BASQUETE SOBRE RODAS ELEVA ESTIMA DE AFEGÃOS

Esporte dá novo ânimo a vítimas de minas e tiros, que fazem planos para disputa no Brasil

O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2014 | 02h04

Aos 3 anos, Sabir deu um passo que mudaria para sempre a sua vida. A explosão da mina em que pisou foi tão violenta que lhe arrancou as duas pernas. Filho mais velho de doze irmãos, ele cresceu fabricando manualmente brinquedos com os quais não podia brincar, para ajudar no sustento da família. A habilidade garantiu a ele um emprego melhor, ironicamente fabricando pernas artificiais - próteses que ele não pode usar, por causa da altura em que foi amputado. Nada disso, no entanto, impediu Sabir, hoje com 24 anos, de voar. "Quando estou jogando basquete, eu esqueço de tudo, eu sinto que posso voar", diz o capitão da primeira equipe nacional de basquete sobre rodas do Afeganistão, que treina por uma vaga para os Jogos Paralímpicos no Brasil em 2016.

A equipe nacional foi formada no ano passado e acaba de ser oficializada pelo Comitê Paralímpico do Afeganistão. O projeto foi criado pelo americano Jess Markt, que feriu a coluna e perdeu os movimentos das pernas depois de um acidente de carro nos EUA, quando tinha 19 anos. Em 2009, Markt viajou ao norte do Afeganistão para formar e treinar o primeiro time de basquete sobre cadeiras de rodas do país. No ano seguinte, o projeto ganhou apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), como parte do tratamento de amputados.

Hoje, há sete times no Afeganistão e, no ano passado, foi organizado o primeiro torneio nacional de basquete sobre cadeiras de rodas - a equipe de Mazar-i Sharif, no norte, foi vencedora. "Você não imagina a mudança que o esporte provocou na vida deles. É fantástico", diz o fisioterapeuta italiano Alberto Cairo, que vive já 25 anos no país e é responsável por centros de reabilitação de amputados.

Com os US$ 300 que recebe fazendo próteses - o salário médio no Afeganistão é de US$ 200 para os que têm sorte de estar empregados - e com os músculos que conseguiu jogando basquete, Sabir ajudou a construir a própria casa, de três quartos. Analfabeto, impedido de ir à escola pela miséria e a deficiência, ele agora fala em estudar e procurar uma noiva. "É muito difícil para ele nessas condições, mas como tem um emprego, uma casa boa e se tornou um herói nacional, Saber agora tem chances de se casar", acredita o treinador.

O fisioterapeuta ri ao relatar como os jovens jogadores passaram a usar camisetas apertadas para exibir os músculos agora fortes nos braços. "Além dos benefícios para a saúde e de se tornarem mais independentes, por causa da melhora física, a autoestima deles está nas alturas e isso mudou a vida deles", diz o fisioterapeuta. "Quando jogam, eles escutam os torcedores gritar seus nomes. Eles se tornaram heróis nacionais."

Mohamadullah foi atingido na coluna por uma bala quando tinha 12 anos, pego de surpresa em um confronto entre facções durante a guerra civil afegã (1992-1996). Ele perdeu os movimentos da altura do tórax para baixo. Agora é um dos mais celebrados jogadores da equipe nacional de basquete. "Todos querem jogar com ele, porque ele divide a bola e faz passes certeiros, como nenhum outro", diz Cairo.

Nação de amputados. Minas terrestres, milhares delas deixadas para trás ainda pelos soviéticos, ferem em média duas pessoas por dia no Afeganistão. Mas o aumento de atentados suicidas e com bombas detonadas a distância tem agravado ainda mais a situação. "Temos recebido no hospital mais casos de pessoas que têm as duas pernas amputadas, e não somente uma, como é comum nos ferimentos provocados pelas velhas minas soviéticas. Os ataques a bomba no Afeganistão não apenas aumentaram em número como se tornaram mais letais", diz Cairo.

Estima-se em 1 milhão os amputados no Afeganistão. Já a morte de civis aumentou 16% em 2013, em relação ao ano anterior. "É muito triste o que está acontecendo. Eu recebo aqui pedidos diários de recomendação para visto, o que não posso fazer! Todos estão tentando sair do país, todos", diz Cairo. Ele tenta desesperadamente dar uma alternativa aos que, como ele, querem ficar. Em maio, o time nacional de basquete viaja para um amistoso na Itália. E em outubro, disputa na Coreia do Sul uma vaga nas Paralimpíadas no Brasil. "Mas precisamos de mais apoio, de mais amistosos para estarmos preparados. Ir ao Brasil é um sonho." / A.C.

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