Basta de guerras

O termo é usado para tudo, mesmo que não seja um conflito

CHARLES LANE, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h07

Não sei quanto a você, mas estou enjoado e cansado de guerras. O Comitê Nacional Democrata acusa o Partido Republicano de uma "guerra republicana contra as mulheres", apoiada na sua "guerra contra as famílias da classe média" (segundo o Progressive Change Campaigh Committee) e na "guerra de Paul Ryan contra os veteranos" (o democrata Jan Schakowsky).

Vários republicanos acusam o presidente Barack Obama de estar travando uma "guerra contra a liberdade religiosa" ou mesmo, nas palavras do governador do Texas, Rick Perry, "uma guerra contra a religião". Segundo o Comitê Nacional Republicano, o presidente está também travando uma "guerra contra a energia", aparentemente uma sequela do que a liderança republicana na Câmara chamou de a "guerra "dos democratas contra os empregos americanos".

O título do novo livro do escritor progressista Chris Mooney é The Republican War on Science (A guerra republicana contra a ciência); para não ficar para trás, os conservadores Grover Norquist e John R. Lott Jr publicaram Debacle: Obama's War on Jobs and Growth (Debacle: a guerra de Obama contra os empregos e o crescimento).

Um editorial no Washington Times alertou os contribuintes de Wisconsin que "o presidente Obama e o Comitê Nacional Democrata declararam "guerra contra vocês". O cartunista Garry Trudeau, criador do Doonesbury, observa que Rick Santorum, Rush Limbaugh e outros acham que esta é uma época propícia para declarar "guerra contra metade do eleitorado".

E assim por diante, até você perder de vista o fato de que nenhuma destas instituições ou indivíduos está descrevendo um conflito físico em que as pessoas lutam, sangram e morrem. Naturalmente, existem muitas guerras de verdade sendo travadas pelo mundo; em algumas delas, americanos estão morrendo. Mas as pessoas em casa, ocupadas com suas disputas em ano eleitoral, têm pouco interesse em discutir esses assuntos.

Não, os criadores de metáforas estão se referindo aos desacordos políticos entre cidadãos da mesma democracia. E a última vez que chequei, muitos desses desacordos vinham sendo manifestados por meios pacíficos e nenhum dos lados nesses debates tinha o monopólio da verdade. Sem dúvida, estamos travando "guerras contra" isto ou aquilo há décadas. Os EUA são um país tão diverso e argumentador que a guerra, verdadeira ou metafórica, tem sido uma das poucas causas capazes de unir suas várias facções, regiões e raças. Por causa disso, tivemos a guerra contra a pobreza de Lyndon Johnson, a guerra contra as drogas de Richard Nixon e a guerra contra o câncer de vários presidentes.

Metáforas usadas para tentar transformar uma ameaça abstrata num inimigo particular e assim congregar o país num esforço comum. E isso era totalmente diferente do que os polarizadores profissionais que dominam a política atual e seus respectivos aliados na mídia estão tentando alcançar.

Denunciar uma "guerra contra as mulheres" provavelmente não atrairá muitos republicanos ou independentes para a causa democrata. A meta é inflamar a base democrata.

O objetivo é incentivar os americanos a se olhar como inimigos e, no final, a se odiarem. As "guerras contra" neste momento são todas guerras civis. Em meio à confusão de postagens nos blogs, no Twitter, Facebook, entrevistas em rádio e o restante, somente a hipérbole tem a chance de abrir caminho. Mesmo assim, muitas pessoas, se desconectam da propaganda "de guerra" dos partidos. Quanto mais estridente ela é, menos a sério ela é recebida.

Para qualquer pessoa, está é uma resposta mentalmente saudável. Mas, ao se multiplicar pelo eleitorado inteiro, o efeito pode ser corrosivo. Quando você considera uma pessoa inimiga, é mais difícil confiar, respeitar ou cooperar com ele ou ela. Na realidade, esses comportamentos começam a cheirar a traição, e não o que na realidade são: os requisitos mínimos da vida democrática.

No seu site, Frank Luntz, antigo estrategista do Partido Republicano, fala sobre "transformar meras palavras num arsenal eficaz para a guerra de percepção que travamos diariamente". Segundo Luntz , "todos nós cedemos ante o poder da linguagem, sabendo disso ou não" Temo que ele esteja certo. Mais uma razão para parar com as guerras. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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