Jamil Chade, Estadão
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Barreira húngara em rota para Europa faz milhares viverem no lixo na Sérvia

Isolamento de 3,5 metros de altura erguido por húngaros nos 175 quilômetros da fronteira sérvia bloqueia fluxo de refugiados da Ásia e do Oriente Médio, levando 8 mil imigrantes a enfrentar temperaturas negativas

Jamil Chade, enviado especial, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2017 | 05h00

BELGRADO - Jamshid Shadab diz ter sido traído duas vezes na vida. A primeira, quando foi abandonado pelos soldados americanos no Afeganistão, depois de trabalhar com eles por sete anos como tradutor e em razão disso ser considerado inimigo pelo Taleban. A segunda foi descobrir que, mesmo correndo risco de vida, não seria aceito na Europa. Uma cerca tinha sido erguida em uma das principais passagens para refugiados. Ele havia percorrido 7,5 mil quilômetros.

O afegão saiu de Cabul, atravessou o Irã, a Turquia e chegou à Bulgária. Dali, depois de ser preso, conseguiu cruzar a fronteira para a Sérvia, na esperança de entrar na União Europeia a partir da Hungria. Mas, desde 2016, milhares de estrangeiros estão bloqueados às portas da UE. O governo de Budapeste ordenou o fechamento das fronteiras, construiu um “muro” de mais de 175 quilômetros na fronteira com a Sérvia – são 520 quilômetros se contada a separação da Croácia. Só se permite a entrada de cinco pessoas a dez pessoas por dia. Como resultado, milhares de refugiados e imigrantes que usariam o caminho e as estradas húngaras para chegar a Alemanha, Suécia ou França foram colocados num limbo. 

A partir deste domingo, 12, o Estado vai contar o cotidiano dos que ficaram do outro lado da barreira, as consequências políticas, sociais e pessoais de um bloqueio considerado uma afronta por ativistas, mas justificado pelos governos como necessidade de proteção contra terroristas. Cerca de 8 mil imigrantes estão parados na Sérvia. “Não podemos voltar para nossas casas, não podemos avançar e não nos querem aqui”, disse Shadab, que sonha em terminar a viagem em Paris. Seu purgatório é onde vive: armazéns e barracos abandonados em Belgrado, amontoado ao lado de outros estrangeiros e de muito lixo. Convive diariamente com ratos, fumaça tóxica, doenças e uma tensão que já levou mais de uma pessoa a perder a razão. 

Ironicamente, numa das paredes dos armazéns um dos refugiados deu um nome ao local: “Foyer Europa”, ou “Residência Europa”. A situação contrasta com a realidade social europeia. Dados da Comissão Europeia indicam que apenas 2,5% dos europeus têm problemas com saneamento e, em países como Alemanha e Holanda, os casos chegam a zero. Pelo menos 87% dos europeus vivem protegidos do frio em suas casas, enquanto 85% não são afetados diretamente pela poluição. 

Na “Residência Europa”, a realidade é bem distante. Não há aquecimento e, em temperaturas negativas (a previsão é de -3°C a 3°C para Belgrado neste domingo), a ação de voluntários sérvios garante a vida dos que estão nos barracões. Uma vez por semana, um grupo de estudantes entrega madeira para os estrangeiros. Cada um recebe a mesma quantidade e, rapidamente, a estoca em armários abandonados. 

“Cada um guarda essa madeira como tesouro”, conta Shadab. É ela que garante o calor mínimo para sobreviver e a possibilidade de cozinhar. Mas, com mais de mil pessoas dentro das barracas, o impacto é uma fumaça permanente. “À noite, só se escuta tosse aqui”, contou. 

A higiene pessoal também é um desafio. Existe apenas uma bica de água, abastecida pelo Rio Danúbio, a poucos metros dali. A fila para encher garrafas é constante. Com pedaços de potes retirados do lixo, cada um cria seu banheiro, transformando partes de um vidro quebrado em espelho e aquela água não potável em ducha fria. O afegão insiste que fazer a barba é parte do esforço para “continuar parecendo humano”. 

Cobertores sujos são usados como tapumes para que cada um vá ao “banheiro” usando buracos nas imediações. Com o decorrer dos meses, esses buracos lotaram.

