Kevin Lamarque/ Reuters
Kevin Lamarque/ Reuters

Bastidor: O dia em que os destinos de Trump e Bolsonaro se cruzaram

Tivesse o Conselho de Ética votado pela continuidade do processo, Bolsonaro e Trump não se cruzariam dois anos depois, ambos como presidentes

Andreza Matais, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2020 | 17h39

BRASÍLIA - Há quatro anos os jornais anunciavam a vitória de Donald Trump como o primeiro presidente não político da história americana. Na mesma edição, a imprensa noticiava o que, olhando para trás, abriu caminho para o Brasil eleger, dois anos depois, uma réplica do empresário conservador americano. O Conselho de Ética da Câmara havia rejeitado, por 11 votos a favor e 1 contra, um processo contra Jair Bolsonaro por apologia à tortura.

Foi a ex-presidente Dilma Rousseff quem, curiosamente, uniu os triunfos de Bolsonaro e de Trump na mesma edição. O brasileiro foi parar no Conselho de Ética por ter dedicado seu voto no processo de impeachment ao coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, a quem nominou como “o terror de Dilma Rousseff”, no que foi entendido como apologia ao crime de tortura. Ustra é considerado um “herói nacional” por Bolsonaro. Para grupos de direitos humanos, um dos símbolos da repressão durante a ditadura militar.

O único voto contra Bolsonaro na sessão que garantiu a ele liberdade para usar sua metralhadora giratória em nome da “livre expressão” foi dado pelo então deputado Odorico Monteiro (CE). Tivesse o colegiado votado pela continuidade do processo, Bolsonaro e Trump não se cruzariam dois anos depois, ambos como presidentes. O Conselho de Ética é o primeiro passo para a cassação do mandato de um parlamentar e seu parecer nesse sentido nunca foi reformado pelo plenário. A cassação implica em perda de direitos políticos, o que tiraria Bolsonaro da eleição de 2018.

As coincidências  daquele novembro de 2016, quando os jornais impressos anunciaram a eleição de Trump e a absolvição de Bolsonaro, não se resumem ao destino dos dois políticos. No mesmo mês, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovava o teto de gastos, hoje defendido pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, mas com oposição dentro do próprio governo.  A inflação estava acelerada, mas o vilão era o combustível e não os alimentos, como agora.

Ao retratar a vitória de Trump, os jornais também lembraram  das apostas que se mostraram erradas. Assim como agora, Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, declararam apoio à reeleição do presidente americano e foram criticados por isso. À época, o então chanceler José Serra teve que se explicar por ter apoiado Hillary Clinton.

O tucano havia dito, durante a campanha, que a vitória de Trump seria um “pesadelo” e apelou “a todos que querem o bem do mundo” que votassem em Hillary. Para sair da saia-justa, Serra recorreu a uma metáfora futebolística, no melhor estilo Bolsonaro – “treino é treino e jogo é jogo” –, numa tentativa de zerar o placar diante do resultado. O então presidente Michel Temer foi mais cauteloso e optou por dizer que a vitória de Trump não mudaria “em nada” as relações do Brasil com os EUA. Assim, não teve que se explicar depois.

O discurso de vitória de Trump, que os jornais trouxeram na íntegra, mostrava mais uma coincidência com o que o Brasil viveria mais à frente. Na ocasião, o recém-eleito presidente americano destacou o apoio dos militares a seu governo. “Mais de 200 generais e almirantes declararam apoio à nossa campanha, e eles são pessoas especiais. É uma honra”, discursou. Ele não tinha nem tomado posse ainda para o seu primeiro mandato, quando externou a sua intenção de se reeleger. “Aguardo, ansiosamente, o momento em que me tornarei seu presidente. E, com sorte, depois de dois, ou três, ou quatro anos, ou até quem sabe oito anos, vocês dirão que fizemos algo grande. Vocês se orgulharão de ter participado e eu vou agradecê-los”, disse ele. A conferir.

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