque Hasina Wazed (irmã do fundador do país assassinado) firmou com líderes islâmicos par se manter no poder.

O Jamaat pertence a uma coalizão de oposição liderada pelo Partido Nacional de Bangladesh. Há temor generalizado de que, se um novo governo assumir o poder nas próximas eleições parlamentares, perdoará Mollah, Azad e outros membros do Jamaat ainda à espera de julgamento, o que deixará colaboradores de 1971 novamente em liberdade.

O atual governo estabeleceu um precedente perigoso: desde 2009 a primeira ministra perdoou cerca de 20 condenados à morte, incluindo criminosos responsáveis por assassinatos.

Muitos dos jovens manifestantes reunidos na Shahbagh nunca viveram num país sob ocupação nem vivenciaram o terror dos ataques surpresa no meio da noite ou o temor do estupro, da tortura, do assassinato gratuito. Mas estão furiosos com a duplicidade do governo.

Anos de governo cleptocrático, nepotismo, corrupção e abuso de poder corroeram a confiança no governo. As pessoas sentem que o sistema está tão corrompido que as mudanças possivelmente não virão a partir de eleições. Por isso centenas de milhares de bengalis se reuniram no mês passado num movimento espontâneo que rapidamente se difundiu pelo país.

Em 15 de fevereiro Ahmed Rajib Haider, blogueiro e um dos organizadores dos protestos, foi assassinado. Sua garganta foi cortada, seu corpo mutilado - marca registrada da ala estudantil do Jamaat. A manifestação era de cólera e dor, mas a praça não explodiu num frenesi de vingança. Havia aqueles que achavam que estávamos sendo ingênuos, que olho por olho era a resposta. Mas uma parte da multidão era mais moderada.

Desde então a violência cresceu. Na quinta-feira os manifestantes na praça se alegraram quando o tribunal anunciou a sentença de morte para um outro líder do Jamaat, Delawar Hossain Sayedee. O Jamaat revidou violentamente, provocando choques sangrentos em todo o país.

Mas os protestos são mais do que uma demanda por sentenças de morte. Eles são também um clamor democrático e uma tentativa de um país para tirar o poder de líderes que colocaram os benefícios pessoais à frente do interesse nacional. Os protestos representam o espírito de 1971. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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