A cama de Shadab é uma antiga balança, usada no armazém já desativado durante o período em que Belgrado era a capital da Iugoslávia. “Nunca durmo sozinho”, brinca o afegão. “Sempre tem uma pulga comigo.” 

O frio fica ainda mais insuportável com as dezenas de buracos no teto. A porta sem trinco também é alvo de preocupação. Não são raras as brigas à noite, quando alguns dos imigrantes retornam a suas “residências” indignados. Ninguém se atreve a fechar o local, temendo ser queimado vivo nos frequentes casos de cobertores que se incendeiam. 

Mais de 1,2 mil pessoas aguardam nesses barracões, segundo estimativas da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). A mesma organização colocou à disposição chuveiros, uma clínica e mesmo máquinas de lavar roupa em outro local da cidade, para atender aos estrangeiros. Mas ela sabe que o que oferece não é uma solução, nem é suficiente para atender a todos. 

Enquanto uma resposta política na Europa não é encontrada, os sinais de resistência estão espalhados pelos muros, com frases, alertas e apelos desesperados. “Por favor, nos ajudem”, diz uma delas. “Abram as fronteiras”, pode-se ler em outro muro. Em meio ao lixo, lê-se na porta de outra barraca: “Eu só quero voltar para casa.” Para muitos, esse é um sonho impossível. “Ninguém deixa sua casa, salvo se sua casa é a boca do tubarão”, diz outra mensagem. 

Ao Estado, o governo sérvio informou que abriu acampamentos com todos os serviços sanitários para esses refugiados. Quando a “rota dos Balcãs” foi fechada oficialmente, em março de 2016, existiam 2 mil refugiados e imigrantes na Sérvia. Menos de um ano depois, o numero quadruplicou. O país, que tinha 5 centros de atendimento, teve de abrir outros 12. 

Shadab explica sua recusa de ir aos centros oficiais: “Temos medo de ser deportados.” Existe ainda outra explicação para ficar no lixão. Aqueles que estão nas barracas esperam um sinal verde de seus “coiotes” para entrar de forma irregular na Hungria e tal “fuga” é mais fácil fora dos locais oficiais. 

Risco. O afegão diz que o caos na fronteira da UE não o deterá. Alega que não teve a oportunidade de explicar a uma autoridade europeia sua situação, depois que deixou sua família em Cabul. “Fui tradutor para os militares americanos por sete anos em meu país”, contou. “Mas quando Obama reduziu as tropas americanas no Afeganistão, muitos saíram e me deixaram lá. O Taleban prometeu matar todos os que colaboraram com os EUA e eu apelei para que fosse resgatado. Mas me traíram.”

Rota. No trajeto entre Cabul e a Europa, Shadab conta que a parte mais dramática foi percorrer o Irã no porta-malas de um carro com outras quatro pessoas. “Por sete horas não podíamos nos mover ou falar”, disse. 

Ao chegar à Bulgária, foi levado pelos coiotes para cruzar o país por uma floresta. Ele e seus colegas foram pegos. Ficaram três meses em uma prisão. Shadab diz que conseguiu escapar com auxílio de contrabandistas. Uma vez mais, foi impedido de entrar na Europa, desta vez, na Sérvia.

Shadab levou à noite a reportagem até uma praça próxima aos barracões. Ali, outros quatro afegãos preparavam-se para acompanhar um contrabandista que prometia levá-los até a Hungria. Enrolados em cobertores, não sabiam se chegariam, nem se conseguiriam voltar. O ex-tradutor do Exército americano despediu-se dos amigos e desejou sorte. Era a quarta vez que o grupo tentava cruzar a fronteira. Ao perceber que Shadab estava acompanhado de um jornalista, um deles fez um apelo, visivelmente inconformado. Diga ao mundo que somos pessoas também”, apontando para uma das mensagens na parede da “Residência Europa”.

