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Barbie, o sonho de consumo bolivariano

Não é fácil tocar a revolução socialista no século 21. Que o diga Nicolás Maduro, o presidente venezuelano que há 20 meses enfrenta consumidores em pé de guerra, manifestações de rua e uma batalha desigual contra o capitalismo internacional.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2014 | 02h02

Na semana passada, o venezuelano fez o que faria qualquer general sitiado: rendeu-se ao inimigo. No caso, uma loura longilínea, de olhos azuis e 28 centímetros de altura. Sim, a boneca Barbie, o brinquedo consagrado da cultura americana, é a arma mais nova na luta para conquistar corações e mentes na revolução bolivariana.

Com o chavismo de crista baixa e o governo Maduro desaprovado por sete em cada dez venezuelanos, o Palácio de Miraflores resolveu apelar. Mandou importar contêineres da boneca americana e repassou-as ao comércio a preços de mãe para filha. Assim, a boneca padrão Barbie, que em outubro valia US$ 200, hoje é comercializada por US$ 2,50.

O brinquedo é a peça de resistência da operação Feliz Natal, um saco oficial de bondades, recheado de surpresas importadas, subsidiadas pelo milagre dos petrodólares. Ou melhor: numa economia esvaziada pela falta de dólares e pelo desastrado congelamento de preços, pode haver escassez de fralda, leite, remédio contra hipertensão e dos ingredientes da ceia natalina, mas não da charmosa boneca americana, com quem até a mais humilde menina venezuelana agora pode sonhar.

Distribuir bombons aos bestializados é a demagogia clássica dos líderes populistas. No ano passado, o governo Maduro até antecipou o Natal para que os trabalhadores recebessem adiantado o décimo terceiro salário.

Rendição. No entanto, convocar a Barbie foi uma ousadia. O comandante Hugo Chávez ergueu seu socialismo do século 21 num palanque anticapitalista. Um de seus alvos constantes era o consumismo fetichista, um sintoma, insistia ele, da inexorável decadência americana.

Chávez reservou veneno especial para desclassificar a obsessão venezuelana pela beleza, fixação que turbinava a indústria da cirurgia cosmética e levava meninas de apenas 15 anos a fazer dos seios "airbags". Tudo para que encarnassem a boneca Barbie e os demais "personagens do consumismo imposto pelo Ocidente".

Mordido pela teimosia da loirinha da Mattel, em 2007, Chávez dedicou boa parte de seu programa dominical de rádio Alô Presidente a denunciar a barbárie da Barbie, exortando os compatriotas a criar uma versão indígena da boneca.

E agora, comandante? O dom de Chávez sempre foi seu talento de vender os sacrifícios impostos pela economia disfuncional como um amanhã de fartura. Ao seu herdeiro, deixou o legado de todos os problemas da desgovernada revolução, mas nada de seu brilho retórico para encantar a turba e nenhuma malandragem maquiavélica para conter as ambições da predatória "boligarquia".

Madurou ficou mesmo com uma pauta de exotismos, como cobrar de passageiros internacionais um imposto sobre o "ar fresco" e instalar sensores biométricas nos supermercados para racionar a venda da escassa comida. Agora é a sua vez de engolir o orgulho bolivariano para resgatar o Natal venezuelano com um presente de pinta e pose do império gringo.

A preços absurdamente subsidiados, pode ser que dure pouco a alegria da Barbie para todos. No entanto, em algum lugar, há uma empreendedora menina venezuelana, de calculadora na mão e um olho no mercado negro.

*É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW' E  COLUNISTA DO 'ESTADO'

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