Pedro PARDO / AFP
Pedro PARDO / AFP

Barrados nos EUA, centro-americanos miram Europa

Pressão de Trump, dificuldade maior para cruzar o México e um gasto até 5 vezes menor leva muitos imigrantes a cruzar o Atlântico em avião

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 05h00

BRUXELAS - Para María Marroquín, a vida em El Salvador tornou-se intolerável. Membros de gangues que extorquem dinheiro mataram comerciantes no mercado onde ela trabalhava. Ela teme pela vida de seu filho de 27 anos, David, depois que uma prima fora sequestrada e jamais encontrada. Chegou a pensar em ir para os EUA, mas encontrou razões para cruzar o Atlântico. 

No ano passado, voou para a Europa, em vez de se juntar às dezenas de milhares de pessoas que vão para o norte na esperança de chegar aos EUA e encontrar refúgio lá. “Ir para os EUA seria uma loucura agora”, disse, citando a pressão anti-imigração do governo Donald Trump.  O número dos que buscam abrigo na Europa aumentou quase 4.000% na última década, segundo dados oficiais, e a taxa de chegadas está se acelerando. Quase 7.800 pessoas pediram refúgio na Europa no ano passado, em comparação com 4.835 em 2017.

A distância pode ser maior, mas muitos descobriram que a viagem para a Europa é mais segura e muito mais barata do que pagar contrabandistas para cruzar o México rumo aos EUA.

Marroquín tem outro filho na Bélgica. Ele preencheu a papelada para permitir que ela, juntamente com seu marido, sua filha e David, entrassem como turistas. Quando ela economizou dinheiro suficiente, reservou um voo para Bruxelas. Alguns dias depois de chegar, eles solicitaram refúgio.

Suyapa Portillo, professora associada do Pitzer College, que estudou migração na América Central, disse que as restrições para entrar na Europa são menores, pois não é necessário visto de entrada.

A Espanha é a primeira escolha para muitos centro-americanos por causa do idioma, das redes já estabelecidas de amigos e parentes e oportunidades para trabalhar na economia informal. 

Outro atrativo é a percepção de que as autoridades europeias são mais tolerantes, particularmente depois de considerarem os perigos e as despesas envolvidos em uma viagem aos EUA. Para aqueles que viajam fora de caravanas de migrantes, esse custo pode alcançar até US$ 10 mil.

Alejandro Hernández, um salvadorenho de 25 anos, que pediu refúgio na Espanha, disse que atravessar o México teria sido um mau investimento. “Cada um dos meus parentes pagou US$ 8 mil a contrabandistas e alguns tentaram quatro vezes chegar aos EUA e fracassaram.”

Ele também citou outros desafios da jornada: fadiga, sede e fome; o crime organizado do México; e o que ele considera como políticas mais rígidas de imigração e refúgio sob Trump.

A jornada de Hernández para a Europa custou US$ 2 mil: o preço de uma passagem de avião para a Espanha e uma reserva de hotel para mostrar às autoridades que ele estava lá como turista. Ele pediu abrigo em março de 2018, mas pode levar anos até que ele receba uma resposta do governo espanhol. Enquanto isso, trabalha em fazendas de porcos perto de Barcelona. Estima-se que 8 mil casos de pedidos de refúgio de centro-americanos estejam pendentes na Espanha.

A Agência de Refugiados e Asilo da Espanha disse que a maioria dos pedidos de refúgio dos centro-americanos tem como base a ameaça de violência de gangues. Mas a Espanha raramente reconhece essa alegação para conceder refúgio. Uma porta-voz do gabinete de refúgio e asilo afirmou que muitas alegações de perseguição não justificam a proteção internacional.  A Bélgica provou ser um destino cada vez mais atraente. É agora o terceiro país europeu mais popular para os salvadorenhos que buscam refúgio, depois da Espanha e da Itália. A diferença ainda é grande – no ano passado, 2.311 salvadorenhos solicitaram refúgio à Espanha, enquanto 288 foram para a Bélgica, que reconhece a violência das gangues como uma razão para conceder refúgio. O país aprovou 80 casos pedidos no primeiro trimestre do ano.

“Temos um sistema sólido: damos o status e a proteção para aqueles que precisam, independentemente de outros fatores, mesmo que saibamos que isso possa atrair mais migrantes”, disse Van den Bulck, comissário da Bélgica para refugiados e apátridas belga. 

As autoridades belgas deram status de refugiado a 281 dos 288 salvadorenhos cujos casos foram processados no ano passado.

Esperança

A maioria dos centro-americanos que se dirigem para a Europa, no entanto, não solicitam a proteção de refúgio, em vez de ultrapassar seus vistos de turista - geralmente na Espanha ou na Itália. Não há números oficiais sobre quantos imigraram dessa maneira, mas algumas estimativas dizem que o número é muito maior do que os que se candidatam por meios oficiais.

As autoridades acompanham atentamente os pedidos de asilo, uma vez que o aumento de pedidos de uma região pode atrasar os pedidos de outras.

"Por enquanto, a América Central não é uma região de preocupação especial, mas o número crescente de solicitantes de refúgio da região foi sinalizado”, disse Anis Cassar, porta-voz do Gabinete Europeu de Apoio ao Asilo, uma agência da União Europeia. “Está no radar.”

Em um centro de refugiados no centro da Bélgica, quatro membros da família Marroquín dividem um quarto. Eles têm acesso a uma cafeteria e banheiro. María Marroquín disse que o maior desafio é o tédio, mas ela acredita que as famílias são bem tratadas. Para se distrair, ela disse, muitas vezes vai para a casa do outro filho em Enghien nas proximidades, para cozinhar pratos tradicionais salvadorenhos, usando os sacos de farinha de milho e arroz que ela trouxe em suas malas.

María Marroquín disse que a maior parte do restante de sua família morava nos Estados Unidos, mas manifestou satisfação com a decisão de vir para a Bélgica, acrescentando que sentia que seu filho David estava em segurança agora. Ela disse esperar que os outros sigam o mesmo caminho.“Há mais pessoas vindo para cá”, disse ela. / NYT, TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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