Shadab conta que, depois de pagar US$ 5 mil para fazer o trajeto entre Cabul e Belgrado, não será agora que ele vai desistir. Mesmo depois de três meses na “Residência Europa”, ele guarda dentro de seu sapato o restante do dinheiro que tem para pagar os US$ 2,5 mil que os contrabandistas exigem para ajudá-lo a entrar na Europa. “Nem eu nem ninguém aqui vamos desistir”, disse. “O que ninguém parece entender é que não temos mais para onde voltar.” 

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Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL / BELGRADO, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 05h00

BELGRADO - Mesmo questionado pela Justiça dos EUA, o veto do presidente Donald Trump a cidadãos de sete países de maioria muçulmana inspira novas restrições nas leis de imigração pela Europa e amplia entre os imigrantes e refugiados o ódio contra os Estados Unidos. 

Nesta semana, o governo húngaro de Viktor Orban anunciou que introduzirá novas leis contra estrangeiros, com a possibilidade de que imigrantes ilegais sejam trancafiados em abrigos por tempo indeterminado, sem autorização para sair nem de dia. A medida vale mesmo para pessoas que tenham saído de países em guerra, o que seria uma violação das regras internacionais. 

Nas últimas semanas, os húngaros reduziram de forma constante o número de pessoas que aceitam por dia para que tenham seus casos examinados pelas autoridades. Enquanto milhares aguardam para entrar na Europa, a Hungria aceita apenas cinco casos por dia, com a possibilidade de que rejeite todos. 

Em Budapeste, diplomatas confirmaram ao Estado que a decisão de apresentar a nova proposta pretende aproveitar da tendência estabelecida por Trump. Para o porta-voz do governo húngaro, Zoltan Kovacs, “a mudança de percepção dos EUA ajudou a avançar suas próprias ideias”.

Em janeiro, Orban festejou em discurso a chegada do americano ao poder. “A era do multilateralismo acabou”, disse. Em uma ligação telefônica, Trump convidou o húngaro para uma visita oficial. Budapeste acredita que toda a Europa começa a adotar políticas parecidas com as que Orban vinha sugerindo desde 2015. “O que foi denunciado como insano agora faz parte da agenda”, disse Kovacs.

A “agenda” da qual ele fala é a da reunião de cúpula do bloco em Malta, na semana passada, quando líderes debateram a possibilidade de criar campos de refugiados e de imigrantes no Norte da África. Ainda não existe uma decisão e, entre ativistas de direitos humanos, muitos acusam a Europa de não dar sequer a possibilidade para que refugiados apresentem seus casos. 

“A ideia é mandá-los para um lugar seguro, sem trazê-los para a Europa”, explicou o ministro do Interior da Alemanha, Thomas de Maizière. A partir desses centros, apenas aqueles que possam ser considerados refugiados seguiriam para a Europa. 

Alguns atentados terroristas na Europa foram cometidos por terroristas que usaram o caminho dos refugiados para entrar no continente. Por isso, serviços de inteligência do bloco passaram a alertar governos sobre o risco de manter essas rotas abertas. Outra constatação é que grupos populistas passaram a manipular a questão migratória, mostrando como os atentados seriam um “resultado” dessa política de portas abertas. Na França e em outros países, grupos de extrema direita ganham força com esse discurso. “O fluxo migratório e a incapacidade de dar uma resposta desestabilizaram a Europa”, diz Michel Saint-Lot, representante da Unicef em Belgrado. 

Recompensa. A questão da segurança não pode impedir que um refugiado legítimo se apresente em uma fronteira para ter seu caso avaliado. Informalmente, os campos de acolhimento na Sérvia já são um esforço europeu para manter os estrangeiros fora do bloco. Stephane Moissaing, chefe da missão da ONG Médicos Sem Fronteiras na Sérvia, relata como a barganha entre Bruxelas e Belgrado envolve até números reais de pessoas que estão do outro lado da cerca, barradas pela Hungria. 

“A UE queria que a Sérvia recebesse 12 mil pessoas. Mas Belgrado aceitou apenas 6 mil”, disse Moissaing. “Os centros de acolhimento estão lotados e o número real de migrantes e refugiados chega a 8 mil”, disse o francês. Sua entidade criou uma estrutura para cuidar daqueles que estão fora dos centros oficiais, oferecendo banho, roupa e tratamento médico. 

