Stefani Reynolds / AFP
Stefani Reynolds / AFP

Bares dos EUA boicotam vodca e rebatizam 'Moscou Mule' de 'Kiev Mule' em apoio à Ucrânia na guerra

Muitos bartenders estão jogando fora suas garrafas do famoso destilado russo e alguns governadores pedem que a bebida seja retirada das prateleiras das lojas

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 19h01

WASHINGTON - A coquetelaria entrou na guerra na Ucrânia e bares americanos decidiram boicotar a vodca e trocar o clássico drink Moscou Mule para Kiev Mule. A ideia ganhou o apoio de donos de bares em todo o país nos últimos dias e ecoa a decisão de alguns restaurantes do país de rebatizar a batata frita (que nos EUA se chamam 'fritas francesas', em tradução literal) de "fritas da liberdade" durante a invasão do Iraque, em 2003, para criticar a oposição francesa à derrubada de Saddam Hussein.

Muitos bartenders estão jogando fora suas garrafas do famoso destilado russo. Alguns governadores pedem que a bebida seja retirada  das prateleiras das lojas. E os proprietários de bares estão mudando os nomes de seus coquetéis para deixar claro de que lado estão: em muitos lugares, o Moscow Mule, clássico drinque criado em 1939 usando vodca, agora é o Kev Mule. Pelo menos um bar mudou de nome e virou o Snake Island Mule, uma referência ao território ucraniano onde os guardas de fronteira fizeram uma última resistência desafiadora contra as tropas invasoras.

Drinks rebatizados

Sam Silvio, co-proprietário do Em Chamas Brazilian Grill em Kansas City, deu uma olhada em seu cardápio no último final de semana, enquanto a invasão russa estava em andamento. Ele tinha visto uma reportagem sobre uma taverna local tirando vodcas russas de seu bar e achou que deveria fazer alguma coisa também. A ideia de servir qualquer coisa que promova a Rússia não lhe caiu bem.

“Eu me sentiria, não sei se ‘insincero’ é a palavra. Eu realmente não sei como colocar”, disse Silvio. “Eu só acho que qualquer pequena coisa que cada um de nós pode fazer pode resultar em algo grande.”

E assim o Moscow Mule se tornou o Snake Island Mule (com uma linha riscando “Moscou” para dar ênfase), e a Caipiroska foi rebatizada de Ilha do Caipi. Ele está trabalhando para encontrar uma instituição de caridade para a qual possa doar parte dos lucros, diz ele.

"Black Ucranian e Kiev Mule"

A mais de 1.600 quilômetros de distância, em Bethesda, Maryland, Ronnie Heckman estava tendo pensamentos semelhantes. No Caddies on Cordell, seu bar esportivo com tema de golfe, ele trocou o Moscow Mule por um Kiev Mule, e os coquetéis White Russian e Black Russian para o White ucraniano e o Black ucraniano. Ele está identificando instituições de caridade legítimas para ajudar a apoiar o povo ucraniano, com US$ 1,50 de cada bebida, além de uma doação correspondente de seus fornecedores de bebidas.

Heckman, cuja família de mãe é judia ucraniana, diz que a mudança é uma pequena maneira de ajudar o esforço coletivo de chamar a atenção das pessoas para a situação do povo ucraniano. “Se eu puder conscientizar e lançar luz sobre a maldade e os atos sem sentido, eu o farei”, diz ele. “É como votar – se eu fizer isso, não é grande coisa, mas se milhões de pessoas o fizerem, isso terá um impacto.”

Especialistas observam que é improvável que o boicote à bebida fabricada na Rússia tenha um impacto econômico no país (no ano passado, a vodka russa representou apenas 1,3% das importações de vodka, de acordo com o Conselho de Bebidas Destiladas dos Estados Unidos). E a onda de renomear bebidas (que a maioria dos bartenders sabe que nem são de origem russa) obviamente não vão ganhar uma guerra.

"Tivemos algumas pessoas reclamando, ‘Ah, como isso vai ajudar?’”, diz Heckman. "Mas isso é mesquinho."

O simbolismo, particularmente quando se trata de comida e bebida – formas-chave de expressarmos nossas identidades – pode ser poderoso.

As fritas da liberdade

Brian Walsh, sócio da PLUS Communications, com sede em Washington, sabe disso. Isso não é apenas um conselho que ele deu aos clientes de sua empresa de relações públicas, é algo que ele viu em primeira mão em 2003, quando era o porta-voz do comitê administrativo da Câmara que supervisionava os refeitórios. Walsh foi quem imprimiu a placa que dizia: “***Atualização*** agora servindo… ‘FREEDOM FRIES’”

“A coisa toda levou cerca de 30 minutos”, lembra Walsh sobre o planejamento e a execução da campanha, motivada pela oposição da França à invasão do Iraque liderada pelos EUA (em inglês, Batas fritas são French Fries). A placa – cuja imagem acabou nas primeiras páginas dos principais jornais do mundo e – foi feita no Word, e a moldura emprestada da parede do escritório de seu chefe.

Embora tenha sido ridicularizado por muitos, o pequeno gesto teve grande impacto. “Isso galvanizou um segmento da sociedade”, disse Walsh, chamando a atenção para o que alguns líderes pensavam ser um ponto sério. “'Onde estão os franceses e por que eles não estão nos ajudando?'”

A comida muitas vezes se tornou um ponto de inflamação – para o bem e para o mal – em momentos de guerra ou conflito global. Nos Estados Unidos, restaurantes chineses se tornaram alvos de vandalismo à medida que o coronavírus se espalhava. E durante o bloqueio de Wuhan, na China, onde o vírus se originou, alguns procuraram promover a solidariedade com seu povo, celebrando seu macarrão quente e seco.

Comida ucraniana na moda

E as pessoas costumam frequentar restaurantes de propriedade de imigrantes para mostrar solidariedade. Esta semana, as filas se arrastaram em Nova York no restaurante ucraniano Veselka, que está vendendo uma edição especial dos famosos biscoitos preto e branco de Nova York nas cores da bandeira ucraniana.

Mas tanto Silvio quanto Heckman dizem que os nomes devem inspirar unidade, não alimentar divisão. E muitos lugares que fazem as mudanças são rápidos em notar que evitar os apelidos russos não significa uma repreensão ao povo russo e sua cultura.

Ainda assim, Silvio se pergunta se os nomes vão ficar. Afinal, muitos nomes de coquetéis evoluíram ao longo dos anos. Tudo o que ele sabe é que em seu cardápio, o Moscow Mule não retornará pelo menos até que haja uma mudança na liderança russa.“Enquanto eles estiverem fazendo o que estão fazendo”, diz ele, “continuaremos fazendo o que estamos fazendo”.

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