AFP PHOTO / ATTILA KISBENEDEK
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Barreiras pela UE proliferam redes de tráficos, denuncia ONU

Entidade estima que mais de 332 mil pessoas chegaram já ao continente neste ano, um recorde

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2015 | 02h04

*Atualizado às 10h

 

GENEBRA - Com um número recorde de 332 mil pessoas cruzando o mar Mediterrâneo, a ONU denuncia o fato de que as barreiras criadas pelos governos europeus estão permitindo a proliferação das atividades de grupos criminosos que vendem a milhares de imigrantes a cada dia o sonho de chegar à UE. O resultado tem sido travessias cada vez mais arriscadas e um número inédito de mortes.

Se até agora os grupos criminosos atuavam apenas no mar, controlando rotas e colocando pessoas em embarcações, a ONU aponta que o tráfico chegou até as rodovias europeias. Um exemplo disso foi o caminhão encontrado nesta semana com 71 imigrantes mortes, numa estrada próxima à Viena. Nesta sexta-feira, quatro pessoas foram presas e operações contra redes de tráfico de pessoas foram registradas por diversas polícias.

Mas as investigações dos escritórios de direitos humanos das Nações Unidas indicam que esse não foi o primeiro caso. Nos últimos quinze dias, outro dois caminhões acabaram sofrendo acidentes, na mesma estrada, deixando dezenas de imigrantes feridos. 

Na Austria, o governo indicou que já prendeu mais de 278 pessoas desde o início do ano por participar de redes de traficantes que oferecem transportar os imigrantes. Na Hungria e outros países, tropas foram enviadas, inclusive com reforço de helicópteros, para tentar desmembrar esses grupos. No Reino Unido, mais de 20 imigrantes foram detidos ao serem descobertos dentro de um caminhão. 

Mas a ONU alerta que não será apenas a repressão sobre os grupos que resolverá a crise. Segundo a entidade, a proliferação de grupos criminosos coincide com o endurecimento das leis e barreiras pelo continente. "Os grupos estão expandindo suas ações do mar para as estradas da Europa", alertou Melissa Fleming, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados.

"São grupos que apenas pensam no lucro e a forma que encontraram é em oferecer esses serviços aos imigrantes que, de forma desesperada, aceitam tudo", disse. 

Um exemplo citado pela ONU é a fronteira entre a Sérvia e a Hungria. Com o muro erguido pelo governo de Budapeste, a constatação da entidade foi o surgimento de grupos de traficantes que passaram a atuar na região e pedir mil euros apenas para levar os refugiados ao outro lado da fronteira. Em média, cada traficante soma 10 mil euros por dia com o serviço. 

Na Hungria, porém, esses imigrantes são levados a centros de detenção em trens e, ali, são obrigados a se registrar. Na prática, isso significa que terão de pedir asilo em Budapeste, o que muitos vezes não coincide com os planos de sírios ou afegãos que esperam chegar até a Alemanha. 

Para escapar desse registro, pagam uma vez mais aos traficantes para que os levem até o próximo país da UE no mapa, a Austria. 

Na avaliação de Federico Sida, diretor da Organização Internacional d Migrações, as mortes aumentaram nas últimas semanas, provavelmente por conta de uma violência cada vez maior por parte dos traficantes. 

Segundo a ONU, nada disso seria necessário se os governos criassem alternativas legais para que os refugiados pudessem fazer seus pedidos de asilo. "Pedimos maior solidariedade", declarou o alto comissário da ONU para Refugiados, Antonio Guterres. 

O que as Nações Unidas insistem é no estabelecimento de programas para o reassentamento de refugiados em outras regiões do continente europeu, a ampliação dos vistos de trabalho e uma maior flexibilização para que membros de famílias possam se reunir com parentes.

Essas medidas, segundo a ONU, acabaria com o uso de traficantes por parte dos estrangeiros. Mas, por enquanto, os governos europeus tem permanecido em silêncio em relação a novas medidas. "O que vemos hoje é insuficiente para tratar do número de pessoas que chega", alertou Melissa. 

A França, por exemplo, concedeu apenas 5 mil lugares para refugiados desde janeiro. Na Sérvia, foram apenas cinco. Na Dinamarca, o governo concedeu 14 mil lugares. Mas promete interromper esse número.  

Recorde. Enquanto isso, o número de imigrantes não para de aumentar. Até ontem, 332 mil pessoas haviam cruzado o mar, faltando ainda quatro meses para o final de 2015. Cerca de 200 mil estrangeiros chegaram na costa da Grécia entre janeiro e agosto, contra mais de 110 mil na Itália.  Em todo o ano de 2014, 210 mil pessoas cruzaram o mar. 

Os dados também apontam que as mortes caminham para bater todos os recordes. Até quinta-feira, 2,5 mil pessoas já haviam perdido suas vidas nas embarcações. Para todo o ano de 2014, o número de mortes foi 3,5 mil. 

Nesta sexta-feira, a ONU confirmou que dois barcos levando centenas de pessoas da cidade líbia de Zuwara teriam afundado logo depois de partir em direção à Europa, com africanos, sírios e imigrantes de Bangladesh. No primeiro deles, 50 pessoas estavam à bordo. No segundo, mais de 400.

Cerca de cem deles foram levados a um hospital local, mas outros 108 corpos foram resgatados sem vida. "A ONU acredita que cerca de 200 pessoas possam ter morrido", declarou Melissa Fleming. Umas das vítimas seria um bebê de seis meses. 

O governo da Itália anunciou que prendeu dez pessoas suspeitas de estarem envolvidas em outro drama, na quarta-feira, e que fez 53 mortos na costa do país.

"Isso mostra que o movimento de barcos continua, apesar das operações de resgate da UE. A rota ainda está ativa e a forma em que essas pessoas estão colocadas nos barcos é que causa as mortes", completou Melissa.

Criticada por ongs e pela ONU, a UE convocou uma reunião de ministros de Interior para este fim de semana, com a esperança de pensar em novo sistema de asilo para a Europa. Para a chanceler Angela Merkel, a crise de migração é um desafio maior para a Europa que a turbulência grega e o pior fluxo desde a 2a Guerra Mundial. 

Merkel também indicou que os líderes europeus podem se reunir de forma emergencial caso as posições dos governos se aproximem. Mas a falta de lista comuns de países que poderiam ser tratados como prioridade e sem um acordo sobre como dividir o fluxo de refugiados, a UE não dá sinais de ter uma resposta rápida ao problema. 

O secretario-geral da ONU, Ban Ki Moon, convocou uma reunião de emergência para o final de setembro, lembrando que são os conflitos armados pelo mundo que geram esse fluxo de pessoa. "A guerra na Síria acaba de se manifestar num acostamento da Europa", disse, numa referência ao caminhão com 71 pessoas.

Mas, por enquanto, o que se vê é apenas uma série de prisões de traficantes isolados, medidas criticadas por especialistas como ineficientes. Na Itália, dez pessoas foram presas ontem, assim como na Austria, Bulgária e Sérvia. Segundo a entidade Médicos Sem Fronteira, um protesto eclodiu em cidades costeiras da Líbia diante da nova onda de mortes. 

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