De acordo com ele, a Sérvia precisa convencer Bruxelas de que o país é um “bom aluno” se quiser entrar na UE. Mas, ao mesmo tempo, autoridades locais não estão dispostas a dizer à população que o compromisso com 6 mil estrangeiros já foi elevado a 8 mil. Em abril, o país terá eleições gerais e, como nos EUA, a imigração será tema central. 

Entre os refugiados e imigrantes, o sentimento de incerteza é ainda mais aprofundado diante do exemplo estabelecido por Trump. “Ele (Trump) é um louco”, afirma Ibrahim, iraquiano de 54 anos num dos centros de acolhimento da Sérvia. Para ele, o dano à imagem já foi feito, mesmo que a Casa Branca desista das medidas. “Ele está dizendo a todos os americanos que somos terroristas, que países inteiros são terroristas. Só pode ser um louco. Estamos fugindo dos terroristas. Perdi tudo o que eu tinha por conta do Estado Islâmico. Como é que eu, agora, sou visto como terrorista?” 

Na cabeça dos refugiados e imigrantes, Trump está criando “inimigos” e “jogando muita gente para o radicalismo”. Três afegãos em Belgrado temem que seu país acabe sendo colocado na lista dos países vetados. “Não queremos ir para os EUA. Mas, se essa lista for colocada em operação, meu medo é que outros países também a adotem e ela vire um padrão”, disse Abdullah, ex-professor de geografia em Herat.

 

Questionados se a rota dos refugiados também era usada por terroristas, os estrangeiros admitem que sim. “Ninguém aqui tem documentos. Podem inventar o que quiserem. Claro que tem gente que não é refugiado. Mas o que fazemos com aqueles que são vítimas como eu?”, perguntou Abdullah.

 

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Imigrantes relatam extorsão e abuso policial nas fronteiras da Hungria

Jovem de 16 anos conta que teve pescoço cortado e parte do dedo arrancada ao tentar sair da Sérvia e cruzar cerca

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL / OBRENOVAC, SÉRVIA, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2017 | 05h00

Na nuca e no pescoço de Suleiman, os pontos de um corte profundo feito pelo arame farpado são visíveis. A ponta de seu dedo foi arrancada pela mordida de um cão policial. Seu celular, destruído. Os ferimentos sofridos pelo garoto afegão de 16 anos ocorreram na fronteira entre a Sérvia e a Hungria. Aquela era a terceira vez em que ele tentava entrar na Hungria e avançar em países europeus. Mais uma vez, a cerca construída pelos húngaros o havia parado e, desta vez, o obrigou a ir a um hospital local. 

No ano passado, depois de tomar a decisão de deixar de ser uma rota para refugiados, o governo da Hungria construiu uma cerca de arame farpado nas fronteiras com Sérvia e Croácia, trajeto de mais de 520 quilômetros. Budapeste insiste que a tática funcionou. O fluxo, que chegou a 10 mil pessoas por dia, caiu para apenas 10. 

Mas imigrantes, refugiados, entidades de direitos humanos e de ajuda humanitária alertam que a barreira foi acompanhada por um surto de violência e extorsão contra os estrangeiros. Além disso, há casos registrados de imigrantes que chegaram a fazer 27 tentativas de atravessar a cerca. 

Dados oficiais das Nações Unidas indicam que, desde dezembro, mais de 600 pessoas foram ilegalmente rejeitadas pelos húngaros, que os deportavam em grupo numa tentativa de deixar claro a imigrantes, refugiados e contrabandistas de que mesmo quem conseguir cruzar a fronteira terá sua estadia recusada. “Toda a deportação de refugiados é ilegal”, afirmou à reportagem o Alto-Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). 

Captura. O afegão Suleiman conta que, em duas ocasiões, conseguiu de fato atravessar o arame farpado. “Foi à noite, depois de horas andando pela floresta”, disse. Ele e outros estrangeiros eram conduzidos por guias que, com a ajuda de sérvios, encontravam caminhos inusitados para chegar até partes da barreira que estavam menos vigiadas. 

