Bashar Assad está promovendo uma escalada da guerra?

Uso de mísseis Scud não reflete intensificação do conflito

É PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS EM HARVARD, STEPHEN M., WALT, FOREIGN POLICY, É PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS EM HARVARD, STEPHEN M., WALT, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h06

Forças leais ao ditador sírio Bashar Assad teriam começado a lançar mísseis Scud contra grupos rebeldes. Uma notícia publicada no jornal The New York Times, quarta feira, reportava uma "significativa escalada" dos combates, mas não ficou perfeitamente clara a razão disso.

Em particular, o uso de mísseis reflete uma tendência generalizada, mas sempre injustificada, de se considerar a introdução de qualquer nova arma num combate como uma forma de "escalada", mesmo que não haja um aumento em termos de destruição, alvos da guerra ou escopo geográfico.

Em seu livro War: Controlling Escalation, Richard Smoke sublinhou que o termo "escalada" tem muitos significados no discurso estratégico.

Às vezes refere-se a alvos de guerra, outras vezes aos meios empregados nos confrontos e outras ainda ao escopo do conflito. Quando falamos em escalada de um conflito, contudo, comumente queremos indicar que um dos lados cruzou um limite estrategicamente importante e entrou numa fase qualitativamente nova.

Assim, podemos falar numa escalada quando os combatentes originais ampliam seus alvos, quando uma nova categoria de objetivos (cidades, civis etc.) são deliberadamente atacados, quando outros Estados se juntam ao combate, ou quando recursos muito mais letais (por exemplo, armas de destruição em massa) são utilizados.

Objetivos. Mas saber o que constitui um limite significativo é de certa maneira arbitrário. No caso da Síria, os objetivos de Bashar Assad não mudaram e não há nenhum sinal de que os Scuds estão sendo utilizados para atacar novos alvos. Em vez disso, as forças de Assad parecem estar usando uma arma diferente para alcançar os mesmos fins (ou seja, a derrota das forças rebeldes e a manutenção de seu governo no poder).

Como os Scuds estão armados com alto explosivo convencional, por que supor que o uso de um sistema diferente de transporte da carga de ataque é, por si só, uma "escalada"? Se Assad começasse a empregar cavalaria, balões de ar quente, tanques de guerra ou lanças, chamaríamos isso de "escalada"? Tenho dúvidas.

O uso deste termo pelo New York Times implicitamente sugere que a mera utilização de qualquer tipo de míssil balístico seria por definição um nível "mais alto" da guerra, mesmo que tais mísseis não ameacem ou matem tantas pessoas quantos outras armas.

Ogivas nucleares. O Scud é um míssil balístico de alcance tático, originalmente desenvolvido pela União Soviética. Ele transporta uma carga modesta de cerca de 900 a 1 mil quilos; o suficiente para produzir grandes danos, mas não é uma forma de arma de destruição em massa, salvo se estiver equipado com ogivas nucleares ou químicas.

A versão mais moderna desse míssil, o Scud-D, teria uma probabilidade de erro circular de 50 metros (em teoria); versões anteriores são muito menos precisas.

Não há dúvida de que as forças de Assad podem provavelmente estar usando Scuds contra alvos rebeldes com alguma eficácia, e o uso de mísseis deste tipo poderá ajuda-los a evitar os mísseis antiaéreos portáteis, os chamados Manpads, ou outras formas de defesa contra mísseis que estão agora aparecendo nas mãos dos rebeldes.

Mas o uso do termo "escalada" significaria que o governo sírio de alguma maneira está levando o conflito para um novo plano. Não parece ser o caso - pelo menos no momento - porque os Scuds não são significativamente mais letais do que outros meios, como o ataque de artilharia, que Assad já usou contra a população síria.

O que me preocupa, naturalmente, é que o emprego descuidado da linguagem convença as pessoas de que a guerra está se intensificando rapidamente e isso fortaleça o coro de vozes exigindo que os Estados Unidos se envolvam mais vigorosamente no conflito sírio.

Pessoas sensatas podem discordar disso, mas o simples fato de que Assad esteja utilizando Scuds é muito irrelevante. Esta decisão pode ser sinal do seu desespero crescente; neste caso, espero que medidas diplomáticas criativas possam convencê-lo a deixar a Síria antes que todo o país seja destruído.

Exceto se ele carregar os mísseis com ogivas químicas ou estabelecer novos alvos de ataque, o fato de estar utilizando Scuds não é tão significativo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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