Elizabeth Hernandez via AP
Elizabeth Hernandez via AP

Bastião de Trump se une por um mexicano

Cidade em que presidente teve 70% dos votos quer agora evitar deportação do exemplar Carlos

Monica Davey / The New York Times, O Estado de S. Paulo

28 Fevereiro 2017 | 05h00

WEST FRANKFORT, EUA - Quem pergunta a moradores dessa área carbonífera o que eles pensam da decisão do presidente Donald Trump de expulsar imigrantes ilegais, vê que muitos não protestam. Trump venceu com facilidade nesse condado de maioria branca ao sul de Illinois e vem fazendo o que prometeu, dizem. Como afirmou Terry Chambers, barbeiro, o presidente só quer “se ver livre dos maus elementos”. Mas, então, levaram Carlos.

Juan Carlos Hernández Pacheco, ou simplesmente Carlos para as pessoas de West Frankfort, é o gerente do restaurante La Fiesta, que funciona nessa cidade de 8 mil habitantes há dez anos. Mas Carlos é conhecido também por outras coisas.

Quando, em uma noite no ano passado, os bombeiros combatiam um incêndio importante, Hernández chegou de repente trazendo comida para os homens em serviço. Ele recepcionou os policiais no Dia de Apoio à Polícia, num momento em que a categoria era duramente criticada no país. Ele participa de todos os comitês comunitários e instituições de caridade.

“Acho que as pessoas têm de fazer as coisas da maneira certa, cumprir as regras, obedecer a lei e acreditar firmemente nisso”, disse Lori Barron, proprietária do salão de beleza Lori’s Hair A’Fairs. “No caso de Carlos, ele tem feito mais pelas pessoas aqui do que elas por ele. Acho simplesmente terrível que ele seja expulso.”

Dia 9, Hernández, de 38 anos, foi preso por agentes da imigração perto de casa, não muito longe do seu restaurante. O levaram para um centro de detenção em Missouri. As autoridades federais não explicaram as razões da prisão. Apenas observaram que ele tinha duas condenações por dirigir embriagado desde 2007, o que seria motivo prioritário para uma deportação. Amigos dizem que ele saiu do México nos anos 90, mas nunca tomou providências para legalizar sua situação.

Quando Victor Ariana, advogado de Hernández, entrou com pedido no tribunal para libertar seu cliente mediante pagamento de fiança, a comunidade aderiu. Tom Jordan, prefeito, escreveu que Hernández era “uma pessoa valiosa” e “jamais pediu alguma coisa em troca”. O chefe dos bombeiros o descreveu como “um homem de grande caráter”. Foi um acúmulo de cartas – do promotor do condado, do chefe dos correios, do dono da concessionária, do presidente do Rotary Clube. Em nota, Richard Glodich, diretor de atletismo de uma escola, escreveu: “Como neto de imigrantes, sou totalmente a favor da reforma das leis de imigração, mas desta vez vocês prenderam um HOMEM BOM que deve ser considerado exemplo para outros imigrantes”.

É uma situação embaraçosa para uma cidade como West Frankfort, no condado de Franklin, cuja população apoiou Trump com 70% dos votos. Eles esperavam o relançamento de uma indústria do carvão. A imigração ilegal não era uma questão premente. Mas muitos afirmam que, em princípio, concordam com o desejo de Trump de impedir a entrada de quem atravessa sorrateiramente a fronteira. “Sabia que Carlos era mexicano, mas ele está aqui há muito, é um de nós”, disse a moradora Debra Johnson. Ela disse que sabe fazer a distinção entre “pessoas que chegam aqui e só usam o sistema e aquelas que chegam e ajudam”. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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