Bar em Olinda veta americanos e ingleses

A indignação com o ataque dos Estados Unidos ao Iraque levou o dono do bar Farândola, em Olinda, Rodolfo Vasconcellos, a tomar uma atitude radical. Ele decidiu impedir a entrada de norte-americanos e também de ingleses no bar, que tem como característica a promoção da música e dos ritmos regionais e brasileiros.Ontem à noite, Vasconcelos teve a primeira experiência concreta decorrente da iniciativa, implantada dois dias antes e que é explicada em um longo texto que ele colou no cardápio. Ele terminou cedendo e permitiu a permanência do músico norte-americano Andrew, um dos convidados do ator e animador cultural Sérgio Gusmão, que comemorou seu aniversário com uma festa no bar. Mas não pretende ceder de novo e por isso, será mais explícito. Nesta semana, pretende colocar uma faixa na porta dizendo "guerra é guerra, não atendemos nem norte-americanos nem ingleses".Acusado pelos próprios amigos de estar adotando uma atitude tão "fundamentalista e xiita" quanto o presidente norte-americano George W. Bush e o ditador iraquiano Saddam Hussein, Rodolfo Vasconcellos não se intimida. "Quero ser radical, quero que eles sintam na terra dos outros como os árabes e os iraquianos são tratados por eles", explicou. "O brasileiro já se sente rejeitado ao tentar um visto para ir aos Estados Unidos, é bom que eles saibam o que é não ser bem-vindo". Ele prefere não fazer distinção entre os norte-americanos que são contra ou a favor da política de Bush. "Como vou saber? E é difícil acreditar no americano".Com uma forte dose de revolta - nutrida há algumas décadas - contra o imperialismo norte-americano, Rodolfo constrangeu, mas também se sentiu constrangido ao ser rude com Andrew. Ele já estava de mão estendida para dar as boas-vindas ao rapaz quando Gusmão disse que ele era norte-americano. Rodolfo Vasconcellos retirou a mão imediatamente e disse que tremeu de emoção, de raiva. "Não tenho nada contra ele e depois vieram me dizer que ele era pacifista, que é totalmente contra a guerra", contou. "Deixei que ele ficasse mas não quero mais passar por esse tipo de coisa, por isso é melhor nem conversar, só deixar claro que aqui eles não têm vez".Natural de Chicago, 27 anos, Andrew (ele pediu para não publicar o sobrenome) se encontra no Recife há quase dois meses, estudando percussão. Mal com a situação, ele disse respeitar o dono do bar e lamentou que o presidente norte-americano - que não teve o seu voto - esteja criando mais ódio contra os Estados Unidos e contra seu povo. Emocionado, várias vezes ficou com lágrimas nos olhos ao comentar a situação, mas frisou que Vasconcellos não deveria esquecer que cada pessoa é irmão um do outro, independente de onde tenha nascido. "Falta diálogo com Bush, que não escuta ninguém, e falta diálogo com o dono do bar", observou. No final da tarde de ontem ele iria engrossar um protesto contra a guerra, com o grupo Corpos Percussivos, no bairro do Recife Antigo.Para Andrew, ao invés de rejeitar o povo que nada tem a ver com a política de Bush, Vasconcellos deveria boicotar os produtos americanos, como a coca-cola. "É no bolso que eles sentem o efeito". O dono do bar discorda. "Cada um tem que decidir se quer ou não boicotar", disse. "Não posso impor isso à clientela, mas como o bar é meu posso escolher quem eu recebo ou não". Veja o especial :

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