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'Bashar vai sair do retrato e a Síria será vendida'

Integrante de conselho dos rebeldes tem pouca esperança nos resultados da conferência de paz que acontecerá na Suíça

Entrevista com

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2014 | 02h06

Aviões do regime sírio estão apoiando o grupo sunita Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil) em sua luta contra outros grupos rebeldes. A afirmação é de Abu Maen, o nome de guerra de um membro do conselho local de Minbej, cidade controlada pelos rebeldes na província de Alepo. Em entrevista ao Estado, o estudante de ciência política de 21 anos descreve a guerra em múltiplas frentes, do terreno, no norte da Síria. E manifesta seu pessimismo em relação à conferência de paz que começa na quarta-feira, na Suíça: "O resultado de Genebra 2 será uma mistura do velho governo com os novos islamistas, que também não nos representam, mas infelizmente têm muito dinheiro e armas".

A Al-Nusra e o Isil são aliados ou inimigos?

ABU MAEN - Neste momento são inimigos, embora ambos sejam grupos da Al-Qaeda que apenas têm diferentes abordagens da Síria. Eles estão se enfrentando em muitas partes do país no momento: Dana, Raqqa, Deir al-Zour.

A Al-Nusra apoia os outros grupos rebeldes?

ABU MAEN - Não. Ela combate o Isil por interesse próprio, e ao mesmo tempo aproveita os ataques em grande escala dos outros grupos rebeldes contra o Isil.

É verdade que a luta contra as forças do regime praticamente parou, enquanto os grupos rebeldes lutam contra o Isil?

ABU MAEN - Quase. A luta não parou, mas os grupos rebeldes não estão avançando. Estão só mantendo suas posições, até que acabe a luta contra o Isil.

De onde você acha que vêm o dinheiro e as armas para o Isil?

ABU MAEN - Acho que vêm de várias fontes, mas, principalmente, do regime mesmo, porque em todas as batalhas contra o Isil o regime está bombardeando os rebeldes de forma a ajudá-lo. Por exemplo, em Bab al-Hawa (posto de fronteira que abriga um depósito de armas na divisa com a Turquia), há uma semana, o Isil cercou nosso grupo. Outro grupo chamou os revolucionários de Minbej. Quando nossos aliados tentaram enviar reforços, aviões do regime bombardearam os comboios. Da mesma forma, em Atareb, enquanto o Isil estava atacando o 46° quartel, liberado pelos rebeldes há pouco mais de um ano, os aviões do regime bombardeavam o quartel.

Você tem esperança na conferência do dia 22 na Suíça?

ABU MAEN - Não, porque acredito que ela vá vender a revolução. Embora possa estancar o derramamento de sangue, não porá fim à ditadura e à máfia da família Assad. Nosso problema não é só Bashar, mas o governo e as instituições que produzem essas ditaduras. Não há representação legítima da revolução síria. Ignorando as vozes de dentro (do país), a falsa oposição está indo à conferência. Não confiamos em uma oposição formada por um punhado de marionetes controladas de fora, que só estão lá para defender interesses estrangeiros na Síria, para vender para outros países contratos de reconstrução da Síria. Esses oposicionistas de torre de marfim estão muito distantes da luta e das reivindicações da revolução síria. Como vamos esperar que eles nos representem e apresentem soluções apropriadas? O resultado de Genebra 2 será uma mistura do velho governo com os novos islamistas, que também não nos representam, mas infelizmente têm muito dinheiro e armas. Bashar vai sair do retrato e a Síria será vendida a quem der mais. Não foi para isso que meus irmãos e irmãs morreram.

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