Base de Bagram reproduz América no Afeganistão

Instalação militar tem lanchonetes, academias e prisão à qual a imprensa não tem acesso

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2009 | 00h00

A Base Aérea de Bagram é uma pequena América no meio do Afeganistão. São cerca de 19 mil pessoas e menos da metade é militar - a maioria é de prestadores de serviços civis. Para que os americanos se sintam em casa, foram trazidas lojas Pizza Hut, Burger King e salas de ginástica. Patrícia Campos Mello faz o diário do conflito no Afeganistão em seu blogMas Bagram abriga também a polêmica prisão na qual há muito mais prisioneiros que Guantánamo, está cercada de acusações de tortura, mas o presidente Barack Obama nem sequer cogita da possibilidade de fechá-la. Diferentemente de Guantánamo, a imprensa é proibida de visitar o local.Em toda a base de Bagram, há regras rígidas para os jornalistas. O repórter tem de assinar um termo de compromisso garantindo que não vai tirar fotos ou fazer entrevistas se não estiver escoltado por um oficial. Na cobertura em campo, é possível entrevistar qualquer um - apenas, por questão de segurança, não se pode revelar localizações exatas ou detalhes de operações.Após desembarcar na base de Bagram, jornalistas e soldados são levados de avião ou helicóptero para as bases avançadas. Segundo militares, esta é uma guerra espalhada. Norte e oeste do Afeganistão estão mais calmos, leste e sul, mais perigosos. Helmand e Kandahar, no sul do país, são os piores locais, mas o leste tem vários bolsões de violência. Os ataques são esparsos. Ontem, por exemplo, uma equipe da rede de TV americana PBS esteve no Torkham Gate, principal porta de entrada para o Paquistão. Estava tudo razoavelmente calmo. Uma hora depois que eles saíram, um homem-bomba se explodiu. No dia 30, um homem vestindo uma burca cometeu uma atentado suicida no mesmo local."Não é como o Iraque, onde ouvíamos bombas o tempo inteiro e não dava para sair do carro. Aqui dá para andar pelas cidades, mas às vezes acontecem ataques nos lugares mais inesperados", disse a produtora do programa, Marcella Gaviria.CALORAlém do risco dos dispositivos explosivos improvisados, as bombas caseiras que explodem nas estradas e veículos, os soldados têm de enfrentar o calor.Um fotógrafo que acabou de voltar do sul do Afeganistão contou que muitos soldados são vítimas de "choque hipertérmico". Com a temperatura em Helmand chegando aos 47°C, alguns soldados voltam da patrulha e, de repente, desmaiam ou começam a vomitar. "Algumas pessoas não entendem por que estou aqui, não veem a ligação entre terrorismo e esta guerra", diz a cabo Opall Hoode, de 21 anos. "Eles não sabem que, se sairmos daqui, os terroristas vão bater em nossas casas de novo."Hoode entrou para o Exército com 18 anos. Havia acabado de terminar o colégio. Por três meses, sua mãe chorou todos os dias. Hoode está há seis meses no Afeganistão. Como ganha adicional de periculosidade e gasta pouco na base, está prestes a quitar seu carro, um Scion Toyota de US$ 15 mil. Quer continuar no Exército para juntar mais dinheiro. Muita gente se oferece para voltar, e consegue com isso um bom dinheiro.O ''Estado'' acompanha ofensiva anti-Taleban Os EUA estão lançando uma ofensiva contra o Taleban. A correspondente do ?Estado? em Washington, Patrícia Campos Mello, vai passar algumas semanas acompanhando os soldados americanos no Afeganistão. O resultado desse trabalho será apresentado pelo ?Estado? e pelo portal Estadao.com, que incluirá as postagens no blog da repórter.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.