Azad Lashkari / Reuters
Azad Lashkari / Reuters

Barzani anuncia vitória do 'sim' à independência do Curdistão

Presidente da região diz ser a favor do diálogo com o governo do Iraque para resolver divergências

O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2017 | 16h07

BAGDÁ - O presidente da região curda do Iraque, Masoud Barzani, afirmou nesta terça-feira que o "sim" à independência foi vitorioso no plebiscito realizado na segunda-feira.

Em um discurso televisionado, Barzani pediu "diálogo" com Bagdá, que rejeitou a votação, afirmando que ela foi inconstitucional. Barzani se disse a favor do diálogo, afirmando que ele era "para um futuro melhor", acrescentando que "as negociações são o caminho certo para resolver os problemas, não as ameaças ou o idioma da força".

Os curdos do Iraque realizaram uma votação na segunda-feira sobre uma independência de Bagdá, apesar da forte oposição do governo iraquiano, da Turquia e do Irã. 

O primeiro-ministro do Iraque, Haider al-Abadi, deu nesta terça-feira 72 horas às autoridades do Curdistão autônomo para que entreguem a Bagdá o controle dos aeroportos e fronteiras.

"O governo decidiu proibir os voos internacionais a partir de e para o Curdistão dentro de três dias se os aeroportos não forem entregues ao governo central", afirmou à imprensa.

Barzani esclareceu que o referendo não levará a uma declaração de independência imediata, mas que marcará o início de "discussões sérias" com Bagdá para resolver os contenciosos.

Mais de 3,3 milhões de pessoas, 72% dos eleitores, votaram, segundo o porta-voz da Comissão Eleitoral, Sherwan Zarar.

Diante da situação, o Parlamento de Bagdá votou uma resolução "exigindo que o comandante-chefe do Exército (o primeiro-ministro Abadi) enviasse forças para todas as áreas" controladas pelos curdos após a invasão americana de 2003 e a queda do ditador Saddam Hussein.

Constitucionalmente, o governo é obrigado a acatar esta decisão. As áreas em disputa então localizadas fora da região autônoma do Curdistão: a rica província petrolífera de Kirkuk e setores de Nínive (norte), Dyala e Saladin (ao norte de Bagdá). 

A maioria destas áreas foram conquistadas pelos combatentes curdos peshmergas em 2014, aproveitando-se do caos causado pela ofensiva do grupo extremista Estado Islâmico (EI).

Países vizinhos como Turquia e Irã, preocupados se suas minorias curdas seguirão o mesmo exemplo, também ameaçaram com represálias.

A pedido do Iraque, o Irã proibiu os voos para o Curdistão iraquiano. Na segunda-feira, anunciou o próximo fechamento das fronteiras terrestres com o Curdistão, ainda sem concretizar.

Os Estados Unidos advertiram que um referendo de independência "aumentará a instabilidade". 

"Os Estados Unidos estão profundamente desapontados com o fato de o Governo Regional do Curdistão ter decidido conduzir hoje um referendo unilateral sobre a independência, inclusive em áreas fora da Região do Curdistão do Iraque", disse a porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert, em um comunicado.

"O relacionamento histórico dos Estados Unidos com o povo da Região do Curdistão iraquiano não mudará com o referendo não vinculante de hoje, mas acreditamos que este passo aumentará a instabilidade e dificuldades para a região do Curdistão e seu povo".

Em Nova York, o secretário-geral da ONU, António Guterres, se declarou "preocupado" com o risco de desestabilização e fez um chamado ao "diálogo e aos compromissos".

Divididos entre Iraque, Síria, Irã e Turquia, os curdos nunca aceitaram o  tratado de Lausanne de 1923, o qual os deixou sem um Estado independente. / AFP e AP

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