Aamir Qureshi / AFP
Aamir Qureshi / AFP

Banqueiros lucram com restituição lenta de fortunas de ditadores

Apesar da devolução, dinheiro continua rendendo dividendos aos principais bancos da Suíça

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 05h00

GENEBRA - Críticos alertam que o processo de recuperação de dinheiro na Suíça leva anos e a devolução envolve apenas uma fração da fortuna desviada. “Há um progresso no sequestro do dinheiro. Mas não é suficiente”, afirma um dos personagens mais emblemáticos da história do combate à lavagem de dinheiro na Suíça, o sociólogo e ex-deputado Jean Ziegler. Ele é autor do best seller mundial A Suíça Lava Mais Branco.

Segundo ele, a chancelaria de Berna de fato adotou uma nova postura. “Eles estavam muito incomodados com a imagem negativa que esses escândalos criavam. Era uma questão para a reputação do país. O problema é que existe ainda uma enorme resistência do sistema financeiro suíço, que continua a sabotar os esforços”, revela Ziegler, que acaba de publicar sua nova obra Le capitalisme expliqué à ma petite-fille (“O capitalismo explicado para a minha neta”, em tradução livre). 

“Esses ditadores, pelo volume de dinheiro, são clientes ideais que proporcionam comissões enormes aos bancos”, explicou. “Mesmo depois de o dinheiro ser sequestrado, os bancos continuam a cobrar a comissão de gestão e, portanto, têm todo o interesse que uma devolução leve o máximo de tempo possível”, criticou. 

Na semana passada, numa coletiva de imprensa, o presidente da poderosa Associação Suíça de Banqueiros, Herbert Scheidt, garantiu que as instituições financeiras do país estavam entrando em uma era de transparência. “Nenhum estrangeiro pode esconder seu dinheiro num banco suíço”, declarou de forma solene. 

Ziegler não tem tanta certeza de que essa seja a realidade. Segundo ele, mesmo com todo o dinheiro bloqueado, milhões ainda conseguem escapar do controle graças a “buracos negros” no sistema, cada vez mais usados por políticos corruptos e com a ajuda dos gestores de fortunas. “Empresas de fachada se proliferaram e esquemas complicados são montados em diversos países e centros offshore para dissimular quem é o verdadeiro dono de uma fortuna”, alertou. 

Em sua avaliação, as revelações apresentadas pelo Panama Papers, a partir de 2016, confirmam que o sistema financeiro internacional ainda permite a existência de brechas para que esses ditadores encontrem santuários para seu dinheiro. 

A lista de pessoas identificadas nos documentos incluía o ex-primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, membros da família real saudita, oito dirigentes da cúpula do Partido Comunista chinês ou a família do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev

Dois anos depois, o presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, estima que ainda existam US$ 826 milhões em centros offshore a serem recuperados de líderes do governo anterior. “As autoridades que monitoram o sistema financeiro precisam entender que o sistema está falido”, disse Delia Ferreira Rubio, da ONG Transparência Internacional. 

Ao Estado, uma alta autoridade da Tunísia, porém, diz que os suíços não tem feito o suficiente. Em 2016, eles repassaram meros US$ 250 mil aos cofres do país africano. No ano passado, foram mais 3,5 milhões de euros.

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