BBC
BBC

Barrada na fronteira, haitiana agora quer entrar no Brasil com visto

'Sempre gostei do Brasil e ouvi dizer que lá está melhor para trabalhar', disse Linia Pierre Louis

BBC,

29 de fevereiro de 2012 | 19h39

PORTO PRÍNCIPE - Disposta a se mudar para o Brasil, a haitiana Linia Pierre Louis, de 31 anos, lançou-se em novembro na maior aventura que enfrentara até então.

 

Veja também:

linkHaiti se tornou laboratório para o Brasil, diz embaixador

linkBrasil reduz tropas no Haiti e muda o foco da missão

Ao pegar um avião em Porto Príncipe, capital haitiana, rumo à República Dominicana, iniciou uma viagem que ainda a levaria a outros quatro países, mas que seria interrompida a poucos metros de chegar ao quinto e último do roteiro, o Brasil.

Em Santo Domingo, capital da República Dominicana, Linia entrou em outro avião rumo ao Panamá, de onde decolou em seguida para Quito.

Na capital equatoriana, na companhia de outros oito haitianos que desconhecia, partiu para uma longa e extenuante viagem por terra, de ônibus: primeiro rumo à Colômbia, depois até o Peru. Após dois dias, finalmente alcançou a cidade peruana de Iñapari, na fronteira com o Acre. "A viagem foi muito cansativa, meus ossos doíam", ela conta à BBC Brasil.

No momento em que o grupo foi atravessar a pé a divisa, porém, policiais brasileiros o barraram. Ela diz que eles lhe explicaram que, por não portarem passaporte, não conseguiriam entrar em hipótese alguma.

 

'Tão perto'

O grupo então se dividiu: enquanto alguns resolveram permanecer em Iñapari para tentar ingressar no dia seguinte, Linia iniciou com outros dois a longa viagem de volta até Quito, de onde pegou o avião para Porto Príncipe.

"Fiquei triste, estava tão perto do Brasil, mas o que poderia fazer? Sabíamos que existiam riscos."

Felizmente, ela tinha como pagar o deslocamento: carregava alguns milhares de dólares na bolsa, resultado de vários anos de economia e que planejava usar para se instalar em São Paulo, seu destino final, onde pretendia trabalhar como cabeleireira.

Em todo o percurso, de ida e volta, diz ter gasto cerca de US$ 3 mil, dos quais quase dois terços em passagens áreas.

O restante bancou as passagens de ônibus, hospedagem e alimentação. Linia afirma que viajou por conta própria e que não teve de recorrer a "coiotes", indivíduos que cobram para levar imigrantes sem vistos até a fronteira brasileira.

De volta a Porto Príncipe, não desistiu de seu objetivo: em fevereiro, visitou a embaixada brasileira para se informar sobre como entrar no Brasil legalmente.

 

Documentação

Informada pela atendente sobre a possibilidade de obter um visto permanente, graças a resolução recente do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) que autorizou a concessão de cem permissões mensais a haitianos que queiram morar no Brasil, se animou.

Agora diz que correrá atrás da documentação necessária para obter o visto: passaporte, comprovante de residência no Haiti e atestado de bons antecedentes.

Só com o visto em mãos avaliará como regressar ao Brasil: se a combinação avião-ônibus se provar mais barata que ingressar no país de avião, diz que repetirá o trajeto.

Mas por que migrar para o Brasil e não para outros países que acolhem haitianos há mais tempo, como os Estados Unidos ou a República Dominicana?

"Sempre gostei do Brasil e ouvi dizer que lá está melhor para trabalhar. Mas se não der certo, vou para outro país."

 
Tudo o que sabemos sobre:
HaitiimigraçãoBrasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.