Elio Desiderio / EFE
Elio Desiderio / EFE

Barco com imigrantes desafia governo italiano e atraca na ilha italiana de Lampedusa

Embarcação Alex entrou no porto da ilha, onde policiais o aguardavam, mas todas as pessoas permaneceram a bordo; na Alemanha, mais de 30 mil pessoas marcham em solidariedade à capitã alemã Carola Rackete

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2019 | 15h38

ROMA - Um barco com 41 imigrantes resgatados chegou neste sábado, 6, à ilha italiana de Lampedusa, o que pode abrir um novo conflito entre as ONGs que salvam vidas no Mediterrâneo e o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, de extrema direita, que lhes nega acesso aos portos.

O barco Alex, com bandeira italiana, entrou no porto de Lampedusa, onde policiais o aguardavam, mas todas as pessoas permaneceram a bordo.

Depois de dois dias bloqueados no mar e "levando em conta as condições de higiene deploráveis a bordo, o Alex decretou estado de emergência e navegou rumo a Lampedusa, único porto seguro para desembarcar", disse no Twitter o coletivo de esquerda italiano Mediterranea, que fretou o veleiro.

Além do Alex, outro barco com imigrantes, o Alan Kurdi, da ONG alemã Sea-Eye, mantinha-se neste sábado nas águas internacionais de Lampedusa com 65 migrantes resgatados no litoral da Líbia.

Ao anunciar sua intenção de desembarcar os imigrantes na ilha siciliana de Lampedusa, o confronto entre as ONGs e Salvini corre o risco de se agravar. O ministro italiano anunciou em junho um decreto segundo o qual podem ser multados com até € 50 mil o capitão, o operador ou o proprietário de um barco que "entre em águas territoriais italianas sem autorização".

"Estamos aguardando em águas internacionais, na costa da Ilha de Lampedusa", afirmou no Twitter a Sea-Eye de dentro do navio Alan Kurdi. "A alfândega veio nos entregar o decreto de Salvini: o porto está fechado."

O ministro alemão do Interior, Horst Seehofer, tuitou que seu país está disposto a acolher alguns dos imigrantes resgatados, "como parte da solução europeia baseada na solidariedade".

A Sea-Eye indicou em um comunicado que os 64 homens e a mulher a bordo do Alan Kurdi foram resgatados de um bote inflável em que os imigrantes careciam de água potável, telefones e instrumentos de navegação.

Malta havia aceitado anteriormente receber os imigrantes a bordo do Alex. A organização Mediterrânea recebeu favoravelmente a ideia de desembarcar os imigrantes naquela ilha, mas advertiu que seu barco não estava em condições de percorrer as 100 milhas náuticas que o separam de La Valeta.

Alessandra Sciurba, do Mediterranea, disse que a Itália aceitou famílias e gestantes, mas que "permanecem a bordo menores desacompanhados, incluindo uma criança de 11 anos".

Popularidade de Salvini

A organização Mediterranea reúne militantes de extrema esquerda, os quais se declaram abertamente inimigos de Salvini, cuja popularidade disparou na Itália graças a sua posição dura contra os barcos de ONGs que socorrem imigrantes.

Uma pesquisa publicada neste sábado pelo jornal italiano Corriere della Sera revela que 59% dos italianos aprovam a decisão de Salvini de fechar os portos a embarcações de ONGs.

Na semana passada, quando estava no comando do Sea-Watch, a capitã alemã Carola Rackete foi detida após atracar sem autorização em Lampedusa para desembarcar 40 imigrantes resgatados no mar que estavam bloqueados a bordo há mais de duas semanas. 

Uma juíza italiana invalidou a prisão de Carola, decisão que desencadeou duras críticas de Salvini. Ainda assim, duas investigações diferentes - por resistência a um oficial e por auxílio à imigração clandestina - continuam em curso contra ela.

Multidão na Alemanha marcha a favor de Carola

Mais de 30 mil pessoas se manifestaram em várias cidades da Alemanha neste sábado em solidariedade à capitã do Sea-Watch, assim como para reivindicar ajuda para os imigrantes resgatados pelas ONGs no Mediterrâneo, informaram os organizadores das marchas.

Cerca de oito mil teriam participado do ato em Berlim e outras quatro mil em Hamburgo, relatou o coletivo Seebrücke. Marchas e outras concentrações pacíficas foram realizadas em pelo menos 100 cidades alemães.

"O resgate no mar não conhece fronteiras, assim como nossa solidariedade", disse Carola Rackete em mensagem enviada aos manifestantes em Berlim. "A irresponsabilidade dos Estados europeus me obrigou a agir como agi", acrescentou a jovem alemã, que está na Itália.

A multidão de ativistas reivindicou também que Berlim assuma os imigrantes atualmente a bordo das embarcações Alex e Alan Kurdi. Com coletes salva-vidas, os manifestantes em Berlim denunciaram a criminalização do resgate em alto-mar e criticaram particularmente o ministro Salvini.

Desconhecida até ser detida, Carola Rackete diz ter se sentido abandonada pelos governos europeus durante sua jornada com os imigrantes resgatados. "Meu sentimento, que é o mesmo em nível nacional e internacional, é que ninguém quer realmente ajudar", declarou ela à revista semanal alemã Der Spiegel. / AFP

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