Mas, nas duas vezes, acabou sendo pego por policiais húngaros. “Aquelas pessoas não têm coração e nos tratavam como criminosos perigosos”, disse. “Quando já estávamos sob o controle deles, eles retiravam a focinheira dos cachorros e os soltavam sobre nós. Foi horrível”, disse. O garoto conta que aqueles que gritam são retirados do grupo, colocados de cócoras e alvo de dois cachorros ao mesmo tempo. 

Os relatos de Suleiman foram confirmados ao Estado por Unicef, Acnur e pela entidade Save the Children, que denunciam abusos por parte dos policiais. O governo húngaro jamais respondeu aos pedidos de esclarecimento da reportagem. 

Mas foi a terceira tentativa de Suleiman a que mais o abalou. “Fiquei preso no arame farpado, enquanto meu pescoço sangrava. As pessoas que estavam comigo fugiram e eu nunca mais os vi. Mas quando a polícia húngara me viu, no lugar de ajudar, voltaram a soltar os cachorros e um deles comeu a ponta de meu dedo”, disse. 

Se até aquele momento o garoto se recusava a ir a um dos centros de acolhida no lado sérvio da fronteira, os ferimentos o obrigaram a mudar de estratégia e, hoje, ele vive em Obrenovac, um vilarejo a cerca de 50 quilômetros de Belgrado. Limpo, o local era uma caserna para soldados sérvios, transformada em centro para refugiados. 

Ali, Suleiman recebe comida e está abrigado do frio, além de ter atendimento médico. Mas sabe que está distante de seus contatos com os traficantes que o levariam ao outro lado da fronteira. Seu nome já foi entregue às autoridades húngaras que avaliam pedidos de refúgio, mas não há projeção de quantos anos o exame dos dados de Suleiman poderia levar. 

Desespero. O garoto afegão não é o único a relatar incidentes de violência e a polícia não é a única inimiga. Quando o Estado visitou Obrenovac, na semana passada, um grupo de paquistaneses estava em choque. Um de seus amigos, Rahmat Ullah, morreu congelado em um rio ao tentar chegar à Hungria. Ele fazia parte de um grupo de 15 pessoas que estavam sendo levadas por contrabandistas que cobravam ¤ 2 mil por pessoa para fazer a travessia. 

Os sobreviventes contaram que os contrabandistas ordenaram que os imigrantes cruzassem um rio congelado em direção a Horgos, na Hungria. Ullah foi o primeiro, mas o gelo se rompeu e ele foi levado pela correnteza que circulava por baixo. “Ullah nos dizia que não sabia nadar e por isso não havia tomado a rota entre a Turquia e a Grécia”, contou um deles. 

Um engenheiro elétrico paquistanês, que pediu para não ser identificado, afirmou estar no mesmo grupo. Aquela era sua quinta vez tentando cruzar a fronteira, sem sucesso. Ele lembra de como, em uma das vezes que foi pego, teve seu celular quebrado e todo seu dinheiro tomado pelos policiais húngaros. “Eles me diziam: paquistanês é m... muçulmana, volte para o seu país.”

Extorsão. Para vários dos estrangeiros nos centros de acolhida na Sérvia, o drama não se limita ao gelo. Os traficantes que estavam com o grupo de Ullah fugiram com o dinheiro de todos, cerca de ¤ 30 mil. “Eles são sempre muito gentis quando estão tentando te convencer a cruzar a fronteira”, diz Suleiman sobre os traficantes. “Dizem que vão cuidar de você. Mas depois são verdadeiros animais, uma vez que você entrega o dinheiro”. 

Afsar, de 24 anos, é outro que conta com detalhes as extorsões que sofreu desde que saiu do Afeganistão. Hoje, ele está bloqueado no centro de atendimento aos estrangeiros de Krnjaca, local que nos anos 90 foi construído para receber servo-croatas na guerra que fez desmoronar a Iugoslávia. 

Afsar passou a fazer parte de uma lista negra do Taleban de jovens que haviam colaborado com a Otan. “Recebi a notícia de que iria morrer. Naquela mesma noite deixei minha família, levando todo o dinheiro que eu tinha”, disse. Na viagem, ele ainda vendeu suas alianças, além de outras pequenas joias que a família tinha acumulado. “Levei tudo o que meus pais tinham acumulado em suas vidas”, lamentou.

