''Bases na Colômbia não são risco para a região''

Salvador Raza: especialista em planejamento estratégico; acordo entre Bogotá e Washington é uma ameaça só para quem tem uma visão simplista da estratégia americana

Entrevista com

Roberto Godoy, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

Em uma escala de grandeza, as sete instalações militares que o Pentágono quer usar na Colômbia - para abrigar duas bases operacionais das forças americanas, centros de inteligência, de comunicações e logística - nem se aproximam do grau de perigo representado pelos "mareros", os violentos marginais das gangues conhecidas como "maras", que avançam rápido desde os países centro-americanos em direção à América do Sul. "Esta é a real ameaça para a América Latina inteira", acredita o professor Salvador Ghelfi Raza, especialista em planejamento estratégico e de segurança. De acordo com ele, a discussão sobre o acordo de cooperação militar entre Bogotá e Washington "transformou-se em ameaça apenas para quem tem uma visão simplista e amadora do desenho estratégico americano". Diretor do Centro de Tecnologia, Relações Internacionais e Segurança (CeTRIS), Raza está trabalhando em projetos de capacitação de pessoal e programas de criação de estratégias no Peru, México, Guatemala, El Salvador, República Dominicana, Paraguai e Jamaica. Na semana passada, de passagem pelo Brasil, concedeu entrevista ao Estado.Há uma ameaça para o Brasil na cessão instalações militares da Colômbia para o uso de tropas dos EUA?Não. Bases, sejam quais forem, não são ameaças por si mesmas. O que as transforma em plataformas de potencial ameaça é a intenção de instalar vetores de ataque em número suficiente para criar credibilidade a respeito de uma intenção hostil e, simultaneamente, a percepção pelo país ameaçado da intencionalidade de um ataque. As bases na Colômbia estão se transformando em "ameaças" por diversos fatores. O principal deles é a visão distorcida da função das intenções que justificam a construção das bases, forjada sobre uma avaliação simplista e amadora do desenho estratégico americano. Setores do governo brasileiro defendem a tese de que o quadro favorável do momento pode se alterar nos próximos anos...É um argumento simplista afirmar que um dia tudo pode mudar. Quem diz isso não só desconhece como se configuram potenciais ameaças de defesa, como não tem a menor ideia de como funciona o sistema de segurança internacional. Qual é a principal ameaça para a segurança da América Latina?O esgarçamento do tecido social é o maior risco regional. O frágil equilíbrio de segurança da América Latina é mantido pela pressão que certos valores sociais exercem para impedir a erupção generalizada de grupos marginais violentos e de outras organizações que exercem sua intenção política por meios violentos de forma muito mais sofisticada do que todos aqueles que já vimos no Brasil. Onde senhor localiza esses movimentos?Já existem na America Central mais de 300 mil jovens militantes integrados a esses grupos marginais. São os "mareros". É o flagelo social máximo de El Salvador, Guatemala e Honduras. Se esse movimento chegar ao Brasil - e posso dizer que já está a caminho - não haverá polícia que o contenha. Nem com a ajuda das Forças Armadas. As gangues cariocas e paulistas não chegam nem perto da capacidade destruidora dessa gente. Essa nefasta condição de insegurança alimenta o tráfico de drogas, de armas e de pessoas que sustenta a nova guerrilha emergente na América Latina. Os governos não reagem a essa situação?Ambos os fenômenos estão lastreados na corrupção política. Nunca houve tanta corrupção na região. E também nunca houve tanta omissão com relação à corrupção. A inércia frente a essa perversão contamina a sociedade. Quando a infecção romper o tecido social teremos uma nova explosão de violência na America Latina. Para 2020, que cenário o senhor traça para a América Latina?Temos diversos problemas pela frente. O forte impacto das tecnologias de informação deverá modificar as capacidades de defesa. Pode haver simultaneidade de crises nas sete dimensões da segurança: ambiental, tecnológica, territorial, informacional, humana, empresarial e energética. Conflitos abertos entre blocos sub-regionais também estão voltando ao portfólio de possibilidades.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.