Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

Barreira cria geração que só vê um lado

ONU alerta para risco de recrutamento de jovens palestinos por terroristas

Jamil Chade, enviado especial / Cisjordânia, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2017 | 05h00

CISJORDÂNIA - Na cidade de Burqin, no norte da Cisjordânia, garotos que acabam de sair da sala de aula brincam com uma bola pela rua que desce até o local onde supostamente Jesus curou leprosos. Questionado, um dos meninos, numa bicicleta e com a camisa da seleção brasileira, disse que não conhece Israel. Também não conhece crianças israelenses. 

Com 13 anos, Fawzi nasceu depois que as barreiras para os palestinos começaram a ser erguidas. Assim como ele, dezenas de outras crianças de seu colégio jamais viram uma criança israelense. Construído há mais de uma década, o muro que separa cidades palestinas e israelenses reduziu de forma importante o número de ataques vindos da Cisjordânia. Mas criou novas divisões na sociedade e fez surgir uma geração inteira que não conhece ninguém do outro lado. 

Na cidade de Sebastia, no norte da Cisjordânia, o vice-prefeito, Mohamad Sad, não esconde o temor de que a falta de emprego, o muro e a desilusão entre os jovens fortaleça grupos extremistas. Uma das formas de lutar contra isso, segundo ele, é reduzir a idade para que um jovem possa se candidatar para o conselho local ou se envolver em política. “Assim, os colocamos como responsáveis antes que possam se radicalizar”, defendeu. 

Na ONU, o risco de radicalização e recrutamento de jovens palestinos pelo Estado Islâmico já passou a ser considerado como um dos cenários mais preocupantes. “Quando eu olho para a região, tenho a sensação do risco de uma radicalização de jovens cada vez mais desesperados”, disse Pierre Krähenbühl, representante da ONU para a questão dos refugiados palestinos desde 2014. 

Parte da geração que nasceu e cresceu em assentamentos israelenses na Cisjordânia se transformou em um assunto recorrente em razão de atos de violência. Conhecidos como “a juventude dos morros”, esses grupos são criticados até mesmo por religiosos israelenses. “As pesquisas mostram que essa juventude se identifica mais com a extrema direita que seus pais”, explicou ao Estado o acadêmico Shay Rabineau, um dos diretores do Centro de Estudos de Israel da Universidade Binghamton. 

Do lado palestino, a geração mais velha lembra que, na região, era comum garotos pegarem bicicletas e simplesmente cruzar a fronteira para áreas israelenses. “O contato era permanente com crianças israelenses”, contou um dos moradores da região de Jenin, que pediu para não ser identificado. 

Nas proximidades de Jericó, mães palestinas que vivem em campo de refugiados tentam manter a identidade das famílias, ensinando às crianças que seu local de origem não é aquela estrutura da ONU, mas cidades que elas jamais conheceram e, com o muro, estão mais distantes. “Havia um ditado que dizia que quando os avós morressem, os netos se esqueceriam da luta e de nosso direito ao retorno. Mas estamos aqui para provar que não é o caso”, afirmou Jamilla Al-Thair, líder de uma cooperativa de mulheres no campo de refugiados de Aqbat Jabr. Ela nasceu já no local, assim como seus filhos e netos.

Desalento. Para aqueles que vivem à sombra do muro, a realidade política tem sido minada pelo desespero econômico. Em Belém, por exemplo, a rua principal foi transformada depois que o muro foi erguido. Em um dos lados, um parque para crianças foi abandonado e passou a estar menos de cinco metros de um canhão de água usado contra manifestantes ou qualquer um que se aproxime do concreto.

A sombra do muro se projeta sobre um cemitério palestino. O chão é um retrato de choques quase semanais entre os soldados israelenses e a população palestina. Não é raro encontrar entre os túmulos fragmentos de bombas de gás, assim como bolas de gude lançadas pelos garotos do campo de refugiado de Aida, com 5 mil habitantes e o compromisso entre sua população de ser a “linha de frente” na oposição ao muro. 

Numa das escolas, as janelas do segundo andar que dão vista ao muro foram fechadas com tijolos para impedir que as crianças pudessem ver o que ocorria do outro lado da barreira. Aleen Masoud, estudante de música de Belém, viu o outro lado pela primeira vez só depois que um novo hotel foi aberto na região e ela subiu ao segundo andar. “Só tem um parque com oliveiras. Não sabia que era assim”, disse.

Avner Goren, ex-arqueólogo-chefe de Israel no Sinai e um dos acadêmicos mais respeitados do país em sua área, alerta para as consequências da divisão. “Não temos um número suficiente de israelenses aprendendo árabe e um número cada vez mais baixo de palestinos aprende hebraico”, disse. Goren lidera um movimento para conseguir que os dois lados cooperem para tratar de saneamento e proteger canais de água que saem do lado israelense e percorrem a Cisjordânia.

A escritora Claire Hajaj, autora do livro As Laranjas de Ishmael, também teme que a barreira tenha um impacto tão profundo que inviabilize futuros processos de paz. “O muro é uma tragédia diante de nós, não apenas para palestinos, mas também para israelenses”, disse. Filha de uma judia e de um palestino de Jaffa, a escritora acredita que o muro “distancia a ideia de uma paz, não apenas em termos práticos, mas também psicológicos”.

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