Base kirchnerista troca de discurso e agora elogia Scioli

Logo após moderado receber aval de Cristina para ser único governista a disputar presidência, militância acha virtudes onde só havia defeitos

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2015 | 02h03

Os militantes do grupo La Campora, que reúne os jovens kirchneristas mais extremistas na defesa do movimento que comanda a Argentina, foram radicais também ao trocar de opinião sobre o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli. O mesmo ocorreu com os intelectuais do Carta Aberta, ligado à ala mais à esquerda da administração, que deu "apoio absoluto" ao político moderado que "não os representava".

O novo status de Scioli foi alcançado ao aceitar na terça-feira como vice em sua chapa a Carlos Zannini, um ideólogo do kirchnerismo, ligado historicamente à família que governa há 12 anos o país. A decisão tirou da disputa interna o ministro dos Transportes, Florencio Randazzo, que fez caminho contrário. De candidato ideal para o núcleo do kirchnerismo, passou a traidor por não aceitar concorrer à Província de Buenos Aires, um pedido da presidente.

Na noite de sexta-feira, 20 jovens se reuniam na sede da Campora no bairro de Barracas, no sul de Buenos Aires, região em que o kirchnerismo teve mais votos na última eleição (43%). Entre os temas, estava justamente a estratégia agora que o candidato preferido não está mais na disputa.

"É uma decisão da líder do movimento, que não podemos discutir", disse Nicolás "Pinguino" Rangugni. O apelido do militante de 30 anos está relacionado a sua devoção por Néstor Kircher, que governou entre 2003 e 2007, morreu em 2010 e tinha a mesma alcunha. Rangugni tem o casal Kirchner abraçado tatuado na batata de sua perna esquerda. "Confesso que jurei não votar no Scioli, mas mudei de ideia. Ele estará com Zannini, que dá a tranquilidade de que esse projeto continuará."

Todos os militantes consultados começaram a comentar a escolha de Scioli com a mesma frase: "foi uma decisão da líder desse projeto". Em seguida, vinham as razões para a rejeição original a Scioli e a aceitação repentina. "Queríamos o Randazzo e tínhamos desconfiança do Scioli, por vir dos anos 90, do menemismo", afirmou Ezequiel Vallejos, de 16 anos. "Sciolia acompanhou sempre o projeto. Algumas coisas não fez bem no governo da Província, como educação e saúde, mas mostrou ser fiel", afirmou Agustina Amaranto, de 22 anos.

Tanto a militância da Campora, encarregada de apoiar a presidente em cada um de seus discursos, quanto os cérebros do kirchnerismo consideravam Scioli um representante da ala mais conservadora do peronismo. Ele era malvisto no governo por ter encontrado com executivos do Grupo Clarín, a quem o kirchnerismo tenta desmembrar com a Lei de Mídia. Em atos oficiais, foi destratado por Cristina e houve relatos de que até verbas para a administração da província que governa, que tem 38% dos eleitores, foram restringidas por ele não ser um kirchnerista puro.

Em maio do ano passado, Ricardo Forster, líder do Carta Aberta, disse duvidar que Cristina entregasse anos de sacrifício a "um homem que não tem nada a ver com a história do kirchnerismo". Esta semana, jurou "apoio absoluto" a Scioli. Entre os que mudaram sua visão de Scioli, está seu próprio vice. Zannini era o principal incentivador da candidatura de Randazzo, que ficou sabendo pela TV que o aliado havia trocado de lado.

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