Mas sua primeira surpresa foi quando, já na Turquia, conseguiu um emprego em uma obra, na esperança de reunir o suficiente para pagar o que os traficantes exigiam para prosseguir viagem na Europa. “No primeiro mês, recebi apenas a metade do que havia sido combinado. Quando fui reclamar, o patrão alertou que me denunciaria para a polícia por estar de forma ilegal no país”, disse.

Ele acabou ficando quase um ano na Turquia para reunir o dinheiro necessário e tentar chegar à Alemanha. Quando chegou à Bulgária, no entanto, foi alvo de violência e extorsão por parte da polícia. “Pediam dinheiro para não nos levar para prisões. Eu paguei uns ¤ 100.” Ele também relata que serviços teoricamente gratuitos nos campos de acolhida acabam sendo cobrados por oportunistas. 

Dois anos depois de deixar Cabul no meio da noite, Afsar diz já ter tentado cruzar a fronteira da Europa em 27 ocasiões, todas frustradas por conta da cerca na Hungria, da violência, do frio, da extorsão e da mentira dos traficantes. “Eu vou continuar tentando. Aqui, no campo de refugiado (de Krnjaca), eu tenho uma cama. Mas não tenho futuro”, completou. 

 

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Sem os pais, refugiados mirins chegam à Europa

Crianças e adolescentes desacompanhados são 10% dos 7,7 mil imigrantes barrados pela cerca húngara que cortou uma das principais rotas para o Ocidente

Jamil Chade, Enviado Especial / Krnjaca, Sérvia , O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2017 | 05h00

O paquistanês Yasir Jarwar, de 16 anos, foi escolhido por seu pai para chegar à Europa e levar os irmãos mais novos. “Somos quatro irmãos. Quando eu chegar a Berlim, a primeira coisa que farei é começar a trazer todos os meus irmãos e, depois, meu pai e minha mãe. Pode levar alguns anos, mas vamos conseguir.”

 Yasir faz parte do grupo de 3,1 mil crianças ou adolescentes que estão na Sérvia em campos de refugiados, sob temperaturas de -3°C, porque uma cerca construída pela Hungria impediu seu ingresso na Europa. Deste grupo, mil têm menos de 6 anos e 747 – quase 10% do total de 7,7 mil imigrantes barrados na fronteira – viajam sem seus pais, como Yasir. O caminho por terra entre o Paquistão e a Síria tem mais de 7 mil quilômetros.

O Paquistão não faz parte da lista de países que a Europa considera seguros, o que significa que a chance de Yasir entrar é mínima. Ele conta que já foi barrado quatro vezes na fronteira da União Europeia (UE). O que muitas entidades e especialistas temem é que, fracassando, esses jovens possam se rebelar contra o Ocidente. 

No pátio do centro de acolhida da cidade sérvia de Krnjaca, os destinos de três garotos imigrantes se cruzaram. O também paquistanês Youssef (nome fictício), de 10 anos, viaja apenas com um primo de 14 anos rumo à Europa. Ele se tornou amigo de dois meninos afegãos. Alheios à rivalidade entre os dois países, que ainda disputam territórios em alguns trechos da fronteira, descobriram uma paixão em comum: o críquete. Voluntários locais contam que o trio acorda e dorme pensando em suas grandes jogadas. Tudo com material improvisado. 

Perto dali, outro grupo de crianças, formado por iraquianos, afegãos, paquistaneses e sírios, tem outra fixação: o futebol. Ao falar de seus ídolos, os nomes de Messi e Cristiano Ronaldo são gritados para chamar a atenção. Quando a algazarra termina, um deles se identifica: “Eu sou Luis Suárez”. Arranca a gargalhada dos demais meninos, numa cena que poderia ser de qualquer pátio de colégio. 

Muitas dessas crianças encontram nas demais o sentido para devolver algo de normalidade a suas vidas. “Garotos de nacionalidades diferentes, que supostamente se odeiam, brincam juntos e até cuidam um dos outros”, diz Tatjana Ristid, porta-voz da organização Save The Children. Segundo ela, o maior tormento dos refugiados é a solidão. Para garantir que o caminho será feito ao lado de outra pessoa, rapidamente eles fazem novos amigos. 

