AFP PHOTO / Angelos Tzortzinis
AFP PHOTO / Angelos Tzortzinis

Barco de extremistas caça ilegais no Mediterrâneo

Navio com ativistas anti-imigração patrulha litoral da Líbia para impedir que imigrantes pisem em território europeu e tenham direito a pedir refúgio

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2017 | 05h00

O C-Star, barco com ativistas anti-imigração, está navegando pelo Mediterrâneo para impedir que botes infláveis e embarcações vindas da Líbia levem imigrantes para a Europa. A iniciativa é de grupos de extrema direita de França, Itália e Alemanha. O objetivo é escoltar as embarcações de volta para a África. No entanto, segundo o direito internacional, a ação é ilegal. 

A embarcação navega sob bandeira da Mongólia e foi lançado ao mar em julho pelo grupo de extrema direita Geração Identitária. Os recursos foram em parte obtidos por uma campanha de crowdfunding, que arrecadou € 76 mil antes de ser bloqueada a pedido de internautas. Na semana passada, o navio foi retido no Canal de Suez, no Egito, e no Chipre, antes de ser liberado para seguir viagem. 

O barco de 40 metros de comprimento foi avistado ao largo da costa da Tunísia no fim de semana, navegando pelo Mediterrâneo com faixas de protestos nas suas laterais com os dizeres “Parem o tráfico de seres humanos” e “Vocês não farão da Europa suas casas”. As mensagens reiteram o objetivo de impedir o desembarque de imigrantes no continente. Uma vez em terra firme, os estrangeiros só serão expulsos após exame dos pedidos de refúgio. 

A ideia do grupo é obrigar as autoridades a adotar na Europa a política da Austrália, que expulsa de suas águas todos os barcos de imigrantes que se dirigem a seu território. “Essa política permitiu ao governo australiano, em muito pouco tempo, reduzir o número de mortes no mar a zero, quando perto de 1,2 mil pessoas haviam morrido nos anos anteriores.”

O grupo também acusa ONGs como a SOS Mediterrâneo e Médicos Sem Fronteiras (MSF), que realizam missões de salvamento, de incitarem os estrangeiros a embarcarem para a Europa na perspectiva de serem socorridos em alto-mar. Cada vez que a tripulação do C-Star localizar imigrantes em barcos funcionais ou à deriva, entrará em contato com a Guarda Costeira da Líbia para que eles sejam resgatados e retornem à África. O grupo garante que acompanhará os botes até que o resgate aconteça, para que não haja mortes. Mas, uma vez que os imigrantes sejam retirados do mar, seus botes serão afundados para não serem mais usados.

Várias ONGs reagiram indignadas à presença do C-Star no Mediterrâneo, porque o barco violaria o direito internacional ao obrigar um bote em águas internacionais a retornar para a África. A organização Avaaz, na Itália, bloqueou no sábado o porto de Catânia ao navio da Geração Identitária com a mensagem “Fechado aos racistas”. 

A ação das ONGs no Mediterrâneo tornou-se alvo também de autoridades da Itália, que no final de julho acusaram a ONG alemã Jugend Rettet de estar em contato com traficantes líbios que cobram dos imigrantes pela travessia marítima. A acusação abriu uma discussão em torno de um código de conduta a ser criado pela União Europeia para as ONGs que atuam no bloco.

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