'Barack Obama quebrou paradigmas', afirma biógrafo

Em livro, jornalista diz que impacto da eleição do primeiro presidente [br]negro dos EUA é 'psicológico'

Talita Eredia, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

Para David Remnick, editor da revista The New Yorker e ganhador do Prêmio Pulitzer, a eleição de Barack Obama, primeiro presidente negro dos EUA, ultrapassa o aspecto racial e deve-se basicamente aos movimentos de direitos civis no país. É sob esse prisma que o jornalista conta a trajetória do presidente na biografia A Ponte - Vida e Ascensão de Barack Obama (R$ 65, editora Companhia das Letras), lançado este mês no Brasil.

Em entrevista ao Estado, por telefone, Remnick afirmou que o maior impacto da eleição de Obama na história dos direitos humanos nos EUA é principalmente psicológico. "Para um jovem negro, o conceito do que ele pode conquistar muda quando ele vê que um afro-americano chegou à presidência. O limite do que é impossível para ele fica cada vez menor. Acredito que o mesmo aconteceria se uma mulher chegasse à presidência, como aconteceu no Brasil. Essa quebra de paradigma é vista quase como um milagre e influencia a personalidade dos cidadãos."

A biografia, a mais completa lançada até agora sobre Obama, relaciona a trágica marcha em Selma, no Alabama, pelo direito do voto negro em 1965, com o momento em que Obama lançou a sua candidatura presidencial na cidade, em 2007. No livro, Remnick concorda com a afirmação do ativista John Lewis: "Obama é o que há no final daquela ponte em Selma." O livro também mostra como Obama seduziu o eleitorado negro. Remnick diz que o presidente usou de extrema cautela ao tratar do componente racial. "Os EUA evoluem, mas, por vezes, essa evolução é penosa", disse o presidente em entrevista ao autor. Na obra, os assessores de Obama comentam ainda que ele não teria sido eleito sem uma recessão econômica e duas guerras. Para Remnick, no entanto, a visão do eleitorado americano mudou desde a campanha presidencial até agora.

"Em 2008, a euforia era a eleição de um presidente negro, por razões óbvias: as questões raciais americanas, a escravidão, a guerra civil. A eleição de Obama causou uma grande comoção no país, até mesmo para as pessoas que não compartilham das posições política dele", afirmou Remnick. "Uma vez eleito, a euforia desapareceu e os tempos difíceis retornaram. O resultado é uma erosão natural de sua popularidade."

Apesar da queda de aprovação e da recente derrota nas eleições legislativas de novembro, Remnick acredita que Obama tem grandes chances de ser reeleito em 2012. "Se, nos próximos dois anos, a economia se estabilizar e a guerra no Afeganistão não piorar, as chances de vitória são muito altas. E as chances de Obama sobre Sarah Palin são três vezes maiores", disse, em referência a uma das líderes do Partido Republicano.

QUEM É

DAVID REMNICK

BIÓGRAFO DO PRESIDENTE BARACK OBAMA

É editor da revista "The New Yorker" desde 1998 e ganhador do Prêmio Pulitzer, em 1994, pelo livro "Lenin"s Tomb" (O Túmulo de Lenin), obra sobre o fim da União Soviética. Foi repórter do jornal "The Washington Post" entre 1982 e 1991. No jornal, ainda trabalhou como correspondente em Moscou. Também é autor da biografia de Muhammad Ali, "O Rei do Mundo".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.