Estratégia. A incerteza sobre o destino de centenas de crianças e adolescentes é uma das consequências diretas da política da UE. De acordo com a Save The Children, dos cerca de cem imigrantes e refugiados que entram na Sérvia por dia, 30% são crianças ou adolescentes. Em dois meses, a organização estima que 1,6 mil pessoas foram barradas pela polícia da Croácia e da Hungria, e enviadas de volta para a Sérvia. 

“As crianças estão aqui em uma missão”, analisa o representante máximo do Unicef na Sérvia, Michel Saint-Lot. “Seus pais venderam tudo o que tinham e os colocaram no caminho da Europa para salvar a família”, explicou. “Agora, eles não podem entrar na Europa, não conseguem se integrar aqui e não podem voltar”, disse.

Com 14 anos, um garoto sírio que pediu para não se identificar recebeu a missão de levar seu irmão mais novo, de 11 anos, para que ambos pudessem receber status de refugiado na Europa. Após 13 meses viajando, sem saber se chegará ao destino, o menino demonstra o medo característico dos adolescentes no local. Eles não falam inglês, não sabem exatamente onde estão, nem qual será o próximo passo. Foram mandados pelos pais, que pagaram coiotes para guiá-los.

Risco. “A missão é de fato um peso muito grande para alguns desses garotos”, diz Tatjana Ristid, da Save The Children. Muitos têm pesadelos constantes e sofrem com crises de ansiedade. Fora dos centros oficiais de acolhida, relatos recebidos por ONGs ainda apontam para abusos sexuais e exploração. “Alguns casos chegam a ser registrados na polícia. Mas, quando uma investigação começa, tanto a vítima como o autor do suposto crime já partiram”, indica Michel Saint-Lot. 

Mesmo os que têm a sorte de estar com seus pais vivem um cenário que não condiz com sua idade. “Os adultos estão perdidos, em depressão e não conseguem cuidar de suas crianças”, afirma uma voluntária do Unicef, que acompanha um centro dedicado a menores no campo de refugiados. 

Enquanto a Sérvia era apenas um local de passagem para milhares de estrangeiros a caminho da Europa, a questão da educação nunca foi uma preocupação. Com centenas de famílias “presas” no país, cresce a pressão para que eles possam frequentar escolas. Um grupo de 45 deles já começou a frequentar um colégio. O governo sérvio tenta encontrar um modelo para replicar o sistema em outras regiões. Mas, segundo os dados da ONU, dos 17 centros de acolhida, apenas 7 têm serviços mínimos para crianças e adolescente. 

Heróis. Farhad Nori, de 9 anos, chamou a atenção dos funcionários do Unicef no campo de refugiados pelo talento por sua habilidade com o lápis. Farhad está com a família, mas não sabe se poderá seguir caminho pela Europa. Cansados após três anos de viagem, eles começam a buscar asilo em lugares fora da Europa. O Canadá é uma opção. 

Enquanto as escolas não funcionam, representantes da Save The Children usam técnicas para fortalecer a resistência das crianças ao ambiente hostil. Uma estratégia é pedir que as crianças reconstruam suas viagens. Com mapas, material escolar e criatividade, elas usam sua própria trajetória como terapia. A medida serve para que possam entender o que está ocorrendo. 

Outra tática da organização é mostrar super-heróis e falar das capacidades sobre-humanas de alguns deles. Ou exaltar a trajetória de grandes ídolos mundiais e seus pontos fortes. É justamente o que Farhad vem fazendo, retratar seus heróis. Ao folhear um caderno improvisado que ele guarda, uma voluntária do Unicef descobriu um retrato de Cristiano Ronaldo, ídolo máximo do garoto. Em outro papel, ele rabiscou o rosto de Angela Merkel. Questionado sobre o motivo pelo qual não terminou o desenho da chanceler alemã, Farhad explicou. “Ela abriu a fronteira e passou a ser uma das pessoas que eu amo. Mas depois ela fechou a fronteira e estamos parados aqui.”

 

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